Notícia

Correio da Paraíba online

O olhar atento de um geógrafo literário

Publicado em 23 maio 2010

Agência Fapesp - Meses atrás, o geógrafo Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro festejou a chegada da obra completa do poeta norte-americano Wallace Stevens, que recebera dos Estados Unidos. Os livros foram arrumados ao lado dos de Jorge Luis Borges, Guimarães Rosa, Shakespeare, James Joyce e Euclides da Cunha que reinam na estante de sua sala de trabalho, misturados com objetos que trouxe do Nepal, da Índia e de Minas Gerais, ao lado da boneca Betty Boop. Aos 86 anos, o geógrafo que ajudou a criar as bases da climatologia no Brasil lê e escreve sobre literatura todos os dias. Tão logo se aposentou da Universidade de São Paulo USP , em 1987, Monteiro passou a limpo 40 anos de trabalhos pioneiros em climatologia, realizados no Rio de Janeiro, Santa Catarina, Brasília e São Paulo. Seus estudos levaram a novas abordagens para a análise do clima urbano, detalhadas em 1974 no livro Clima urbano, e ganharam uma síntese em Clima e excepcionalismo, de 1991. Só então se entregou a outras duas paixões, a literatura e a filosofia, e escreveu mais um livro, O mapa e a trama, em que analisa a obra de escritores como Guimarães Rosa, Graciliano Ramos e Graça Aranha do ponto de vista da geografia e das estruturas sociais. Antes de começar a conversa em seu apartamento, em Campinas, Monteiro põe na mesa livros que escreveu, desenhos que fez alguns reproduzidos nas páginas seguintes e fotos de Teresina PI , de onde partiu aos 18 anos e sobre a qual já escreveu cinco volumes, usando a história da família como pretexto para tratar das transformações da cidade, da sociedade e do mundo. O geógrafo raramente concede entrevistas, mas decidiu conversar sobre geografia, literatura e, claro, seu passado como pesquisador.

A entrevista

- Como era a Teresina de 1945, quando o senhor saiu de lá?

- Teresina na época tinha uns 40 mil habitantes. Foi a primeira cidade do Brasil construída para ser capital o pessoal pensa que foi Belo Horizonte, mas Belo Horizonte tem um século, que completou em 1997. Teresina foi a primeira a ser construída como um tabuleiro de xadrez, a segunda foi Aracaju. Saí de lá com 18 anos e fui para o Rio de Janeiro. Nos dois primeiros anos não pude estudar. Precisava trabalhar.

- O que o senhor fazia?

- Passei dois anos fazendo de tudo: cobrança, batendo perna pelo Rio de Janeiro, e depois em um trabalho de extranumerário no Ministério de Educação e Saúde, no morro da Viúva. Em 1947 comecei o curso na Faculdade Nacional de Filosofia, da Universidade do Brasil. Entrei por história e acabei me desviando para geografia - era mais dinâmico, tinha trabalho de campo, e minha meta sempre foi pesquisar. Quando eu estava no primeiro ano do curso o professor Francis Ruellan, que era consultor do IBGE [Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística], convidou os alunos para se juntar à equipe do Conselho Nacional de Geografia e participar de um dos levantamentos da nova capital do Brasil no Planalto Central. Foi meu batismo de campo. Era para passar o mês de julho, mas ficamos julho e agosto. Quando voltei, tinha perdido o emprego porque tinha levado mais de 30 dias. Os colegas do conselho ficaram com pena e perguntaram a Fábio [de Macedo Soares] Guimarães, diretor do conselho, se eu não poderia ser incluído entre os geógrafos auxiliares. Ele me contratou e tive a oportunidade maravilhosa de fazer o curso da faculdade, vendo a teoria ao mesmo tempo que fazia pesquisa no IBGE. Tinha aula de manhã, às vezes à tarde, e trabalhava até a noite.

- Como era a geografia dessa época?

- A geografia tinha uma visão muito otimista porque estávamos vivendo uma nova fase. Antes de 1935 já havia geógrafos sem formação acadêmica, eram autodidatas que trabalhavam nos institutos históricos e geográficos, formados em engenharia, direito, medicina, como Raja Gabaglia, que era professor do Colégio Pedro II, e Delgado de Carvalho. Somos da geração que pegou a Faculdade de Filosofia no curso de geografia e história, que só foram separadas em 1957. Nossa geração se achava revolucionária. Fizemos a geografia moderna, típica, que não só descrevia, mas explicava as coisas.

- De linha francesa?

- De linha francesa e tutelada pela França. Os primeiros professores de geografia, história, sociologia da Faculdade de Filosofia vieram todos da França. Em 1956 o Brasil sediou o Congresso Internacional de Geografia, que mostrou a nova geração de geógrafos brasileiros, do IBGE, da universidade e da Associação dos Geógrafos Brasileiros AGB . Nossos geógrafos foram os guias de cinco excursões, uma para cada região do país, e organizavam para os geógrafos de mais categoria serem recebidos nas casas de grandes famílias do Rio, como as de Marcos Carneiro de Mendonça e de Anna Amélia Carneiro de Mendonça. Terminei o curso em 1950. Em 1951, no Dia de Finados, fui para a França, com uma bolsa de estudos, e passei lá dois anos. Por causa do Ruellan, fui mais para o lado da natureza. Também por um lado de timidez, porque eu, para sair e ver o relevo, tinha que observar ou fazer poucas perguntas: Que profundidade se encontra água nesse poço? Quais são os meses de chuva? Na geografia humana você vai perguntar sobre a produção, as pessoas pensam que é o governo cobrando imposto e eu sempre ficava meio constrangido.

- Por que escolheu climatologia?

- Era a área mais carente. Em geomorfologia havia o Aziz Ab"Saber, [João José] Bigarella no Paraná, Gilberto Osório [de Oliveira Andrade] em Pernambuco, muita gente boa. Eu tinha tido um curso ruim de meteorologia, tanto aqui quanto na França. Achava que aquilo não era a climatologia de que a geografia precisava, principalmente para relacionar com o lado humanístico da geografia. Eu queria fazer uma coisa em que a atmosfera fosse vista dentro daquela perspectiva, relacionada com o homem. Mas era preciso mudar o paradigma dado pela meteorologia, o "estado médio dos elementos da atmosfera sobre um determinado lugar". O clima ainda era uma coisa muito estática se dizia que pela média você chegava à conclusão. Se você aplicasse a classificação de Köppen [Köppen-Geiger], ia concluir que Belém do Pará tinha o mesmo clima de Santos, o que é um absurdo, porque Belém nunca teve uma onda de frio e Santos, no inverno, está sujeita a dias de passagem frontal que baixa a temperatura e ninguém tem coragem de ir à praia, algo difícil de acontecer em Belém...

- Como foi sua volta?

- Voltei da França e o IBGE estava meio atrapalhado, não se fazia muito trabalho de campo. Contei a uma amiga, Maria Conceição Vicente de Carvalho, filha do poeta e primeira doutora em geografia no Brasil. Ela encontrou o professor João Dias da Silveira, que estava organizando um departamento de geografia numa faculdade catarinense de filosofia. Mas aí veio Jânio Quadros e disse que não queria mais ninguém de São Paulo à disposição dos outros estados. Silveira teve de voltar, mas me recomendou. Não precisei sair do IBGE para ir à universidade porque Santa Catarina era um dos raros estados que tinham serviço de geografia e cartografia. Principiei por onde os outros terminam - era chefe do departamento e membro do conselho técnico. Nunca mais na minha vida quis ser chefe de departamento, tenho horror à administração. Trabalhava à tarde e à noite lá e de manhã no departamento estadual de geografia e cartografia.

- O senhor não vê só o espaço...

- Não, porque tem também a parte social. Guimarães Rosa diz que ele não se preocupa nem com a sociologia nem com a história, mas você vê nos trabalhos dele que ele faz a relação completa da estrutura social: tem o fazendeiro cercado de jagunços, o administrador, o meeiro, vai descendo até o enxadeiro mais pobrezinho.

- Em um de seus trabalhos, o senhor escreveu que a geografia humana tinha esquecido o espaço.

- É. Porque a gente trabalhava com o espaço euclidiano, da natureza agora o pessoal da economia vai para o espaço relativo, de geometrias relacionais. Não suporto esse negócio de dividir geografia física e geografia humana. Ciência exata a geografia não é, queira ou não, porque tem o rabo preso com a filosofia. Esse é o problema. Por que é que não se estuda sociologia nem geologia na escola primária, mas se estuda geografia? Porque você está apresentando o mundo às crianças e aos adolescentes. Ensina acidentes geográficos, divisão política, clima, relevo, essas coisas básicas. A geografia não é para estar se fragmentando, se especializando mais... A filosofia, para mim, está num plano superior, não é a história da filosofia, é filosofia pensar, criticar. A geografia está embaixo, num plano mais modesto, mas conjunto, unitário. Uma colega de Brasília escreveu que a natureza já se encontra conhecida e suficientemente sob controle, agora a geografia deve passar para o social. Ora, São Paulo não resolve nem o escoamento das águas pluviais no verão, a cidade vive inundada! Havia o determinismo ambiental, mas daí passamos para o determinismo econômico, em 1948, com Bretton Woods. Claro que a economia é importante. Instalar uma fábrica é um ato econômico, mas desde que a fábrica se transforme em uma entidade física, que vai expelir gases, ganha uma materialidade e se encaixa no meio natural. Não pode separar e eliminar as consequências. A geografia humana considera só o coletivo, só o social nisso, a economia assume uma importância além do necessário. As pessoas exageram muito em fazer do coletivo o principal tudo que é humano é visto pelo coletivo. As partes se completam, não se pode ignorar o coletivo, mas também não se pode ignorar a parte interior do homem. Temos o direito de desenvolver uma percepção crítica, é importante preparar os outros para ter liberdade quando criticar e não seguir o rebanho fazendo tudo o que os outros fazem.

- Como o senhor vê os debates sobre mudanças climáticas?

- Há um exagero, porque as pessoas têm deficiência da noção de escala. Uma coisa é uma tendência, outra é a realidade, porque a atmosfera é destrambelhada, um ano é frio, outro é quente. A tendência geral pode, sim, aumentar, mas temos de considerar mais sobre o Sol, nossa fonte de energia e ainda um desconhecido, porque aquelas manchas variam, ora aumentam, ora diminuem. Quando vêm as manchas solares com mais ou menos energia, aquece ou resfria o Pacífico equatorial e vêm daí o aquecimento e o resfriamento no Pacífico, que dá o El Niño e La Niña. Outra coisa é a presença do homem na Terra, que é recentíssima, e mesmo assim encontramos registros históricos [de alterações climáticas marcantes]. E tem mais terras no hemisfério Norte do que no Sul, economicamente os dois hemisférios também são diferentes. Se a temperatura aumentar, países como Rússia e Canadá, de invernos rigorosíssimos, onde plantar tomate é a maior dificuldade, vão lucrar com o aumento de temperatura. Quem vai se danar é o hemisfério Sul, os pobres miseráveis da beira do Saara. Mas as pessoas não consideram o todo, as escalas temporal e espacial, e vem daí o catastrofismo. Tem também o lado benéfico, o catastrofismo deixa as pessoas com medo e as incentiva a mudarem de atitude.