Notícia

Jornal da Unicamp

O papel das fibras elásticas

Publicado em 27 novembro 2011

Por MANUEL ALVES FILHO

Linha de pesquisa conduzida no Instituto de Biologia (IB) da Unicamp investiga as propriedades das fibras elásticas, presentes em tecidos que sofrem estresse mecânico. Elas são as responsáveis, por exemplo, pela capacidade do pulmão de se inflar e retornar à posição original durante o processo de respiração. Um dos estudos concluídos recentemente pelo grupo foi desenvolvido para a dissertação de mestrado da biomédica Tallita Vassequi da Silva, sob orientação do professor Claudio Chrysostomo Werneck. Ensaios realizados por ela com animais submetidos à angioplastia sugerem que a proteína denominada MAGP1, um dos componentes das fibras elásticas, desempenha papel relevante na formação da reestenose (novo estreitamento) das artérias. A pesquisadora apurou, ainda, que o uso do losartan, uma droga comercial indicada para o tratamento da hipertensão, é eficaz na redução da neoíntima, como esse tipo de obstrução também é chamada.

De acordo com o professor Werneck, durante algum tempo a ciência acreditou que as fibras elásticas tinham uma função puramente estrutural. Atualmente, porém, o enfoque mudou. Cada vez mais, sabe-se que elas desempenham outros papéis, como a regulação de determinados hormônios e fatores de crescimento. "Nossa ideia principal é poder estudar essas moléculas focando principalmente a questão da formação da neoíntima e de trombos. Estamos tentando entender como esses processos ocorrem, a partir de ensaios com animais geneticamente modificados", explica. O docente lembra que a parede das artérias é formada por camadas alternadas de células e fibras elásticas.

Quanto maior for a pressão a que o sistema está submetido, maior é o conteúdo dessas camadas, que se assemelham a lâminas. "Isso acontece porque o vaso tem que ter a capacidade de se estender e depois se acomodar, de acordo com a pressão exercida pelo batimento cardíaco. O que nós fazemos é analisar como as fibras elásticas são formadas e como possíveis defeitos nessas moléculas podem levar ao desencadeamento de algum tipo de doença", acrescenta. Conforme Tallita, o principal procedimento é tentar mimetizar o que acontece na angioplastia. A cirurgia consiste em desobstruir a artéria, introduzindo em seu interior um cateter com um minúsculo balão inflável na ponta.

Nos seres humanos, é comum ocorrer a reestenose alguns meses depois do procedimento. "A cirurgia é importante, mas também é bastante traumática. Quando ocorre uma lesão na parede do vaso, as células que estavam presas entre as lâminas, e que tinham o seu crescimento inibido, tendem a migrar para o interior do vaso e começam a se multiplicar. Decorrido algum tempo, esse vaso volta a ser fechado", detalha o professor Werneck. Para tentar entender melhor como o problema se dá, Tallita usou camundongos modificados geneticamente, que apresentam deficiência da proteína MAGP1. Para ter um padrão de comparação, ela também utilizou animais selvagens sem a referida deficiência.

Tanto os roedores modificados geneticamente quanto os selvagens, conforme a autora da dissertação, foram submetidos à cirurgia modelo de angioplastia. "Apuramos que esses camundongos, depois de submetidos à angioplastia, desenvolveram mais neoíntima que o grupo constituído por indivíduos selvagens. Ou seja, os resultados sugerem que a proteína de fato exerce um papel importante na formação da reestenose", afirma. Como complemento do seu estudo, a biomédica também submeteu os camundongos deficientes em MAGP1 e os selvagens a um tratamento de quatro semanas com o losartan. O professor Werneck assinalada que a droga já é vendida comercialmente, indicada para o controle da hipertensão. Entretanto, também vem sendo testada por um pesquisador norte-americano no tratamento de uma doença denominada Síndrome de Marfan, cujo desenvolvimento está relacionado com uma menor quantidade de fibrilinas, que também compõem as fibras elásticas. As pessoas acometidas por essa doença apresentam membros excessivamente longos, além de problemas em outras estruturas do corpo, como pulmões, olhos, coração e vasos sanguíneos.

"Como sabíamos que o uso do losartan está apresentando resultados positivos no tratamento experimental da Síndrome de Marfan, resolvemos utilizá-lo no nosso estudo, para verificar se ele também poderia ser efetivo neste tipo de abordagem. Assim, constituímos quatro grupos, da seguinte forma: deficientes em MAGP1 tratados com losartan e com placebo e selvagens também trados com a droga e placebo. Os grupos tiveram a pressão arterial aferida e, em seguida, foram submetidos à angioplastia. Observamos que todos os animais eram normotensos [apresentavam pressão arterial normal]. Também verificamos que o tratamento com o losartan resultou na diminuição da formação da neoíntima em comparação com os camundongos que receberam somente placebo. Por fim, identificamos que os roedores deficientes em MAGP1 apresentaram maior formação de neoíntima se comparados com os selvagens", relaciona Tallita.

De acordo com o professor Werneck, um dos próximos passos, agora, é tentar compreender melhor como o losartan está atuando. "O fato de bloquearmos eventualmente um receptor não nos dá necessariamente a informação do que está acontecendo com a molécula ligante. Não sabemos, por exemplo, se ela está tendo um aumento de síntese ou não. Precisamos continuar investigando isso em modelo animal, para tentar ampliar o conhecimento acerca do tema. O objetivo final, obviamente, é propor um tratamento que possa ao menos minimizar os efeitos deletérios da angioplastia", diz. O estudo desenvolvido por Tallita contou com bolsa concedida pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). A linha de pesquisa coordenada pelo docente do IB conta com financiamento da própria Fapesp e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

¦ Publicação

Dissertação: "Avaliação da função da MAGP1 na formação de neoíntima"

Autora: Tallita Vassequi da Silva

Orientador: Claudio Chrysostomo Werneck

Unidade: Instituto de Biologia (IB)

Financiamento: Fapesp e CNPq