Notícia

Jornal da USP

O palco que circula

Publicado em 23 setembro 2013

Por Sofia Calabria
A fim de compartilhar o fazer teatral atual e seus processos de desenvolvimento, o Teatro da Universidade de São Paulo (Tusp) dá início nesta quinta, dia 26, ao X Circuito Tusp de Teatro. Nesta edição, o evento passa pelos campi de São Paulo, Bauru, Piracicaba, Ribeirão Preto e São Carlos. Ao todo são quatro espetáculos e uma oficina, que circulam entre setembro e outubro. O campus de São Carlos inicia o circuito com a apresentação de Recusa, da Cia. Teatro Balagan. A peça, que já esteve em cartaz no Centro Internacional de Teatro (Cit-Ecum), foi criada a partir de uma notícia de 2008, sobre dois índios piripkuras no noroeste do Mato Grosso. Nômades, os índios recusavam-se a estabelecer contato com os brancos.

A Cia. Chicote de Teatro apresenta Marat/Sade. No espetáculo, com texto de Peter Weiss, o Marquês de Sade, internado em um hospício, encena o assassinato de Jean-Paul Marat, mártir da Revolução Francesa. De um lado, o ideal revolucionário de Marat em prol do coletivo e, de outro, a defesa do prazer individual de Sade. Em Hotel Trombose, da Cia. do Mofo, o grupo apresenta situações grotescas a partir da premissa de que as pessoas não sabem lidar com a violência cotidiana, por mais presente que esteja. Um pedófilo, dois irmãos, uma mãe e uma prostituta são os personagens que conduzem as cenas.

Já a Cia. Entre Tramas traz o espetáculo Mundico: Sonata Muda, com a técnica da máscara inteira expressiva, ainda pouco pesquisada no País. A técnica consiste na criação de uma máscara que cobre o rosto do ator por completo e, assim, fixa uma expressão. A de Mundico representa um homem velho, preso em um instante da vida e em suas lembranças. Atrelado ao uso da máscara está a opção do grupo por um espetáculo sem a fala. A peça baseia-se no gesto e na música. “Preferimos não usar a palavra. Toda a trilha é conduzida por um violoncelo ao vivo e dizemos que ela é a voz, que brinca e dá emoção. Há quatro atores em cena, e ela é o quinto”, diz José Antônio do Carmmo, fundador da companhia junto de Helder Parra.

“Para nós ainda é muito instigante lidar com a máscara e com os desafios que ela pede, principalmente para o ator, e também pelo detalhe de não poder usar a palavra. O ator tem que ampliar seu trabalho técnico e corporal para ser significativo no que quer desenvolver”, completa Carmmo. O Entre Tramas vem desenvolvendo um trabalho de Formas Animadas, no qual elementos como máscaras, pequenos objetos, caixas, tubos e mesmo a sombras são manipulados e transformados em bonecas a partir do caráter imagético que o grupo propõe. O festival se encerra dia 26 de outubro, com a apresentação de Mundico: Sonata Muda, em Ribeirão Preto.

O teatro e a fala – Além das apresentações dos espetáculos, o circuito traz também a oficina Apropriação de Texto e Criação da Fala Cênica. Ministrada por Rejane K. Arruda, mestre e doutoranda em Artes Cênicas pela Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, a oficina é fruto do trabalho de mestrado de Rejane sobre o tema “Apropriação do texto”. Seu trabalho teve como uma de suas influências o procedimento de François Kahn, no qual a memorização da fala dá-se a partir de sua escrita – e não somente da leitura.

A partir de sua dissertação, Rejane propõe que o desenvolvimento dramatúrgico parte do princípio do jogo cênico, no qual o ator cria a fala e junta a isso elementos internos e externos a ele (como elementos presentes no palco). Estabelecida essa união, tem-se a base para que o ator possa criar e improvisar no palco juntando fala e corpo. Em uma comparação feita por Rejane, a escrita é o pão e a cena é o forno que faz crescer o fazer cênico. “O molde do corpo se dá com o molde da fala. O ator tem que preencher as lacunas com a produção dele e com a relação com o outro, com o tempo e o espaço, que surgem na hora”, diz Rejane. Apoiada pela Fapesp tanto no mestrado como no doutorado, ela desenvolve hoje a tese “Ateliê do Ator-Encenador”.

O participante da oficina entrará em contato com os frutos do trabalho de Rejane e poderá ver sua aplicação prática. “O ator é um encenador de incidência. Eu proponho o princípio do arranjo, no qual o ator está sempre compondo um arranjo de materiais”, completa Rejane. A oficina destina-se a estudantes interessados em arte e à classe teatral em geral, abarcando tanto atuantes amadores como profissionais.

O X Circuito Tusp de Teatro estreia nesta quinta, dia 26, com a apresentação de Recusa no campus de São Carlos. Tanto as apresentações como a oficina são gratuitas. Cada campus terá processos diferentes de inscrição na oficina. A programação completa e mais informações podem ser encontradas em www.usp.br/tusp. Em São Paulo, o Tusp fica na r. Maria Antonia, 294, Consolação, tel. 3123-5233.