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Cidade Verde

O novo desastre que vem de Minas Gerais

Publicado em 06 março 2019

Por Francisco Soares Filho

Você pode ter lido este título e ter pensado: outra barragem estourou em Minas Gerais? Apesar das incomparáveis catástrofes de Mariana e Brumadinho que deram um prejuízo ainda incalculável ao Meio Ambiente, não somente em Minas, mas ao longo da bacia do rio Doce, no caso de Mariana e do rio Paraopebas, no caso de Brumadinho. Apesar de ter sido noticiado que a poluição decorrente do desastre de Mariana chegou no Santuário de Abrolhos que fica no Atlântico, na altura da Bahia, o que dá uma extensão descomunal para o problema. O desastre anunciado aqui é outro e de natureza estrutural: a quebra da FAPEMIG.

Primeiro quero explicar para o leitor o que é a FAPEMIG. É a Fundação de Amparo a Pesquisa de Minas Gerais. Todos os estados têm este tipo de órgão que pouca gente sabe para o que serve, o que inclui os políticos e tomadores de decisões. Estas estruturas governamentais foram órgãos criados logo após a Constituição de 1988 com o objetivo maior de fomentar, de financiar a pesquisa nos Estados. Aqui no Piauí temos a FAPEPI, que inclusive completou 25 anos um dia destes e eu até escrevi um post falando dela (veja aqui).

Estas fundações arrecadam recursos dos orçamentos estaduais, de fontes privadas, às vezes de fundos internacionais ou do orçamento federal para incentivar a pesquisa, a produção de conhecimento. Através de editais estas fundações custeiam projetos, tanto de pequena monta, quanto o custeio de bolsas de estudos para quem faz Mestrado, Doutorado e até a chamada Iniciação Científica. Esta última é de suma importância para formar o pesquisador quando ele ainda está na universidade. Ou seja: estas fundações investem no futuro da nossa Nação através da formação de pesquisadores, em vários níveis: da graduação ao pós-doutorado. É sempre bom lembrar que sem recursos não há pesquisa. Sem pesquisa não há produção de conhecimento. Sem produção de conhecimento uma nação viverá eternamente na dependência do que se produz em outra nação. Ou seja: será mera expectadora e consumidora de bens produzidos por quem detêm o conhecimento. Isto fere sobretudo nossa autonomia enquanto nação.

Em 2014 tive a oportunidade de presidir a FAPEPI. Participei em Belo Horizonte de uma reunião do CONFAP que é o Conselho dos Presidentes das FAPs. O encontro foi promovido pela FAPEMIG. Sai ciente dali que existiam três grandes FAPs no Brasil: FAPESP, FAPERJ e FAPEMIG, pois os diálogos e a demonstração do espectro de realizações e editais abertos para incentivo à pesquisa eram enormes. Fora as três grandes notei a existência de um time intermediário, onde figuravam as FAPs do Paraná, Pernambuco, Ceará, Goiás e outras, e um terceiro bloco onde estava a nossa FAPEPI, junto com o Acre, Rondônia, Tocantins e outras, com um dos menores orçamentos do Brasil. Ao me deparar hoje com notícias de que FAPEMIG cancelou milhares de bolsas de incentivo a Pesquisa, lançamento de editais de inovação encolhidos ou recolhidos, é visível o quanto a Ciência e a Tecnologia no Brasil estão muito longe de serem prioridade. Veja aqui.

Nenhum governo, de nenhum partido, de nenhum nível, federal, estadual ou municipal, no Brasil parece compreender a importância de valorizar a Ciência e a Tecnologia. Não conseguem enxergar os exemplos que vem de países como a Alemanha e o Japão que, mesmo depois de terem sido totalmente destruídos pelos efeitos das guerras conseguiram reconstruir suas economias incentivando a Educação e por extensão a Ciência e a Tecnologia. Não conseguem ver revoluções como as que catapultaram a Coreia do Sul de PIB similar ao Brasil na década de 1960 para uma das maiores potências mundiais, todas atreladas ao desenvolvimento de sua educação e, por extensão, da ciência e da tecnologia.

Chamo a sociedade para uma reflexão nesta Quarta-Feira de Cinzas: os políticos, tanto do legislativo quanto do executivo, precisam acordar para valorizar o que é realmente importante. Ao olharmos a lista dos principais produtos da Balança Comercial brasileira notamos um vazio muito grande de conhecimento agregado aos principais produtos que comercializamos. Dos dez produtos que mais exportamos, 9 são resultado das nossas riquezas naturais: minérios, produtos agrícolas e pecuários. Apenas um é resultado da agregação de conhecimentos: os aviões vendidos pela EMBRAER. Na lista dos dez produtos que mais compramos a situação é exatamente a inversa: nove são resultado de conhecimento agregado como medicamentos, aparelhos eletroeletrônicos e componentes eletrônicos, por exemplo.

Isto é resultado da nossa extrema pobreza. Não pobreza de recursos. Pobreza de pessoas que consigam pensar o futuro da nação investindo no alvo certo: a Educação.