Notícia

Época Negócios

O novo mapa do mundo plano

Publicado em 01 agosto 2007

Por Alexandre Teixeira

Há uma inédita mobilidade de talentos, capitais e recursos naturais no planeta. Ela radicaliza a globalização, pulveriza a inovação e cria um cenário favorável às economias emergentes. Entenda as forças desta nova era, ou seja excluído

As vantagens e desvantagens competitivas do Brasil na nova arena global 


O mundo é plano, certo? O achatamento do globo, no que diz respeito aos negócios, foi descrito no livro famoso do jornalista americano Thomas Friedman dois anos atrás, com base em observações sobre a competição entre países desenvolvidos e emergentes por fatias da economia mundial. A visão inovadora e a investigação acurada fizeram do livro uma espécie de marco na percepção da globalização. Desde então, novos estudos têm surgido periodicamente, ajudando a iluminar o movimento de mudança nas fronteiras da economia mundial. O mais recente deles, realizado pela consultoria Accenture e obtido com exclusividade por Época Negócios, trata dos desafios que as empresas enfrentam para adaptar seus negócios ao novo mundo multipolar.

Nesse trabalho, a velha hegemonia das economias americana, japonesa e européia aparece dando lugar a um poder econômico disperso, cujos protagonistas são os países emergentes. O Brasil surge com destaque pela quantidade de trabalhadores que despeja no mercado, mas não pela qualidade deles - o que pode ser uma percepção equivocada. "Temos cientistas e engenheiros do mesmo nível que os da Índia, mas não sabemos vender a qualificação de nossa mão-de-obra para o mundo", diz Carlos Henrique Brito, dedicado estudioso da inovação, hoje na direção da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo.

A Accenture constatou que o PIB somado dos países do grupo que batiza de B6 (Brasil, China, Coréia do Sul, Índia, México e Rússia) já representa 49% das riquezas mundiais - ante 39% em 1990 - e vai superar o produto dos países desenvolvidos nos próximos 20 anos. De acordo com o estudo, três elementos impulsionam essa nova realidade: comunicações melhores e mais rápidas, que permitem "desagregar" operações e executá-las a distância; abertura de mercados e, finalmente, aumento do alcance geográfico das multinacionais, em busca de novos mercados, fontes de capital e trabalho.

A globalização tornou-se uma via de mão dupla, na qual economias em desenvolvimento passam de receptoras passivas a agentes transformadoras, como demonstram os cinco temas detalhados nas próximas páginas:

>> Talentos vencedores O talento tornou-se uma commodity global, disputada por múltiplos competidores. Com as economias ocidentais às voltas com o envelhecimento de suas forças de trabalho, o equilíbrio pende para os países em desenvolvimento. Eles serão responsáveis por 97% das 438 milhões de pessoas que entrarão no mercado de trabalho em 2050.

>> Fluxo de capitais Além de receber cada vez mais investimentos diretos, os paí­ses em desenvolvimento tornaram-se, eles próprios, investidores. Tipicamente, aplicam em economias emergentes, mas começam a fazer aportes também na Europa e nos Estados Unidos.

>> Recursos naturais Começou uma batalha de conseqüências imprevisíveis entre países desenvolvidos e em desenvolvimento por ativos como água e combustíveis. As economias emergentes já são responsáveis por 85% do crescimento da demanda mundial por energia.

>> Novos consumidores O crescimento econômico acelerado e a integração à economia global propiciam aumento do emprego e da renda nas economias emergentes. Até 2025, os países do B6 representarão metade do consumo mundial.

>> Inovação A inovação tornou-se mais difusa geograficamente. A criatividade floresce em locais tão diversos como Pequim, Seul e Cracóvia.

Um alerta: nada menos que 53% das 919 companhias consultadas admitiram que não se sentem preparadas para operar nesse mercado radicalmente globalizado. "As economias emergentes agarraram a globalização, embalaram-na e enviam novas versões dela para o Ocidente todos os dias", observa William Green, CEO da Accenture. A análise que segue identifica as forças criativas dessa nova era.


Rota dos talentos

O muro idealizado pela administração George W. Bush para impedir a invasão do território americano por mexicanos em busca de trabalho é uma evidência na direção oposta, mas o estudo da Accenture mostra que as barreiras que costumavam impedir o livre fluxo do trabalho estão desmoronando. Em um primeiro momento, as multinacionais do mundo desenvolvido descobriram que podem utilizar a abundante e barata mão-de-obra de gigantes como a China e a Índia para reduzir custos de produção e aumentar sua vantagem competitiva.

Essa prática foi, em seguida, estendida ao universo dos serviços, com a "exportação" de call centers e tarefas contábeis, por exemplo, para a Índia. Agora, as economias emergentes estão subindo na cadeia de valor e deixando de ser apenas fontes de trabalho de baixa qualificação e remuneração. Investimentos em educação e treinamento significam que os níveis de desempenho de seus trabalhadores estão subindo. Já há 33 milhões de jovens profissionais universitários naquilo que se costumava chamar de Terceiro Mundo. Nos países desenvolvidos, são 14 milhões. Um resultado disso é que as empresas já olham para os mercados emergentes quando pensam em atividades de maior valor agregado, como design de produtos, pesquisa e desenvolvimento.

A demanda por essas novas fontes de talentos é parcialmente motivada pela necessidade de combater os efeitos do envelhecimento na Europa e nos Estados Unidos. Nos EUA, a aposentadoria dos baby boomers significa que as 500 maiores companhias podem perder metade de seus gerentes seniores nos próximos cinco anos. Há casos extremos, como o da indústria aeroespacial, que terá 40% de todos os seus atuais empregados se aposentando nos próximos cinco anos. Em princípio, a mão-de-obra dos mercados emergentes pode ser uma substituta conveniente, embora, na prática, a troca não seja simples. A própria China sofre com o envelhecimento de sua força de trabalho, que deverá começar a encolher nos próximos dez anos. Existe, sem dúvida, uma oportunidade de ouro para o Brasil nesse cenário - mas as deficiências educacionais são um tremendo obstáculo. "O país despertou muito tarde para o fator educação, apenas na metade dos anos 90", afirma o economista Paulo Renato, que foi ministro da Educação justamente no período que menciona. Desde então, houve um avanço notável no combate à exclusão educacional, mas até o momento não há um programa de incentivo à formação de engenheiros e cientistas - justamente o trunfo de China, Índia e Coréia.


Conseqüências para os negócios 

Competir pela força de trabalho global significa recrutar, treinar e comandar funcionários em diferentes partes do globo. Isso quer dizer gerenciar grupos de trabalhadores multinacionais e multigeográficos dentro de uma mesma companhia - o que leva ao desafio de manter uma cultura homogênea no interior de uma organização fragmentada. De acordo com a Accenture, a concentração do processo decisório e da prestação de contas em escritórios regionais, em vez de locais, ajuda as empresas a reconhecer as diferenças culturais presentes em diferentes mercados e, ao mesmo tempo, manter uma abordagem uniforme dos problemas.


Inovação e consumo

Em um mundo de inovação dispersa, companhias em busca de alto desempenho cada vez mais terão de desconstruir e distribuir suas atividades de pesquisa e desenvolvimento por diferentes partes do globo. No futuro, não será incomum ver uma empresa automobilística japonesa realizando pesquisa no Reino Unido e aperfeiçoando o design de chassi na Polônia, enquanto seus laboratórios no Brasil buscam a próxima inovação em biocombustíveis e um centro em Taiwan desenvolve o mais moderno software de navegação por satélite. Na outra ponta da cadeia, a de distribuição e venda de produtos, as fronteiras geográficas também farão cada vez menos sentido. À medida que os mercados emergentes se desenvolvem, o poder aquisitivo de suas populações aumenta, mudando o ponto de equilíbrio do consumo global. Afinal, mais de 80% dos 6 bilhões de pessoas do planeta vivem em economias emergentes.

A China vai dobrar sua renda per capita em dez anos - cinco vezes mais rápido do que o Reino Unido e os Estados Unidos fizeram durante a revolução industrial. Novos consumidores vão entrar no mercado, enquanto os já presentes vão procurar produtos e serviços mais sofisticados. O levantamento da Accenture sugere que, em 2010, China e Índia juntas terão 123 milhões de lares de classe média, mais do que o número total de residências (não só de classe média) nos Estados Unidos. No geral, estima-se que os mercados consumidores do B6 (Brasil, China, Coréia, Índia, México e Rússia) crescerão a uma taxa média de 7,4% entre 2005 e 2015, mais de três vezes mais rápido do que nos países do G6 (Alemanha, França, Itália, Japão, Reino Unido e Estados Unidos). Com a desaceleração do crescimento e a saturação dos mercados mais maduros, os ganhos de escala e o crescimento das multinacionais dependerão de seu sucesso em capturar participações de mercado nesses novos centros de consumo.

Funcionando como um círculo virtuoso, a dispersão da inovação - que implica "exportar" empregos bem remunerados - torna-se um combustível para o desenvolvimento de novos mercados consumidores. O Brasil tira pouco proveito dessa dinâmica e o senso comum sugere que isso se deve à falta de mão-de-obra altamente especializada. Carlos Henrique Brito, ex-reitor da Unicamp, discorda. "O grande desafio para a inovação decolar no Brasil continua sendo intensificar a atividade de pesquisa e desenvolvimento dentro das empresas", diz. "Quando as empresas empregarem mais cientistas, o número de registros de patentes e os gastos com P&D aumentarão naturalmente."


Conseqüências para os negócios 

Grandes mercados domésticos servem de plataforma para a expansão global das multinacionais de países emergentes, como se viu na ascensão da chinesa Haier e das coreanas Samsung e LG. Mas as empresas desses mercados precisam se mover rapidamente em direção ao topo do mercado para atender às crescentes expectativas de seus novos clientes. Excelência em pesquisa e desenvolvimento, habilidade para trazer inovações ao mercado, cadeias de suprimento eficientes e boa gestão de talentos vão se tornar importantes diferenciais na competição doméstica.


Capital e recursos naturais

A ascensão dos países em desenvolvimento à condição de potências está levando a competição por capitais e recursos naturais a um grau inédito de agressividade. As velhas multinacionais do Primeiro Mundo ganharam a companhia, nem sempre amistosa, da elite corporativa das economias emergentes. Já há 62 empresas desses países na lista das 500 maiores da Fortune, sendo 20 da China, 12 da Coréia do Sul, 6 da Índia, 5 do México e 5 da Rússia. Se esse clube tem um símbolo, é a Lenovo, que, ao adquirir a divisão de PCs da IBM, em 2004, passou de semidesconhecida empresa chinesa a terceira maior fabricante de microcomputadores do mundo, competindo com Dell e HP. À medida que companhias como essa se multiplicam, a batalha por capital se intensifica. Multinacionais emergentes têm optado por emitir ações nas bolsas dos países desenvolvidos para conseguir melhor acesso a recursos. Não por acaso, empresas chinesas já são a maior fonte de novos papéis na Nasdaq, a bolsa de tecnologia americana.

Ainda mais feroz é a disputa por recursos naturais. Entre 1995 e 2005, o consumo mundial de energia cresceu ao ritmo de 23% ao ano, o que o colocou no nível mais alto da história. As economias emergentes já respondem por 85% do aumento da demanda. Tornaram-se responsáveis pela maior parte da oferta e procuram alternativas para aumentar seu suprimento - basta ver a agressiva busca de reservas na África e na América Latina pela China e pela Índia. A batalha não está mais restrita a combustíveis. Inclui água, minerais e terras cultiváveis. De acordo com o Fórum Econômico Mundial, um quarto dos conflitos armados recentes envolveu disputas por recursos naturais. Há atualmente 1 bilhão de pessoas afetadas pela falta d'água, insumo básico para agricultura, indústria, transporte e consumo. Por volta de 2025, um terço da população mundial enfrentará escassez. Por trás dos sangrentos conflitos étnicos no Sudão encontra-se a questão do acesso à água.

Rico em recursos naturais, o Brasil tem oportunidades a explorar. "Eu vejo as indústrias brasileiras de etanol levando a tecnologia da extração de álcool da cana-de-açúcar para outros países. Na África, principalmente", diz Marcelo Gil, sócio-diretor da área de Estratégia da Accenture no país.