Notícia

Jornal do Brasil

O PAÍS QUE MAIS ENVELHECE

Publicado em 09 junho 1996

Por MARCEU VIEIRA
O Brasil está deixando de ser um "país de jovens" para, aos poucos, tornar-se um "país de velhos". Dados atualizados da Organização Mundial de Saúde (OMS) mostram que, proporcionalmente, não há hoje no planeta, entre as nações mais populosas ou desenvolvidas, outra com concentração tão alta de idosos. Dos 155 milhões de brasileiros, 8% têm mais de 60 anos. Segundo a OMS, o Brasil está á frente de países como Índia, Japão, China, Estados Unidos e México. O Estado do Rio lidera o ranking nacional: 9% dos fluminenses são idosos. Na capital, esse contingente é ainda mais numeroso: 12%. Copacabana bate o recorde. A concentração proporcional de idosos no bairro é a maior do país: 22%. "O Brasil é um país de velhos e não há uma política adequada para conviver com essa realidade", alerta o psiquiatra Renato Veras, autor e orientador de teses sobre velhice, mestre em Medicina Social e em Saúde Coletiva, assessor do Ministério da Saúde para assuntos relacionados à geriatria e diretor da Universidade Aberta da Terceira Idade, programa para idosos oferecido pelo Departamento de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Em 1950, o Brasil tinha 50 milhões de habitantes. Deles, 2,1 milhões eram idosos. Em 2025, segundo projeções da ONU, serão 250 milhões de brasileiros - entre os quais, 33 milhões de idosos. "As projeções revelam que, em 75 anos, tempo de uma geração apenas, nossa população total terá crescido cinco vezes, enquanto a de idosos, 15", diz Renato Veras. Neste mesmo período, a população de idosos dos Estados Unidos terá crescido quatro vezes. A do Japão, só três. "Hoje, no Brasil, não se tem certeza de que o Real vai dar certo ou se a reeleição do presidente da República será aprovada. Mas uma coisa é certa: o país terá cada vez mais velhos", afirma Renato. O modelo brasileiro de atendimento aos idosos é "inteiramente equivocado", diz ele. Autor de País jovem de cabelos brancos, tese que virou leitura obrigatória para estudiosos da velhice no Brasil, Renato Veras condena o asilo como solução. "A estratégia é antecipar o diagnóstico, impedir que as doenças do idoso se tornem crônicas", recomenda. "O velho, ao contrário do jovem, tem muitas doenças ao mesmo tempo. Identificá-las antes é o tratamento mais barato e eficiente. O sistema de asilos só interessa ao empresário que ganha dinheiro com esse mercado." No Brasil, segundo Renato, existem 88 clinicas como a Santa Genoveva: hospitais que, para receber verbas mais generosas do governo, apresentam-se com o rótulo de "casas para pacientes sem possibilidades terapêuticas" - ou seja, terminais. Delas, 60% estão no Rio e em São Paulo. Diferenças - "O tratamento do idoso consome muito mais dinheiro do que o de pacientes de outras faixas etárias", afirma Renato Veras. "Uma criança com sarampo ou fica curada ou pode morrer em sete dias". E o acompanhamento de um velho com doença cardiovascular, por exemplo, pode se arrastar por 25 anos. "País jovem com cabelos brancos desmonta", com pesquisas de campo, um mito: 82% dos idosos brasileiros não têm problemas de saúde. "Mas é preciso ter muito cuidado com os 18% restantes, porque esta proporção de doentes é muito maior do que em outras faixas etárias", diz Renato, que organiza o seminário Envelhecimento populacional: uma agenda para o final do século, que reunirá em Brasília, de 1º a 3 de julho, 44 estudiosos da velhice em 35 países. No seminário, a situação do idoso no Rio estará na berlinda. Estado da federação com maior expectativa de vida (69,7 anos, contra a média nacional de 63,5), o Rio tem grande concentração de idosos por razões diferentes das que fazem da Paraíba, por exemplo, segunda colocada no ranking nacional. "São muitos os paraibanos jovens que deixam sua terra para trabalhar no Sul, e esse movimento diminui a população jovem", explica Renato. Paraíba e Rio se igualam nas diferenças: enquanto as condições de higiene e saúde do carioca favorecem a vida mais longa, na Paraíba a laqueadura de trompa é prática disseminada e a mortalidade infantil é alta. Solidão - Uma das conclusões mais tocantes da série de pesquisas apresentadas por Renato em sua tese é a que mostra, em números, a solidão dos idosos - sobretudo, as mulheres. De cada 100 mulheres com mais de 60 anos de idade, 46 são viúvas, sete são separadas e nove nunca se casaram. Ou seja, mais de 60% são sozinhas. Entre os homens, essa realidade é menos triste: de cada 100,78 são casados. O livro-tese de Renato Veras despertou a atenção de grupos americanos interessados em construir apart- hotéis para idosos no Rio. "A tendência do Rio é virar uma Flórida, onde existem muitos desses apart-hotéis", diz Renato, comparando o Rio à cidade americana com maior concentração de idosos. Renato tem atuado como consultor nesses projetos.