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Jornal do Brasil

"O papel do biógrafo não é fabular"

Publicado em 08 junho 2008

Por Bolivar Torres

Celso Lafer responde à acusação de que trabalhou contra eleição de Paulo Coelho para a ABL

Mal chegou às livrarias, a biografia de Paulo Coelho já está fazendo barulho. O mago, a saga de 632 páginas de Fernando Morais sobre a vida do escritor brasileiro mais vendido no mundo, levantou algumas vozes descontentes na Academia Brasileira de Letras. O episódio que retrata a ascensão do Bruxo à cadeira número 21 da casa de Machado de Assis está sendo questionado por dois imortais citados na biografia, o ex-ministro Celso Lafer e o sociólogo e escritor Hélio Jaguaribe – apontados como supostos conspiradores contra a candidatura do autor de O alquimista. Alberto Venâncio, outro acadêmico citado no livro, chegou a ser dado como morto por Morais. Vivíssimo, foi procurado pelo repórter do B, mas, furioso, não quis se manifestar.

Morais descreve passo a passo a estratégia de Coelho para conquistar um lugar na Academia, desde a primeira investida, em 2001, até a bem-sucedida campanha de 2002. Além dos procedimentos de praxe – cortejo aos líderes dos grupos e subgrupos e comparecimento assíduo aos lançamentos das publicações dos acadêmicos – o biógrafo revela outros métodos pouco ortodoxos, como consultas aos presságios do I Ching, manual chinês conhecido como o Livro das mutações.

Na versão de Morais, entre os obstáculos no caminho de Coelho estava a resistência de alguns acadêmicos e o lobby de Lafer, na época ministro das Relações Exteriores, em favor de Jaguaribe, concorrente do mago. Morais chega a chamar o gabinete do Lafer de bunker e acusa o ministro de cabalar votos para Jaguaribe "oferecendo em troca viagens, convites e medalhas".

Jaguaribe disse que era difícil falar sobre o assunto, "já que Paulo Coelho nunca comparece às sessões da ABL". Mas garantiu que Lafer não poderia ter atuado a seu favor, pois na época ainda não era acadêmico. O imortal concedeu uma entrevista ao JB, na qual registra a sua versão.

São corretas as afirmações de Fernando Morais sobre a sua atuação na eleição de Paulo Coelho para a Academia Brasileira de Letras?

– O capítulo 28 do livro é fatualmente incorreto. A verdade é o chão em que pisamos no inter-relacionamento humano. Não é uma questão de opinião, como ensina Hannah Arendt. O papel do biógrafo é contar o que aconteceu. Não é o de fabular. Daí a importância dos esclarecimentos públicos que importa fazer nesta entrevista ao JB.

Qual foi o seu papel em favor de Hélio Jaguaribe?

– Hélio Jaguaribe é um velho e querido amigo que muito admiro. É uma referência intelectual do meu percurso. Na ocasião da disputa, falei com alguns poucos acadêmicos, com os quais tinha liberdade, apenas dando o meu testemunho de suas grandes qualidades. Foi o que fiz com Marcus Almir Madeira, na condição de membro do Pen Club, que ele presidia, e com o meu amigo Carlos Heitor Cony. Ao contrário do que diz Fernando Morais na página 563, não fiz o mesmo com Arnaldo Niskier, pois era sabido que defendia, como era de seu legítimo direito, a candidatura de Coelho.

O testemunho de um não-acadêmico para acadêmicos sobre as qualidades pessoais de um candidato é um procedimento usual?

– Este é um procedimento usual, como é do conhecimento geral, nas eleições da Academia. Dele também se valeram os defensores não-acadêmicos de Paulo Coelho e os de Fernando Morais quando disputou uma cadeira. Assim, para dar um testemunho pessoal, vários amigos meus, não-acadêmicos, na disputa ora em curso, fizeram o mesmo, ponderando as qualidades de vários candidatos à sucessão de Zélia Gattai nesta eleição, que será a primeira de que participarei como acadêmico eleito em 2006, sucedendo a Miguel Reale, e não, como diz Fernando Morais (p. 565), ao confrade e amigo Alberto Venâncio, que felizmente está vivo e gozando de boa saúde. Aliás, esta é uma informação de fácil acesso a um biógrafo experiente como Fernando Morais. Bastaria ter consultado o Anuário 2002-2006 da Academia ou o seu site.

Um não-acadêmico pode conduzir uma eleição na Academia, oferecendo vantagens?

– Nenhum não-acadêmico tem a possibilidade de conduzir uma eleição na Academia. Esta é uma realidade política que deriva da dignidade intelectual inerente à autonomia da Academia como colégio eleitoral. Todas as eleições obedecem a uma dinâmica interna, que é fruto das correntes de opinião e sensibilidades dos acadêmicos prevalecentes no momento de uma disputa. É, assim, um despropósito asseverar, como faz Fernando Morais na página 563, que eu, um não-acadêmico na ocasião, converti, como ministro das Relações Exteriores, o meu gabinete no Itamaraty num bunker da "tropa de choque" de Hélio Jaguaribe, cabalando votos, oferecendo em troca viagens, convites e medalhas. Sempre tive muito respeito pela Academia e pelos acadêmicos, assim como pela minha função no Itamaraty, e não faltaria à consideração republicana que merecem com uma insultuosa barganha dessa natureza, que nada tem a ver com meu modo de ser e de agir no correr da minha vida, e que seria incompatível com a função pública que estava exercendo. Fernando Morais, que me conhece há tantos anos, não poderia, com exação e boa-fé, fazer uma asserção difamatória, e mesmo caluniosa, dessa natureza.

Qual foi a sua atitude quando tomou conhecimento de que Paulo Coelho fora eleito?

– Depois da eleição que levou Paulo Coelho à Academia, e para dissipar dúvidas e insinuações, fiz uma declaração, que foi publicada na imprensa, de que esperava que o Mago fosse feliz. Reitero, como acadêmico, apreciador da convivência com os meus confrades, os termos dessa declaração.