Notícia

Gazeta Mercantil

O novo jeito de tentar fugir de uma velha dor - Dentistas inovam nos consultórios

Publicado em 30 janeiro 1996

Por Nilson Brandão Júnior — do Rio
Pouco mais de cem anos depois do tempo em que dentes eram extraídos de pacientes embriagados, em plena praça pública, a odontologia moderna começa a se sofisticar. Locação de fitas de vídeo, óculos de realidade virtual, decoração caprichada nas ante-salas e até apaziguantes fontes de água começam a dividir espaço nos consultórios, com um objetivo único: reduzir o estresse da clientela. "A odontologia carrega um estigma muito grande. Acho que deve haver até um componente hereditário, de tantas pessoas que sofreram ao longo do tempo", narra Marcelo Fonseca Pereira, presidente da Sociedade Brasileira de Odontologia Estética. O consultório do próprio dentista representa o esforço feito por dentistas, desde os anos 80, para reverter a sensação de sofrimento tradicionalmente ligada aos tratamentos dentários. Tudo foi planejado para isolar ou reduzir ao máximo os elementos que estressam os pacientes, que vão buscar soluções para uma das áreas mais sensíveis do corpo humano - a boca. Saem o cheiro de remédios, o barulho da broca - que traz para alguns a imagem de uma arma assassina nas mãos de um louco - e o entra-e-sai de pacientes com a mão na boca e indisfarçável expressão de sofrimento. Já na entrada da clínica mantida por Fonseca Pereira, a primeira surpresa. A espera acontece em duas ante-salas, nas quais onde quase nunca se encontra outro paciente. A primeira, em tradicional estilo inglês, inclui um "relógio-cuco", cujo pausado "dim-dom" quer fazer lembrar uma confortável casa de campo. A segunda, em tons pastéis, abriga uma espécie de fonte, emoldurada por pinturas na parede, de onde jorra água ininterruptamente. Os sons do relógio e da fonte detêm a atenção e distraem os pacientes. Dentro do consultório, são outras as estratégias. Uma delas é o aluguel de fitas de vídeo. O cliente liga, com alguma antecedência e escolhe o filme que quer ver durante a consulta. Pode-se também usar óculos de realidade virtual, com fones de ouvido, com desenhos tipo caleidoscópio, e música clássica. A idéia é que a clientela sequer tome conhecimento do que está sendo feito pelo dentista. Além destas, medidas, sobra ainda a sedação, que viabiliza tratamentos intensivos. O paciente fica numa "amnésia relativa" e atende aos sinais do dentista. Tanto conforto acaba, claro, doendo mesmo é no bolso. Enquanto uma restauração em resina sai entre R$ 70 e R$ 150 em consultórios médios, nos mais sofisticados o preço varia entre R$ 200 e R$ 400.