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O novo jornalismo

Publicado em 08 maio 2003

Por Getulio Bittencourt
O novo jornalismo está popular no Brasil dos últimos tempos. Houve reedições de A Mulher do Próximo e de O Reino e o Poder, dois livros clássicos de um dos líderes do movimento nos Estados Unidos, Gay Talese. Um dos melhores redatores brasileiros, Augusto Nunes, que foi redator-chefe de Veja e O Estado de S. Paulo, costumava estudar Talese só para ver a forma como' ele concatenava os assuntos de um parágrafo para outro. Também está nas livrarias Hiroshima, de John Hersey, de que falamos aqui na semana passada. Outros dois livros acabam de se juntar ao grupo: Textuações - Ficção e Fato no Novo Jornalismo de Tom Wolfe, de Fernando Resende (Fapesp-Anna Blume, 130 páginas, 2002); e O Jornalismo como Gênero Literário, reedição do livreto que Alceu Amoroso Lima (Tristão de Athayde) publicara originalmente em 1958 (Edusp, 80 páginas, 2003). O gênero floresceu com a reconstituição também de dados subjetivos; por exemplo, além de descrever uma cena, o entrevistador procura saber do entrevistado o que ele estava pensando e sentindo naquele momento. E essas descrições "internas" da cena são incorporadas no texto final, que pode ficar parecido com uma novela, embora seja factual. O novo jornalismo talvez tenha emergido como uma tentativa de resposta do jornalismo escrito ao rádio e à televisão, que substituíram o jornal e a revista na pura divulgação de fatos. Com o jornalismo, literário pode-se penetrar dentro dos temas de uma forma impossível para qualquer desses concorrentes. Wolfe é talvez o mais polêmico dos "novos jornalistas", que desenvolveram um estilo de reportagem também conhecido como "jornalismo literário" na América, a maior parte na década de 1960. Confesso que sua última novela, Um Homem Por Inteiro, repleta de maneirismos sulistas no original em inglês, é muito chata de ler, na linha do Guimarães Rosa de Grande Sertão: Veredas. O livro de Resende também esconde idéias sob um, vocabulário rebuscado, porque escorrega em definições como "uma perlaboração da modernidade", que afugentam a leitura. Já a pequena obra do grande Alceu é uma bênção de simplicidade e clareza. Seu capítulo final, sobre os riscos da arte e ofício do jornalismo, merece citação em todas as classes sobre a matéria. O primeiro é a facilidade. O cotidiano do repórter, sempre seguindo o fluxo dos eventos, o coloca sob "o risco constante de se deixar levar por eles". O conformismo político leva à corrupção da escrita. O segundo é o sensacionalismo. Alceu critica a "tirania do fato", que às vezes leva o jornalista a passar do plano racional ao passional, exagerando o tamanho dos eventos e afetando sua credibilidade. O terceiro é a venalidade. Aqui os princípios são clássicos. Um político brasileiro contemporâneo, o senador baiano Antonio Carlos Magalhães, dono de um jornal diário, dizia que há jornalistas que querem notícias, jornalistas que querem emprego, e jornalistas que querem dinheiro. Os políticos precisam aprender a não dar dinheiro aos que querem notícia, a não dar emprego aos que querem dinheiro, e a não dar notícia aos que querem emprego. Mestre Alceu acrescenta que a venalidade também banaliza o estilo.