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Ambiente Global

O negócio dos insetos

Publicado em 11 julho 2003

Por Por Mário Osava
Rio de Janeiro - Os insetos, como os vírus e outros microorganismos, tornaram-se mercadorias de crescente presença no comércio internacional, como meios para controlar pragas agrícolas, a cada dia mais disseminadas pelo mundo. A globalização - ao intensificar o intercâmbio de bens, o turismo e as migrações - também aumentou a disseminação internacional de fungos, bactérias e outros agentes biológicos que causam graves perdas na agricultura. Até uma década atrás, o ingresso no Brasil dessas espécies daninhas era medido por dezenas, mas nos últimos anos mede-se por centenas, segundo as autoridades sanitárias. Como essas pragas exóticas não têm inimigos naturais no país, se expandem rapidamente e com agressividade, obrigando a fortes gastos em venenos agrícolas. O consumo no Brasil de agrotóxicos cresceu de US$ 1 bilhão em 1991 para US$ 2,5 bilhões em 2000, segundo a indústria do setor. O controle biológico de pragas é uma alternativa de recente desenvolvimento no país, com um futuro promissor apesar dos "obstáculos culturais" provocados pelo desconhecimento e apego aos agrotóxicos, disse José Roberto Parra, especialista no assunto e diretor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), de Piracicaba, Estado de São Paulo. É uma grande oportunidade para os jovens agrônomos e biólogos, já que os mercados nacional e internacional tendem a crescer muito, explicou. Foi o que perceberam dois alunos de mestrado da Esalq, os agrônomos Danilo Pedrazzoli e Diogo Rodrigues Carvalho, que há dois anos criaram a empresa Bug Agentes Biológicos, produtora de exércitos de insetos e ovos para combater as pragas. Essa firma tem 30 empregados e já exporta ovos de uma traça, cujo nome científico é Anagasta kuehniella, que serve de alimento para a multiplicação do inseto Trichogramma, um parasita de ovos usado no controle biológico de pelo menos 18 milhões de hectares cultivados em 16 países, segundo a Bug. Cana-de-açúcar, milho, soja, algodão e tomate são os cultivos nos quais mais se aplica esse "parasitóide". A empresa produz dez quilos mensais de ovos desta traça e exporta 30% para os Estados Unidos e países europeus como Dinamarca, França e Suíça. Isso é suficiente para reproduzir 360 milhões de exemplares de Trichogramma, segundo Parra, que também é consultor da Bug. A exportação é favorecida por baixos custos no Brasil, explicou Alexandre Sene Pinto, coordenador do projeto de produção de inimigos naturais de pragas, executado pela Bug com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do governo de São Paulo. O controle biológico oferece várias vantagens, especialmente seu custo. Contra a centopéia Diatraea saccharalis, que reduz a produtividade da cana-de-açúcar, o uso de agrotóxicos custa três vezes mais do que o combate com parasitas, afirmou. Por isso, "em 80% da cana no Estado de São Paulo emprega-se o controle biológico", estima Sene Pinto. As empresas produtoras de insetos e microorganismos antipragas começam a multiplicar-se no Brasil, onde essa tecnologia começou a ser discutida nos anos 70, observou Parra. Em geral, começam pequenas e se expandem, como ocorreu com a Koppert holandesa, que já tem subsidiárias em vários países. Segundo Parra, os maiores obstáculos para o controle biológico no Brasil são, além dos culturais, a debilidade das atividades de extensão no meio rural, que impedem a chegada de tecnologia aos agricultores, e a escassez de recursos humanos qualificados. Inclusive no contexto da América Latina, o Brasil está atrasado em relação à Colômbia, que há tempos tem mais de 20 empresas especializadas nessa área. Só agora o Brasil começa a disputar a liderança, graças à crescente quantidade de estudantes pós-graduados, acrescentou. "Cresceu a massa crítica", e em um congresso realizado em meados de junho, no interior de São Paulo, reuniram-se mais de 600 pesquisadores brasileiros interessados nessa área, destacou o especialista. O Brasil e vários países latino-americanos contam com sua enorme biodiversidade como um fator favorável para ó avanço das biofábricas de espécies antipragas, embora as nações industrializadas estejam atualmente com grande vantagem tecnológica, assinalou Parra. Além disso, nos países tropicais é mais difícil controlar pragas, porque não existe um inverno rigoroso que mate muitos microorganismos, acrescentou. O comércio internacional de agentes biológicos ainda é limitado por barreiras sanitárias, por medo da introdução de novas espécies, mas tende a crescer na medida em que as pragas cruzam fronteiras, afirmou. A praga chamada "minador de citrus", provocada pela larva Phyllocnistis citrella Stainton, surgiu no Brasil em 1996, procedente da Ásia, e se disseminou nos extensos laranjais paulistas, favorecida pela inexistência de inimigos naturais. Em casos como esse, em geral é preciso importar tais inimigos, para reequilibrar o meio ambiente, explicou o especialista. (IPS/Envolverde)