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Nexo Jornal

O papel da mediação cultural nas comunidades quilombolas

Publicado em 07 agosto 2019

Esta pesquisa de mestrado, realizada na USP (Universidade de São Paulo), investiga o papel do mediador cultural na apropriação de informação em comunidades quilombolas, estudando o caso de Cambury, no litoral norte de São Paulo.

Entre as conclusões, o autor destaca que a mediação cultural pode facilitar a ação transformadora ao se valer de ações pedagógicas que favoreçam a leitura do mundo, para diminuir as barreiras das desigualdades em contextos de alta vulnerabilidade social, econômica e cultural. Segundo ele, mais significativa que o mediador é a soma dos esforços e diálogos que tornam esse processo possível.

1. A qual pergunta a pesquisa responde?

Qual o papel do mediador cultural na apropriação de informação em comunidades quilombolas?

2. Por que isso é relevante?

Além de pesquisa e referencial teórico, o estudo investigativo também se constituiu em prática de intervenção e ação sociocultural, na qual o papel do mediador é relevante, sobretudo no contexto específico de vulnerabilidade social e expropriação cultural, tal como evidenciamos na comunidade caiçara/quilombola do Cambury. Ao longo da exposição, apresenta o desenvolvimento de referenciais conceituais e metodológicos que podem contribuir para a construção de um conceito de dispositivo informacional voltado à produção, circulação e apropriação de memórias/experiências, por meio do diálogo entre memória local e informação, com base em referenciais teóricos do campo da educação, cultura e informação.

3. Resumo da pesquisa

É um estudo exploratório sobre o processo de mediação e apropriação cultural de informação em um contexto social, marcado historicamente pela expropriação cultural – Cambury – comunidade rural formada por pescadores e quilombolas que vivem na Mata Atlântica, em Ubatuba, São Paulo. A análise de campo e as reflexões teóricas se debruçaram sobre o papel do mediador e dos dispositivos informacionais, tendo como referência metodológica a pedagogia dialógica das Oficinas de Memória, espaço privilegiado para experimentação de saberes, trocas culturais e simbólicas. Como resultado, formulamos categorias significativas de análise do mediador cultural, cujo amálgama de saberes (informacionais; procedimentais e atitudinais) julgamos indispensável aos processos de significação em territórios simbólicos diferenciados. Como produto de conhecimento no campo da pesquisa social aplicada, criamos o dispositivo Estação Memória Cambury – conjugado à interface de comunicação digital; e desenvolvemos referenciais teóricos e metodológicos que podem contribuir em futuras práticas infoeducativas que favoreçam a produção, circulação e apropriação social de saberes com os sujeitos do saber, confrontando-os com o sentido da vida.

4. Quais foram as conclusões?

Cambury apresenta conflitos de cidadania mutilada por situações de violência e outras formas sutis de expropriação (material e simbólica). É um retrato metonímico de uma realidade mais ampla e complexa, que remonta à condição colonial. Um microcosmo sociocultural cambiante e volátil onde há, contudo, espaço para o diálogo, experimentação do saber e apropriação social de informação. Políticas culturais de caráter vicário (oferta de livros) não garantem a apropriação social do conhecimento. O respeito à diferença cultural e à ecologia social dos sujeitos do saber é condição sine qua non para a mediação cultural, articulando-se às suas dinâmicas e modos de expressar, como forma de diálogo e criação de canais de expressão que ajudem a reinventar o seu cotidiano. A mediação cultural pode facilitar a ação transformadora se fizer uso de ações pedagógicas que favoreçam a leitura do mundo, papel decisivo que a “educação para a informação” pode desempenhar a fim de diminuir as barreiras das desigualdades em contextos de alta vulnerabilidade social, econômica e cultural. Na mediação cultural, mais significativa que o mediador é a soma dos esforços e diálogos que a tornaram possível.

5. Quem deveria conhecer os seus resultados

A Estação Memória Cambury é um dispositivo de informação e comunicação digital. Seu objetivo principal é favorecer a circulação social de memórias e o diálogo intergeracional, além de registrar a memória histórica e cultural dos caiçaras e quilombolas de Cambury. O acervo reúne elementos histórico-culturais da comunidade e as pesquisas realizadas sobre a memória local, disponíveis na internet, um espaço digital por meio do qual qualquer pessoa pode ter acesso à história e à memória da comunidade de Cambury, independente do local onde estiver. Há vários itens disponibilizados: documentos, fotografias, vídeos, produtos artísticos e informações, as quais podem ser compartilhadas pela população em geral, gestores públicos, estudantes, pesquisadores, ambientalistas, ecologistas, turistas e curiosos em conhecer a história e a cultura dos caiçaras e quilombolas que sobre(vivem) na mata atlântica, em Ubatuba, litoral norte de São Paulo.

Edison Luís dos Santos é mestre e doutor em ciência da informação pela ECA-USP (Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo), onde também concluiu o bacharelado em Biblioteconomia (2009). Tem bacharelado em letras, linguística pela FFLCH-USP (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas).

Referências:

MANSANO, C. F. Do “tempo dos antigo” ao “tempo de hoje”: o caiçara de Cambury entre a terra e o mar. Dissertação (Mestrado). Faculdade de Educação da Unicamp. Campinas-SP, 1998.

MARCÍLIO, M. L. Caiçara: terra e população – estudo de demografia histórica e da história social de Ubatuba. 2a. ed. São Paulo: Edusp, 2006.

MERLO, M. Entre o mar e a mata: a memória afro-brasileira. São Sebastião, Ilhabela e Ubatuba. São Paulo: Fapesp; Educ, 2005.

OLIVEIRA, L. A. de. (Org.) Quilombos: a hora e a vez dos sobreviventes. São Paulo: CPISP, 2001.

PAULA, L. R. de. Relatório Técnico-Científico sobre os Remanescentes da Comunidade de Quilombo de Cambury, Município de Ubatuba/São Paulo. São Paulo: ITESP, 2002.

RIBEIRO, T. B. S. Cambury e o turismo nas suas comunidades diferenciadas: Ubatuba, SP, 2006. Projeto de Intervenção Turística na área de Concentração em Planejamento e Gestão Turística de Cidades, Curso de Turismo da PUC-SP.

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Dissertação: Estação memória Cambury: mediação cultural com os parceiros do rio que muda 

AUTOR 
Edison Luís dos Santos Lattes 

ORIENTADORA 
Ivete Pieruccini 

ÁREA E SUB-ÁREA 
Ciência da Informação, Apropriação Social da Informação 

DEFENDIDA EM 
ECA-USP (Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo), Documentação de Ciência da Informação - 30 de setembro de 2013

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