Notícia

A Cidade e a História

O passado ainda sobrevivente em São Félix do Paraguaçu

Publicado em 15 junho 2019

Por Clênio Sierra de Alcântara

Uma narrativa por mim consultada esclarece que as terras que atualmente constituem a cidade de São Félix, situada à margem direita do Rio Paraguaçu, no Recôncavo Baiano, e que dista a cerca de 118 km de Salvador, eram primitivamente uma grande aldeia de índios tupinambás que, em 1534, contava vinte palhoças habitadas por pouco mais de duzentos indivíduos. Naquele ano chegaram à região os primeiros portugueses para explorar as terras e o comércio de madeiras, comércio esse que acabou estimulando o povoamento do lugar e a edificação de casas residenciais e também de negócios.

Quase que concomitantemente com a exploração de madeiras que facilmente eram escoadas pelo Rio Paraguaçu, os portugueses, juntamente com a mão de obra indígena, deram início à plantação de cana de açúcar e à montagem de engenhos, atividades essas que seriam incrementadas para valer com a introdução de negros escravizados em 1549. (1)

A história do surgimento e desenvolvimento de São Félix está intimamente ligada à vizinha cidade de Cachoeira, localizada no outro lado da margem do caudaloso curso d’água. Fundada no último quartel do século XVII, a freguesia denominada de Nossa Senhora do Rosário do Porto da Cachoeira abarcava um território extenso que incluía as terras de São Félix.

Há séculos as águas do Rio Paraguaçu são as principais testemunhas das mudanças que transformaram a primitiva aldeia indígena em uma cidade. E certamente o primeiro registro visual do sítio urbano sanfelista – um sítio urbano ainda em formação, destaque-se isso – é uma aquarela de fins do século XVIII, de autoria desconhecida, que ilustra um manuscrito intitulado Memoria sobre as especias de tabaco que se cultivão no Brasil, com as observações sobre a sua cultura, commercio, artes, e com a descripção botânica das mesmas especias, estampas illuminadas e mappa da Villa de Cachoeira, elaborado pelo naturalista e homem público Joaquim do Amorim Castro em 1792.

Fonte: Imagens de vilas e cidades do Brasil Colonial, p. 55

Esta aquarela é a imagem mais antiga que se conhece de Cachoeira e de São Félix

Examinando a citada aquarela vemos em detalhes a configuração espacial de São Félix, que era constituída, até aquele momento – e não podemos deixar de considerar que o casario aparece de modo esquematizado, o que nos impede de saber como eram verdadeiramente as feições dos prédios, como salientou o brasilianista Robert Smith -, por quase uma centena de edificações, entre as quais igrejas e algumas construções que tudo leva a crer que eram armazéns destinados à atividade portuária. Essa aquarela, além de rara, é um pequeno primor. E é verdadeiramente de encher os olhos. Aparecem nela ainda o numeroso casario e o traçado das ruas da então já bastante expressiva “Villa da Cachoeira”, o Rio Paraguaçu com quatro embarcações deslizando em suas águas e as montanhas repletas de árvores completando o cenário. (2)

Na descrição que fez da “Villa de Cachoeira” na carta décima terceira de suas Noticias soteropolitanas e brasilicas, que foram escritas ainda no século XVIII, Luiz dos Santos Vilhena descreve, ou melhor, se refere a São Félix nestes termos:

Há tão bem nesta Villa hum bom hospital fundado por hum Antonio Machado que fez doação aos Frades de S. João de Deus; assim como há na Cachoeira hum convento de Carmelitas calçados e no seu porto huma passagem para o Arrayal de S. Felix de que anualmente se tira um bom rendimento para a Camara. (3)

Na hierarquia das denominações que marcaram o Período Colonial brasileiro no que diz respeito aos núcleos de povoamento, o arraial, que também, aparece com a denominação de aldeia, lugarejo ou povoado, é inferior à vila que, por sua vez, está abaixo da de cidade.

O Padre Manuel Aires de Casal, que escreveu uma obra bastante rica em informações sobre diversas províncias intitulada Corografia brasílica, que veio a lume pela primeira vez em 1817, descreveu Cachoeira como “vila grande, florescente, e comerciante, repartida pelo Rio Paraguaçu em duas partes assaz desiguais”. E como eram e/ou estavam essas “duas partes assaz desiguais” à época dos registros feitos pelo Padre Aires de Casal? Acompanhemos sua longa e rica descrição:

A maior, que fica ao longo da margem esquerda, tem uma igreja paroquial dedicada a Nossa Senhora do Rosário, um convento de carmelitas calçados, uma ordem terceira subordinada aos mesmos, uma capela de Nossa Senhora da Conceição, outra de S. Pedro, um hospital de S. João de Deus, um chafariz, três pequenas pontes de pedra sobre duas ribeiras que a atravessam, a da Pitanga, e Caquende ou Faleira; cada uma das quais faz moer seu engenho de açúcar, e nenhuma tem légua de curso. Nela também está a casa da câmara.

A parte ocidental é atravessada por dois regatos a qual mais pobre, e tem duas igrejas dedicadas uma ao Menino Deus, outra a S. Felis, da qual o bairro toma o nome.

Ambos os bairros crescem: em ambos os edifícios são de pedra, e de tijolo, e as ruas calçadas. (40)

É curioso que o Padre Aires de Casal se refira a tais localidades como “bairros” porque não é comum o uso desse termo naquele período. Outra informação que ele nos oferece é de que em 1804 havia cento e noventa e quatro “fogos” em São Félix, ou seja, cento e noventa e quatro edificações. (5)

Sabe-se que a primeira freguesia foi criada pela Lei provincial de 1º de junho de 1838, com a denominação “Nossa Senhora do Desterro do Outeiro Redondo”. Anos depois veio a constituição da freguesia do “Senhor Deus Menino de São Félix”, pela Resolução de 15 de outubro de 1857, na mesma data da criação do distrito de São Félix.

Em 1859 o Imperador Dom Pedro II fez uma extensa viagem por algumas das províncias do norte do país – não nos esqueçamos de que, por essa época, o Brasil era dividido em apenas duas regiões: norte e sul -, que incluiu a Bahia. Quem já leu algumas das páginas dos diários deixados por Sua Alteza, sabe que o Imperador nem sempre fazia muitas descrições a respeito da configuração urbana das vilas e cidades que visitava. Dom Pedro II desembarcou em Cachoeira no dia 5 de novembro daquele ano. E o que foi que ele registrou em sue diário quando mencionou São Félix? Tão somente isto: “Com São Félix, arraial considerável da margem direita do rio, andará a população por 20 mil almas” (6) – é claro que ele está se referindo à Cachoeira ao utilizar o “com” inicial.

Publicada em Salvador ainda em 1859, a Viagem Imperial ou Narração dos preparativos, festejos e felicitações que tiveram lugar na província da Bahia por ocasião da visita que à mesma fizeram SS. MM. II. em outubro e novembro do corrente ano nos dá mais informações sobre São Félix durante a visita do monarca. De acordo com essa publicação Dom Pedro II desembarcou do vapor Pirajá em Cachoeira quando já era noite, às 18:30 h. Naquela noite – prossegue a narrativa – diversos grupos percorreram as ruas para saudar “os imperiais hóspedes com hinos e cantadas”. Leiamos agora esta descrição e imaginemos o cenário que deveria ser realmente encantador:

A cidade e a povoação de São Félix estiveram completamente iluminadas, oferecendo essa povoação uma vista lindíssima, produzida por uma série de portadas unidas umas às outras, e tomando a frente de toda a povoação, as quais iluminadas à noite, refletiam-se no prateado das águas do rio, estabelecendo um duplo efeito, e clareando até a cidade fronteira. (7)

Às seis horas da manhã do dia 9 de novembro Sua Majestade dirigiu-se para São Félix, onde foi recebido pelo vigário, pelo subdelegado, pelo juiz de paz à frente do povo “com muitos vivas e girândolas de foguetes”. Antes de seguir a cavalo para a freguesia de Muritiba, o Imperador visitou a Igreja Matriz, onde fez oração.

De volta a São Félix, Dom Pedro II visitou as coletorias geral e provincial, as aulas públicas de primeiras letras, a Igreja de São Félix e o estabelecimento fabril do senhor Lucas Jesler. E se despediu da povoação:

S. M. voltou de São Félix às 10 ¼ entre muitos vivas da população apinhada no cais, sendo considerável o número de foguetes que subiram ao ar durante a sua visita àquela povoação. Não podendo atravessar na galeota por falta d’água no rio, S. M. passou-se para uma canoa com quatro remeiros, que o transportaram imediatamente para a Cachoeira. (8)

Na noite do dia 11 de dezembro do glorioso ano de 1859 quem também chegou à Cachoeira foi o alemão Robert Avé-Lallemant, o incansável e por vezes áspero Robert que parecia tudo querer conhecer e de tudo querer saber. Como eu ia dizendo, era noite quando ele chegou à Cachoeira. E, ao desembarcar, não demorou a encontrar hospedagem ali pertinho do rio. Deixemos que ele próprio nos diga o que se passou e o que ele viu:

Na praça à margem encontrei logo, num hotel, do que a cidade possui pelo menos dois, acomodação conveniente. Depois da ceia, não obstante o adiantado da hora, assisti de minha janela a uma cena original.

Abaixo de mim, a praça da margem; à direita, corria mansamente o largo rio; cintilavam do outro lado, as luzes das janelas de S. Félix, a grande e bonita cidade do Norte. Tudo respira sossego, paz e descanso noturno. Mas, defronte de mim, do outro lado da praça, o diabo fazia das suas nos ecos finais duma festa de igreja. (9)

Curioso é que, mesmo depois de ter ido conhecer São Félix no outro dia, o protestante alemão Robert, que não perdia a oportunidade de achincalhar as festividades católicas, não corrigiu, digamos assim, as duas assertivas que fizera sobre aquela povoação, chamando-a de “grande” e de “cidade”, porque, São Félix não era uma coisa nem outra.

O território de São Félix foi desmembrado do de Cachoeira já no período republicano. Coube ao governador Manoel Vitorino Pereira a assinatura do Ato nº 4, de 20 de dezembro de 1889, da emancipação, cujos termos foram os seguintes:

[...] considerando o notável desenvolvimento industrial e comercial que teve o povoado de São Félix e atendendo às justas reclamações dos seus habitantes, que desejam gozar dos foros e direitos de município, resolve elevar a referida Povoação à categoria de vila, que se comporá das freguesias de São Félix, de Muritiba, Outeiro Redondo, São José do Aporá e Cabeças. (10)

Após a assinatura daquele Ato, menos de dois meses depois ocorreu a instalação da vila e do município no dia 1º de fevereiro de 1890. Ainda nesse ano deu-se sua elevação à cidade por Ato do governador Virgílio Clímaco Damásio, datado de 25 de outubro. Por nomeação o primeiro Intendente foi Geraldo Dannemann e o Vice-presidente o Dr. Salvador Pinto. Em dezembro de 1892 Dannemann foi eleito para o mesmo cargo ao qual assumira antes por nomeação. (11)

De acordo com a Divisão administrativa do Brasil concernente a 1911, os distritos de São Félix do Paraguaçu, Muritiba, Cabeças, Outeiro Redondo e Aporá compõem o município de que se trata, o qual, por força do Decreto nº 7479, de 8 de julho de 1931, passou a denominar-se apenas São Félix. Contudo, apenas dois distritos – o da sede e o de Outeiro Redondo – aparecem como constituintes do município na Divisão administrativa de 1933, bem como nas divisões territoriais de 31 de dezembro de 1936 e de 31 de dezembro de 1937, e no quadro anexo ao Decreto-lei estadual nº 10724, de 30 de março de 1938.

Ah, antes que vocês me perguntem o porquê do topônimo da cidade, eu vou logo lhes esclarecer: diz-se simplesmente que os primeiros portugueses chegaram àquelas terras no dia dedicado a São Félix Catalício, daí por que o povoado ficou tendo o topônimo São Félix.

No tempo dos trens

A imponente Estação Ferroviária: marco na paisagem da cidade

Agora recuemos um pouco no tempo para discorrermos sobre uma verdadeira instituição que existiu em São Félix como o grande símbolo do seu progresso e desenvolvimento socioeconômico e que, a exemplo de tantas outras por este país afora, desapareceu das terras sanfelistas: a sua malha ferroviária.

Avaliando o quadro comercial de Cachoeira, Robert Avé-Lallemant, em que pese a relevância por ele notada no que diz respeito às atividades ligadas ao movimento intenso no porto com os fluxos e refluxos, embarque e desembarques para Salvador, em dado momento ele escreveu assim: "Não sei se Cachoeira alcançará ainda maior desenvolvimento”. Ele registrou isso lançando o pensamento para as lavras diamantíferas da Chapada Diamantina e para os “sertões criadores” de Pernambuco e do Piauí, considerando que era em Cachoeira, onde “tudo é atividade comercial”, entrada e saída de barcos de carga e lugar de tropas de muares e cavaleiros isolados, que terminava a principal estrada que ia do Juazeiro para aquelas áreas citadas. Cachoeira era, afinal, prossegue o alemão, “um entreposto geral, especialmente para o tabaco”. Robert argumenta que tanto Salvador quanto o Recife procuravam conquistar praça no mercado por meio de estradas de ferro, enquanto que Cachoeira “ficará no caminho, talvez mesmo fora do traçado dessa via de comunicação” às margens do Rio São Francisco, “embora conservando sempre sua importância comercial na cercania – e essa é considerável em alto grau”. E completou seu raciocínio dizendo que “Atualmente [lembremos que ele esteve em Cachoeira em dezembro de 1859], já o livre trato com a vizinhança é estorvado pelo fato de não contar uma ponte para a outra margem, ligando-a a S. Félix”. (12) Essa situação iria mudar mas não seria em pouco tempo.

Fonte: As ferrovias do Brasil nos cartões-postais e álbuns de lembranças, p. 220.

Próxima à cidade de São Félix, esta ponte era o ponto inicial da Estrada de Ferro Central da Bahia

Fonte: As ferrovias do Brasil nos cartões-postais e álbuns de lembranças, p. 220

Fonte: As ferrovias do Brasil nos cartões-postais e álbuns de lembranças, p. 220

Em 1867, o Governo Imperial deu uma concessão à firma Paraguassu Steam Tram-road Company Limited para construir e explorar uma ferrovia que, tendo início em Cachoeira, atingiria a região da Chapada Diamantina, com um ramal para a cidade de Feira de Santana. Dois anos depois a concessionária faliu, após ter construído os primeiros 25 quilômetros da linha. Um inglês chamado Hugh Wilson assumiu o projeto, tendo fundado a Companhia Estrada de Ferro Central da Bahia e retomado as obras em 1874, chegando os trilhos à Feira de Santana no ano seguinte, num trajeto de 47 quilômetros, que acabou se tornando um ramal da estrada principal. De acordo com João Emilio Gerodetti e Carlos Cornejo, autores de um livro belíssimo sobre ferrovias no Brasil, a estrada principal mencionada teve origem em 1879, quando a firma de Mr. Hugh Wilson associou-se à inglesa Brazilian Imperial Central Bahia Railway Company Limited, iniciando as obras em direção à Chapada Diamantina, agora partindo de São Félix. Esclarecem esses autores ainda que:

Os dois pontos iniciais da ferrovia, Cachoeira e São Félix, acabaram sendo interligados pela Ponte D. Pedro II, uma imponente estrutura metálica, com comprimento de 365 metros, quatro vãos e largura de 9,5 metros, inaugurada em 7 de julho de 1885, na época considerada a mais importante do Brasil. (13)

Quando da publicação da Enciclopédia dos Municípios Brasileiros, na segunda metade da década de 1950, os trens ainda eram uma realidade em São Félix, tanto que, além de nos informar que a estrada de ferro atingiu a cidade em 17 de maio de 1870 e que a estação ferroviária da antiga Central da Bahia “e hoje Viação Férrea Federal Leste Brasileiro”, a Enciclopédia nos diz ainda que “Hoje é a cidade importante centro ferroviário, com oficinas de reparação, e sede de (sic) Inspetoria da Viação Férrea Federal Leste Brasileiro”. (14)

Nesta e nas fotos seguintes flagrantes da deterioração do prédio da antiga estação ferroviária

O tempo passou e São Félix atravessou o restante do século XX e adentrou no XXI como que olhando para trás com saudade da época em que a linha férrea de alguma forma representava desenvolvimento socioeconômico e progresso material e prestígio para a cidade.

A cidade destes nossos dias

Na tarde do dia 7 de dezembro de 2017, depois de ter almoçado em Cachoeira, eu atravessei a Ponte Dom Pedro II – a ponte estava passando por uma obra de revitalização – para flanar pelas ruas de São Félix, cidade que eu ficara a namorar enquanto me detive na margem oposta do Rio Paraguaçu, em solo cachoeirano. E eu fui percorrendo a ponte carregando um misto de ansiedade, por estar a caminho de novas descobertas, e frustração, por saber que não mais existiam trens por ali.

Mercado Público Municipal

Prefeitura Municipal

Andei de um lado a outro da cidade empunhando minha câmera fotográfica a fim de fazer registros do passado resistente e sobrevivente dela e me deixando, também, apreciar o cenário urbano para além dessas sobrevivências, enxergando a urbe, querendo enxergá-la, seja melhor dito, como espaço de interações humanas com suas necessidades do tempo presente.

Aqui e ali a singela São Félix exibe traços de um passado, de um tempo de prosperidade; e, volto a dizer, os trilhos da ferrovia são o maior testemunho disso. Percorri a Av. Humberto Augusto Alves e me deparei com o que um dia foi uma imponente estação de trem; e tudo ali, naquele momento de minha visita, era uma desolação só, um amontoado de ruínas, como se tudo aquilo fosse um monturo que, em dado instante, iria ser transportado para outro lugar por caminhões de coleta de lixo da Prefeitura, e não algo que tivesse tanta importância na história da cidade. Ao constatar o estado de abandono em que se encontrava a antiga Estação Ferroviária de São Félix, eu disse a mim mesmo naquela hora que a preservação do patrimônio histórico edificado e a defesa da memória urbana não eram assuntos que interessavam à gente dali. Chegou-me a especulação de que, talvez, aquele edifício – e outros que eu conheci – figurasse ali como algo que, na verdade, envergonhasse os munícipes.

Sobrado imponente carecendo de revitalização

Atravessei a Praça Rui Barbosa. Vi igrejas e a sede da Prefeitura Municipal. Observei a ocupação dos morros por residências. Verifiquei que, na parte mais antiga da cidade, vários imóveis tiveram suas fachadas alteradas para ganharem ares de coisas modernas. Entrei no Mercado Público. E parei um pouco para ver o movimento das pessoas e dos veículos naquele trecho agitado, que fica nas proximidades da Ponte Dom Pedro II.

Praça Rui Barbosa

Av. Salvador Pinto

Calmamente eu fui adentrando naquele que talvez seja o recanto mais pitoresco da parte mais antiga de São Félix, que é a Praça Inácio Tosta, que, em que pese o caráter um tanto quanto cenográfico – caráter esse, aliás, comum à maioria dos centros históricos brasileiros, dos quais, infelizmente, o que fundamentalmente se salvaguarda são os frontispícios dos prédios – que o visitante encontra ali, é um espaço que tem um valor significativo não apenas para a história do desenvolvimento urbano de São Félix bem como para a história socioeconômica do município. A lamentar que, também ali, em meio ao colorido e à atmosfera de retorno ao passado, eu encontrei edificações carecendo de trabalhos de restauro. Desculpem-me, mas novamente eu vou me repetir: parece que os sanfelistas querem se livrar desses testemunhos.

Nesta e nas quatro fotos seguintes, vistas de São Félix a partir de Cachoeira

Antes de me despedir de São Félix, eu visitei o Centro Dannemann; e caminhei na orla do Rio Paraguaçu pela Av. Salvador Pinto que, em tempos idos, possuiu um casario bastante expressivo e que atualmente é só uma parca lembrança do que um dia foi. Gostei tanto de estar ali vendo o rio, abrigado na sombra de uma árvore, que, no momento em que eu atravessava a Ponte Dom Pedro II, regressando a Cachoeira, eu parei por um instante não apenas para olhar para trás e registrar aquele cenário com a câmera fotográfica, mas também para guardar nas minhas retinas e nos escaninhos da minha memória a paisagem, o estado de torpor e as ruínas de São Félix, que eu, certamente, jamais vou esquecer.

Notas

1- Enciclopédia dos Municípios Brasileiros, vol. XXI, p. 315.

2- Robert C. Smith. “Algumas vistas da Bahia Colonial”. In Nestor Goulart Reis Filho (org.). Robert Smith e o Brasil. Cartografia e iconografia, p. 178 e 179. Na obra Imagens de vilas e cidades do Brasil Colonial, de Nestor Goulart Reis, a aquarela aparece inteira na p. 55.

3- Luiz dos Santos Vilhena. Recopilação de noticias soteropolitanas e brasílicas, carta décima terceira, p. 505.

4- Manuel Aires de Casal. Corografia brasílica, p. 239.

5- Id. ibid., p. 239.

6- Dom Pedro II. Viagens pelo Brasil, p. 194.

7- Viagem Imperial ou Narração dos preparativos, festejos e felicitações que tiveram lugar na província da Bahia por ocasião da visita que à mesma fizeram SS. MM. II. em outubro e novembro do corrente ano. In Dom Pedro II. Viagens pelo Brasil, p. 286.

8- Id. Ibid., p. 296.

9- Robert Avé-Lallemant. Viagens pelas províncias da Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe (1859), p. 60-61.

10- Enciclopédia dos Municípios Brasileiros, vol. XXI, p. 315.

11- Id. ibid., p. 321. Esse Geraldo é o alemão Gerhard Dannemann, que chegou ao Brasil em 1873 e que se estabeleceu em São Félix com uma grande fábrica de charutos. O primeiro Conselho Municipal foi nomeado pelo Ato de 4 de janeiro de 1890 e foi composto por Salvador José Pinto, Joaquim Inácio Tosta e Artur Furtado de Simas.

12- Robert Avé-Lallemant. Op. cit. Por ordem de aparição das citações: páginas 65, 65, 65, 65, 66, 66 e 66.

13- João Emiliio Gerodetti e Carlos Cornejo. As ferrovias do Brasil nos cartões-postais e álbuns de lembranças, p. 221. No citado volume da Enciclopédia dos Municípios Brasileiros, a Ponte Dom Pedro II aparece com estas dimensões: 355,64 metros de comprimento; 9,13 metros de largura; e dividida em quatro vãos de 91,41 metros cada, formados por quatro pilares de alvenaria com liga de cimento. E diz ainda que: “A via férrea passa no centro da ponte e, nos lados, há pista para pedestres e animais. Na época da inauguração, em 7 de julho de 1885, se pretendia cobrar módico pedágio o que, todavia, não se efetivou” (p. 318).

14- Enciclopédia dos Municípios Brasileiros, vol. XXI, p. 318.

Fontes e referências

AVÉ-LALLEMANT, Robert. Trad. Eduardo de Lima Castro. Viagens pelas províncias da Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe (1859). Belo Horizonte: Ed. Itatiaia; São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo, 1980.

CASAL, Manuel Aires. Corografia brasílica ou Relação histórico-geográfica do Reino do Brasil [pelo] Pe. Manuel Aires de Casal. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia; São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo, 1976.

Dom Pedro II. Viagens pelo Brasil. Bahia, Sergipe, Alagoas, 1859/1860. 2 ª ed. Rio de Janeiro: Bom Texto; Letras & Expressões, 2003.

Enciclopédia dos Municípios Brasileiros. Vol. XXI. Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 1958.

GERODETTI, João Emilio e CORNEJO, Carlos. As ferrovias do Brasil nos cartões-postais e álbuns de lembranças. São Paulo: Solaris Edições Culturais, 2005.

REIS, Nestor Goulart. Imagens de vilas e cidades do Brasil Colonial. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo: Imprensa Oficial do Estado: Fapesp, 2000.

REIS FILHO, Nestor Goulart [org.]. Robert Smith e o Brasil. Vol. 2. Cartografia e iconografia. Brasília: Iphan, 2012.

SMITH, Robert C. “Algumas vistas da Bahia Colonial”. In Nestor Goulart Reis Filho [org.]. Robert Smith e o Brasil. Vol. 2. Cartografia e iconografia. Brasília: Iphan, 2012.

VILHENA, Luiz dos Santos. Cartas de Vilhena - Noticias soteropolitanas e brasilicas. 2º volume. Bahia: Imprensa Official do Estado, 1921.