Notícia

Gazeta Mercantil

O novo negócio de endereços eletrônicos

Publicado em 13 janeiro 2000

Os executivos da KD Sistemas, dona do mais famoso site nacional de buscas na Web, o Cadê?, receberam um telefonema em meados do ano passado de David Cade. O consultor norte-americano em informática estava colocando à venda o domínio "cade.com", endereço virtual de sua empresa, a Cade Consulting, sediada em Birmingham (EUA). "A proposta foi irrecusável, apesar de estarmos direcionados para atender o mercado brasileiro", lembra Gustavo Viberti, presidente da KD. O quanto foi pago pelo domínio Viberti não revela, mas a transação montada por ele dá a dimensão exata de um negócio que ainda engatinha na Internet brasileira. O comércio de endereços eletrônicos só está começando e promete tornar-se cada vez mais comum - e polêmico - na rede. E por um simples motivo: o mundo virtual dos computadores não pára de crescer. Existem no Brasil mais de 150 mil endereços cadastrados na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), órgão responsável pelo registro dos domínios terminados em ".br". A cada mês, mais 14 mil combinações de nomes são criados, significando que, até dezembro, o número de domínios na Internet brasileira deverá ultrapassar a marca de 300 mil. Os domínios com a terminação ".com" somam mais de 1,5 milhão em todo mundo e crescem em ritmo cada vez mais alucinante. Nessa sopa de letrinhas virtuais, é muito difícil - ou quase impossível - encontrar um endereço ainda inédito na rede. Foi exatamente o que aconteceu com a KD. Tentamos registrar o cade.com em 1995, mas o domínio já estava em uso. Optamos pelo cade.net", conta Viberti. Mas, o sucesso do site brasileiro de buscas acabou levando dezenas de usuários a acessar, por engano, a página da Cade Consulting. Uma enxurrada de e-mails recebidos por David o convenceu que era a hora de oferecer o seu domínio à KD Sistemas, transferência que se concretizou em julho do ano passado. "Mesmo que a empresa não tenha projetos de se lançar no exterior, é muito importante ter o domínio internacional, até mesmo para se precaver num mercado como a Internet, que não tem fronteiras e é muito complexo", aconselha Viberti. Assim como a KD, a Intelig também foi pega de surpresa. Depois de gastar R$ 40 milhões numa campanha publicitária para a escolha de seu nome, a "espelho" da Embratel descobriu que o domínio "intelig.com.br" pertencia à Inteligência Informática, empresa de Recife (PE) que comercializa o programa IndexA, um software de atualização de valores monetários. "Desde agosto último, quando o nome Intelig passou a ser divulgado na mídia, estamos recebendo vários e-mails com currículos e até pedidos de patrocínio", afirma Joaquim Costa, diretor da Inteligência Informática. Segundo ele, os executivos da Intelig o procuraram há cerca de dois meses para negociar a compra do domínio, mas a transação não se concretizou por falta de oferta. A operadora de longa distância - que já colocou home-page na rede, com o endereço "intelig.net.br" - preferiu não comentar o assunto. No mercado de domínios há espaço também para incursões mais controvertidas. Empresas e pessoas físicas vêm registrando endereços eletrônicos com o firme propósito de faturar alto em cima de marcas consagradas. Um dos casos mais recentes é o da Graphix Propaganda, de São Paulo. Ela acaba de obter o registro do domínio "windowsmillennium.com.br", uma referência explícita à nova versão do Windows, que a Microsoft lançará mundialmente no dia 17 de fevereiro. Gustavo Morgado, proprietário da Graphix, colocou o domínio em leilão no site "Lokau.com" pelo preço mínimo de R$ 500. Já recebeu oito lances, que elevaram a cotação do endereço eletrônico para R$ 50 mil até o início dessa semana. O prazo para as ofertas termina na sexta-feira, mas Morgado não sabe se concretizará a venda. "Essa é a primeira vez que faço esse tipo de negócio, que vem crescendo na Internet, porque não existe propriedade industrial sobre o domínio", afirma. "Se houver a configuração de pirataria, vamos adotar as ações legais. Mas, neste caso, não temos ainda nenhuma orientação", afirma Thomas Viertler, gerente de vendas on-line da Microsoft no Brasil. Os domínios da empresa, segundo ele, são registrados no exterior. Somente em algumas situações o endereço é cadastrado localmente. CONTROVÉRSIAS NO REGISTRO DE SITES Silvio Ribas de São Paulo O registro por terceiros de domínios idênticos ao de marcas conhecidas é apenas uma das controvérsias desse mercado. Segundo analistas, até erros ao digitar um endereço no browser (navegador) acabam criando alvos valiosos na Web. E o risco maior está na apropriação da imagem. "Na rede, somos quem dizemos ser até prova em contrário", diz Eduardo Wyllie, da Internet Economics. Pelo fato do ".com.br" já ser algo intuitivo para os internautas, a maioria dos empresários prefere registar sites "algumacoisa.com.br". Mas nem todos conseguem porque a Fapesp permite registrar qualquer nome desde que pela primeira vez. Márcio Chleba, consultor em comércio eletrônico, lembra que a Renault, por exemplo, tem a marca Laguna registrada, e no entanto não pôde usar o site www.laguna.com.br porque uma empresa de informática já registrou domínio com o nome do carro. Ele cita ainda o caso da America Online, que não conseguiu o www.aol.com.br porque um provedor tinha registrado antes. Mas quem registrar um site e não tiver a marca, seu registro pode ser legalmente cancelado caso o dono da marca solicite registro via ação judicial ou por solicitação ao comitê gestor da Web. Chleba propõe que regulamentação e registro de sites, marcas e patentes sejam de responsabilidade da mesma instituição. Eduardo Wyllie acrescenta que a entidade virtual "precisa ser localizada no mundo real para responder legalmente por seus atos". O consultor não vê problema em se reservar domínios ainda não descobertos, mesmo que para vendê-los depois. "Visão dê futuro e senso de oportunidade devem ser remunerados". O problema, a seu ver, está em registrar domínios que embutem a identidade de uma empresa para vender caro ou até passar-se por ela. A prática "dificulta a migração de marcas tradicionais e bem sucedidas para o mundo digital, além de gerar insegurança entre os consumidores virtuais". Henrique Ribas, diretor da Ribas Network, ressalta que o grande número de sites brasileiros, e em português, registrados na Internic deve-se ao fato de o órgão regulador dos Estados Unidos aceitar registros de domínios ".com" tanto para pessoas físicas quanto jurídicas, o que permite sites entrarem no ar como empresa, mesmo sem existirem como tal. Outra distorção é decorrente de o domínio ser apenas uma "combinação de caracteres", sem qualquer relação com o nome da empresa. Na opinião do empresário, a Fapesp deveria mudar o critério de aprovação e publicação dos domínios, verificando se o mesmo possui relação com a empresa. Desta forma, seria evitada a especulação de pessoas, não só do ramo de Internet. Segundo ele, uma grande empresa inglesa está tendo que negociar o próprio nome para ter um domínio ".com.br". Wyllie pensa que uma solução para transtornos assim seria vincular os serviços do site com o do condizente domínio.