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Exame

O negócio do verde

Publicado em 02 maio 2001

Por Ricardo Arnt

Como o Brasil finalmente está transformando em riqueza um potencial de 2 trilhões de dólares enraizado em sua flora e fauna. Bem-vindo ao novo mundo dos negócios da biodiversidade e da biotecnologia TESOURO VERDE Todo dia de manhã, antes de começar o batente, João da Cruz Oliveira, 62 anos, lavrador em Poconé, Mato Grosso, toma uma talagada de cachaça misturada com a raiz de uma planta conhecida como nó-de-cachorro. O cheiro é forte, mas o gosto até que não é mau. Lembra o de madeira cheirosa, como o sândalo. João da Cruz aprendeu a fazer a infusão com os pais, que lhe repassaram o costume, popular em todo o Pantanal Mato-Grossense. Pegam-se três pedaços de raiz, mergulha-se tudo na cachaça (ou em vinho branco) e deixa-se quatro ou cinco dias de molho, até a beberagem ganhar uma coloração avermelhada. Uma dose por dia, numa xícara de cafezinho, energiza as crianças preguiçosas, fortifica a memória, diminui o colesterol e, garantem os pantaneiros, previne a impotência sexual. As múltiplas virtudes do nó-de-cachorro levaram o professor Elisaldo Carlini, diretor do Centro de Informação sobre Drogas Psicotrópicas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a estudar a planta durante cinco anos. Recentemente, em parceria com o laboratório paulista Biossintética, sua equipe conseguiu isolar quimicamente o princípio ativo da espécie e registrar o processo com um pedido de patente. Agora, eles examinam a toxicologia do vegetal e logo testarão seus efeitos em seres humanos. Está comprovado que a ação contra a perda de memória e a fadiga projeta o nó-de-cachorro como medicamento novo. Com as credenciais da planta, a Biosintética pretende transformar-se em produtor mundial de medicamentos contra o mal de Alzheimer, um mercado que movimenta 3 bilhões de dólares por ano. O drinque caipira de João da Cruz pode valer uma fortuna. Bem-vindo à bioeconomia. Um mundo no qual o Brasil tem uma vantagem competitiva inigualável: a riqueza da sua biodiversidade. A variedade de espécies de plantas e animais existentes nos ecossistemas brasileiros contém um tesouro biológico de genes, moléculas e microorganismos. Os genes são, cada vez mais, a matéria-prima das biotecnologias que se espalham pela indústria farmacêutica, agrobusiness, química industrial, cosmética, medicina botânica e horticultura. O crescente mercado mundial de produtos biotecnológicos movimenta entre 470 bilhões e 780 bilhões de dólares por ano (veja a tabela ao lado). No Brasil, o setor ainda é pequeno - cerca de 500 milhões de dólares por ano - mas seu potencial não tem limites. Segundo a ONG Conservation International, dos 17 países mais ricos em biodiversidade do mundo (entre os quais figuram Estados Unidos, China, Índia, África do Sul, Indonésia, Malásia e Colômbia), o Brasil está em primeiro lugar disparado: detém 23% do total de espécies do planeta. Só para comparar, a Suíça tem apenas uma planta "endêmica" (que só existe lá), a Alemanha, 19 e o México, 3 000. O Brasil tem 20 000, apenas na Amazônia. Além disso, há as espécies vegetais, de mamíferos, aves, répteis, insetos e peixes da Mata Atlântica, do cerrado, do Pantanal, da caatinga, dos manguezais, dos campos Sulinos e das zonas costeiras. Apenas 5% da flora mundial foi estudada até hoje e só 1% é utilizada como matéria-prima. A biodiversidade brasileira, portanto, é o cofre de um patrimônio químico inexplorado de remédios, alimentos, fertilizantes, pesticidas, cosméticos, solventes, fermentos, têxteis, plásticos, celulose, óleos e energia, além de moléculas, enzimas e genes em número quase infinito. Em outras palavras: o Brasil pode ser a Arábia Saudita da Opep biológica. Há três anos, o biólogo Moacir Bueno Arruda, chefe da Divisão de Ecossistemas do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama), dedica-se a um cálculo imponderável. Com a ajuda do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), Arruda está estimando o valor patrimonial da biodiversidade brasileira. A tarefa só termina em 2002, mas já há uma estimativa na mesa: 2 trilhões de dólares, quatro vezes o Produto Interno Bruto do país. O cálculo de Arruda não tem a pretensão de ser exato. É uma aproximação. Ele tenta quantificar o valor dos recursos naturais existentes nas unidades de conservação brasileiras e os "serviços ambientais" que eles prestam (como regular o clima, gerar água potável e produzir alimentos). "Os produtos naturais têm seu preço", diz Arruda. "Seu valor aumenta na medida em que são úteis ao consumo humano e às atividades econômicas". Essa é a ficha que está caindo agora na cabeça de muita gente. Considere os seguintes empreendimentos em andamento: Em Minas, o fundo Fir Capital Partners, que dispõe de 75 milhões de dólares para investir, prepara o lançamento de um projeto de varredura das espécies nativas do cerrado. A Fapesp está aplicando 14 milhões de reais no programa Biota para estudar as espécies do Estado de São Paulo em diálogo com seus Projetos Genomas. Em Manaus, os 18 milhões de reais que serão investidos no Centro de Biotecnologia da Amazônia (40% já construído) darão um choque de qualidade na indústria química regional. No Rio de Janeiro, a Extracta conclui para a Glaxo testes sobre a reação de oito agentes de doenças às 30 000 substâncias do seu banco de espécies da Mata Atlântica. A Embrapa está investindo 14 milhões de reais no Projeto Genoma Funcional para decifrar o DNA da raiz de vários produtos agrícolas. Em Uberlândia, no Triângulo Mineiro, a americana Monsanto vai desembolsar este ano 40 milhões de dólares em pesquisas de melhoramento de grãos, híbridos e milho transgênico. Outra empresa, a suíça Syngenta, gastará 25 milhões com o mesmo objetivo. Fundos de investimento como o Votorantim Ventures, o Ventana Global e o BancBoston Capital estão analisando novos empreendimentos em biotecnologia. A Natura, a maior fabricante nacional de cosméticos, quer fazer parcerias com os povos do Parque Indígena do Xingu para aproveitar seus conhecimentos e lançar novos produtos. A área de biotecnologia farmacêutica do Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi) registrou 68 pedidos de patente em 1996, 150 em 1997 e 112 em 1998. O governo federal lança, neste semestre, o Programa de Biotecnologia e Recursos Genéticos. Até 2003, serão investidos 240 milhões de reais para fomentar o setor. As perspectivas para o futuro entusiasmam os empresários. "Este é o ano da biotecnologia no Brasil", afirma Guilherme Emrich, gestor do fundo FIR Capital Partners e fundador da Biobrás, o único fabricante de insulina da América Latina. "Estamos diante de riquezas brasileiras que apresentam tremendas oportunidades de negócios", diz Phillipe Pommez, vice-presidente de inovação e desenvolvimento de negócios da Natura. "Basta olhar para a Amazônia para perceber a vantagem natural do Brasil. Está claro que os negócios com biotecnologia e biodiversidade vão se multiplicar", afirma Paulo Henrique de Oliveira Santos, presidente do fundo Votorantim Ventures. A expansão das biotecnologias e a crescente apropriação dos recursos naturais abriram uma nova fronteira de negócios. Até recentemente, a coleta de material biológico para exploração dos recursos genéticos - a chamada bioprospecção - era praticamente livre e a biopirataria corria solta. Os genes eram importantes apenas para os cientistas e seu valor prático era pouco conhecido. Nos anos de vaivém livre, os recursos genéticos eram considerados patrimônio da humanidade, portanto disponíveis. "Na sede do National Cancer Institute, em Washington, vi contêineres com material congelado proveniente do mundo todo", diz a pesquisadora Cristina Amaral Azevedo, do Programa de Conservação da Biodiversidade, de São Paulo. "Está tudo organizado, com código de barras, indicando a origem por país." É verdade que o trânsito também fluía em mão dupla: na área agrícola, o Brasil importa até hoje mais sementes do que exporta. Sem mudas estrangeiras de café, cana-de-açúcar, soja, arroz e feijão, o país nunca exportaria essas culturas. Mas a novidade mais perturbadora é a veloz transformação do gene em commodity. Em 1992, a Eco-92, no Rio de Janeiro, consagrou a Convenção sobre Diversidade Biológica, que estabeleceu o princípio da soberania dos países sobre seus próprios recursos genéticos. Hoje, efetivamente, há genes que valem mais do que ouro (veja tabela na página 57). Só que as mudanças de paradigma criam turbulências que demoram a se estabilizar. Em todo o mundo, a questão da titularidade da propriedade genética gera vastos problemas éticos, políticos e religiosos que se refletem nas leis sobre patentes. Poucos países dos 170 que já ratificaram a Convenção promulgaram legislação regulamentando a matéria. Para os que têm poucos recursos naturais, a questão pode ser menor, mas para o Brasil não é. Afinal, como tratar os genes? Como informação? Ou como mercadoria, a exemplo dos minérios do subsolo? Outra complicação é o papel dos chamados "conhecimentos tradicionais", o conhecimento de agricultores, ribeirinhos, índios e seringueiros sobre os recursos das áreas em que vivem. A cultura popular fornece indicações preciosas a respeito da utilidade das espécies para cientistas e empresas. Mas foram os agricultores, os fazendeiros e os índios que descobriram, ao longo de séculos, o valor dos recursos, como ocorre com o nó-de-cachorro dos caboclos pantaneiros. Para quem procura a "agulha no palheiro" na floresta, uma boa dica faz toda a diferença. Tanto que, dos 119 princípios ativos que a medicina usa para fazer remédios - como a penicilina, a morfina e o ácido acetilsalicílico -, 74% foram revelados pela medicina botânica. Em geral, as grandes empresas não têm problemas em reconhecer o valor do conhecimento tradicional e remunerar seu aproveitamento. Mas quem é o dono? Qual indivíduo de uma comunidade deve ser recompensado? A parteira? O pajé? Qual tribo entre várias que compartilham o uso de uma mesma espécie deve receber royalties pela sua conversão em produto? "No caso do nó-de-cachorro, tentamos de tudo para identificar os titulares do conhecimento. É bem mais difícil do que parece", diz Omilton Visconde Júnior, presidente da Biosintética. Para a empresa, que fatura 280 milhões de reais por ano e investe 4 milhões em pesquisa, o Brasil precisa definir a matéria. "Sem isso, os ativos da biodiversidade jamais deixarão de ser passivos", afirma Visconde Júnior. Há 400 laboratórios farmacêuticos interessados nessa definição. Já existe, entretanto, um empreendimento exemplar. Em 1998, Antônio Paes de Carvalho fundou, no Pólo de Biotecnologia do campus da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a Extracta Moléculas Naturais. Combinação rara, no país, de cientista (ex-diretor do Instituto de Biofísica da UFRJ) e empresário (fundador da primeira empresa brasileira de biotecnologia vegetal, a Biomatrix, hoje da Monsanto), Paes de Carvalho também é presidente da Associação Brasileira de Empresas de Biotecnologia. Em três anos, a Extracta montou um banco de extratos com 30 000 substâncias de 3 500 espécies da Mata Atlântica, recolhidas em fazendas do Estado do Rio mediante acordo com os proprietários. Sua coleção permite testar alvos biológicos do interesse de clientes utilizando o primeiro sistema robotizado de alta velocidade da América Latina: em 48 horas as 30 000 amostras podem ser acionadas. Em julho de 1999, a Extracta estabeleceu uma parceria com a multinacional inglesa Glaxo (hoje, GlaxoSmithKline, depois da recente fusão com a SmithKline). O grupo possui 141 fábricas em 41 países, fatura 22 bilhões de dólares e investe 4 bilhões em pesquisa anualmente - compare isso com os 4 milhões de reais do orçamento de pesquisa da Biosintética. No Brasil, a Glaxo opera uma fábrica no Rio de Janeiro e ocupa o quarto lugar no ranking da indústria farmacêutica. A Glaxo pagou 3,2 milhões de dólares para a Extracta testar oito moléculas causadoras de doenças no seu banco de espécies e procurar substâncias que possam combatê-las. Segundo as estatísticas, para descobrir um reagente capaz de modificar o comportamento de uma molécula são necessários 10 000 testes. E de cada 1 000 reagentes apenas 1 sobrevive à bateria de exames clínicos e vira medicamento. O processo todo pode durar 5, 10 ou 15 anos, e demandar investimentos de 100 milhões a 500 milhões de dólares. Mas, em julho, quando o trabalho da Extracta para a Glaxo acabar, é provável que cada um dos oito alvos testados nas 30 000 moléculas encontre três reagentes. Ou seja, em termos estatísticos, 24 moléculas dignas de investigação poderão ser identificadas. Também pode não aparecer nada. O contrato é de risco. Nesse momento, então, a Extracta poderá solicitar patente do processo de obtenção dos reagentes. A Glaxo, por sua vez, ganhará exclusividade por 20 anos para testar e desenvolver medicamentos com base neles. Se de uma das substâncias isoladas emergir um produto comercial, a Extracta receberá 3% de royalties das receitas geradas por ele. "O contrato não contempla o envio de nenhuma matéria biológica brasileira para o exterior. O que a Extracta faz é descobrir riqueza e agregar valor aos recursos genéticos da natureza", diz Paes de Carvalho. A pesquisa e o desenvolvimento clínico, a fase de testes humanos e o lançamento do produto são repassadas à Glaxo. "Esses custos, de muitos milhões de dólares, nem a Extracta nem a indústria brasileira podem arcar", diz. Para os ingleses, 3,2 milhões de dólares é quase nada. Só uma das suas drogas, o antiulceroso Antak, a prescrição médica mais receitada da história (350 milhões de receitas), já faturou 3 bilhões de dólares. Paulo Braga, diretor-médico da GlaxoSmithKline, considera modelar o acordo com a Extracta. "Estamos sempre procurando fontes para nossa biblioteca de compostos químicos", afirma. "O Brasil pode nos revelar genes raros e substâncias desconhecidas." O contrato permite à GlaxoSmithKline terceirizar parte da pesquisa básica e concentrar-se em atividades fins. "Estamos interessados em parcerias. Gostaria de ter mais herbários, laboratórios e bancos de espécies trabalhando conosco", diz Braga. Essa é a idéia por trás da Bioamazônia, uma entidade privada de interesse público fundada em 1997 pelo Ministério do Meio Ambiente para implementar o Programa Brasileiro de Ecologia Molecular. Dona de um orçamento anual de 44 milhões de reais, a Bioamazônia pretende ser uma incubadora de empresas; um órgão governamental sem fins lucrativos, com regulamento flexível de empresa privada, para fazer empreendimentos e contratos. Seu projeto prioritário é a construção, em Manaus, do Centro de Biotecnologia da Amazônia (CBA), um complexo de 12 000 metros quadrados de laboratórios que consumirá 18 milhões de reais em equipamentos e obras civis - 40% já erguidas - até junho de 2002. Com apoio da Superintendência da Zona Franca de Manaus e do Banco da Amazônia, o CBA pretende ser o centro de análises químicas que falta às indústrias farmacêuticas e cosméticas da região. Empresas locais, como a Amazonas Brasil, Amazon Cosméticos, Amazonas Cosméticos, Magama, Pronatus da Amazônia, Amazon Ervas e Siema, serão beneficiadas. O Centro poderá realizar os exames de toxicologia, farmacologia e de determinação de princípios ativos em produtos, impossíveis de ser feitos hoje na região. Também não há na Amazônia um banco de moléculas. O CBA vai dar um choque de qualidade na biotecnologia amazônica, rica em plantas valiosas como a unha-de-gato (imunoestimulante), a pedra-ume-caá (antidiabética), o jambu (anestésico) e a copaíba (antibiótica), porém tosca na química. "O importante é agregar valor aos produtos. Para isso temos de criar competência científica na região e atrair laboratórios do Sul para c", diz Imar César de Araújo, diretor de Promoção de Investimentos da Suframa. Em 1999, a Bioamazônia fechou o seu primeiro acordo. Por 4 milhões de dólares, deveria produzir e enviar à matriz da Novartis Pharma, instalada em Basiléia, na Suíça, 10 000 extratos de micróbios, fungos e bactérias. A Novartis, que opera em 150 países e fatura 22 bilhões de dólares por ano, teria o direito de comercialização, as patentes sobre os compostos derivados das substâncias e, no caso de comercialização de produto, pagaria royalties de 0,5% a 1% à Bioamazônia. Só que, em maio de 2000, o professor da Universidade Federal do Amazonas, Spártaco Astolfi Filho, membro do Conselho de Administração da Bioamazônia, denunciou o contrato. Spártaco acusou a diretoria da entidade de não ter submetido o acordo ao Conselho. Associações de cientistas e ongs protestaram. Deputados e senadores pediram seu cancelamento. "Pagamos o preço do pioneirismo", diz Wanderley Messias, diretor da Bioamazônia. "Meio por cento a mais ou a menos que o contrato Glaxo-Extracta tem pouca importância. Apanhamos porque somos uma entidade controlada pelo governo. Foi pura política." Spártaco não concorda. "Estava tudo muito frouxo e mal discutido", afirma. "A diretoria negociou durante um ano mas não mandou o contrato para o Conselho. Exportar 10 000 genes em bruto para a Suíça não é o que se pretendia para a Bioamazônia." Para definir a política de exploração da biodiversidade é preciso criar um órgão coordenador, defende Alberto Ajncyer, diretor da área de produtos químicos naturais da Merck. "Devem ser estabelecidas regras claras e igualdade de condições para todos", afirma Ajncyer. Regulamentar a bioprospecção é tão importante que o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (Cebeds) propôs ao governo a criação de uma Agência Nacional da Biodiversidade para o setor, similar à Agência Nacional de Telecomunicações e à Agência Nacional de Energia Elétrica. A proposta foi entregue ao ministro da Casa Civil, Pedro Parente, em março, com sugestões para a definição jurídica da matéria. Ela é referendada por empresas como a Vale do Rio Doce, Glaxo, Novartis, DuPont, Extracta e Copersucar e pelo escritório de patentes Daneman. "É preciso criar um clima favorável para negócios", diz Félix Bulhões, presidente do Cebeds. "O Estado tem de regulamentar o setor, não engessá-lo." Bulhões receia que a paixão nacionalista pela biodiversidade - que lembraria a da campanha "O petróleo é nosso" da década de 50 - sufoque a iniciativa privada. Teme que o país perca outro ciclo de desenvolvimento. Os empresários cobram pragmatismo dos cientistas, mas os cientistas cobram empenho dos empresários. "Nos últimos 30 anos, a flora brasileira não revelou nenhum princípio ativo importante para a medicina", diz a pesquisadora Elaine Elizabetsky, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. "Isso mostra o pouco que se investiu em pesquisa no Brasil. Ao mesmo tempo, sugere o quanto o país pode revelar." Para os especialistas, o desafio é encontrar o equilíbrio na regulamentação do setor." Temos de desenvolver o que é nosso e ao mesmo tempo atrair capitais", diz Alberto Portugal, presidente da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, a estatal Embrapa. "Estamos numa situação nova. Não temos a quem copiar. Precisamos inventar uma legislação adequada ao país." A Embrapa é reconhecidamente uma usina de biotecnologia que fomenta negócios em todos os Estados brasileiros. Detentora de 85 patentes no Brasil e de 22 no exterior, a empresa mantém em seus quadros 1 100 Ph.Ds. empregados em pesquisa. Nos laboratórios de Brasília, desenvolve um mamão transgênico resistente ao vírus da praga mancha-anelar, um feijão transgênico imune à praga do mosaico-dourado e uma banana transgênica resistente a fungos. A estatal também investe nos alimentos "nutracêuticos", aqueles que alimentam ao mesmo tempo que ajudam a tratar de doenças. É o caso da soja transgênica que contém hormônio de crescimento humano (antienvelhecimento) e a alface transgênica portadora de proteínas capazes de imunizar contra a leishmaniose. No último dia 17 de março, a Embrapa ocupou as primeiras páginas dos jornais com o anúncio do nascimento do primeiro animal clonado no país, a bezerra Vitória, desenvolvida em Brasília. Agora a estatal está embarcando no Projeto Genoma Funcional que vai mapear os genes que contêm as proteínas que determinam as características das raízes da soja, do feijão, do milho e da cenoura. Também vai decifrar o DNA do verme nematóide, que ataca 160 espécies de plantas. O objetivo é transferir genes entre espécies para agregar valor e criar culturas mais adequadas aos solos tropicais. "Aproveitar a biodiversidade e explorar a genética é a vocação natural do Brasil. O que precisamos é criar competências", diz Portugal. "Sem legislação clara nenhum investidor entrará nesse negócio de risco", diz Guilherme Emrich, do fundo FIR Capital Partners. Emrich acredita que está na hora de avançar. "Há muita gente interessada e estão surgindo oportunidades para parcerias", afirma. Segundo ele, nos Estados Unidos a biotecnologia já está em plena terceirização. Quem descobre novas moléculas são as empresas pequenas. "No Brasil, podemos fazer uma parte da pesquisa e licenciar empresas de porte global para lançar produtos. O modelo é o contrato Glaxo-Extracta". Com 75 milhões de dólares para investir, o fundo FIR Capital está concluindo um projeto para começar uma varredura no cerrado brasileiro. As espécies do semi-árido apresentam resistências naturais ao ambiente rústico que podem ser transferidas, pela transgênese, a outras culturas, como as nordestinas. "O projeto do cerrado é para vários anos, para gerar negócios em agrobusiness, veterinária e medicamentos", afirma Emrich. "Mas, por enquanto, estamos esperando a legislação sobre bioprospecção." Outros fundos de investimento, como o Ventana Global, o A2R, o Latin Tech Capital, o JP Morgan, o Rio Bravo, o BancBoston Capital e o Votorantim Ventures também estão apostando em biotecnologia. "Estamos estudando oportunidades de negócios há seis meses. O potencial realmente é vasto. Acho que as coisas vão acontecer", diz Paulo Henrique de Oliveira Santos, presidente do Votorantim Ventures, que tem 300 milhões de dólares para investir em negócios de tecnologia digital e biotecnologia. Investimentos no cerrado significam mais recursos para Minas Gerais, o maior pólo de biotecnologia do Brasil, onde atuam 60 empresas que faturam 250 milhões de dólares anuais, a metade do movimentado pelo setor. Uberlândia, no Triângulo Mineiro, abriga as grandes da veterinária e do agrobusiness, como as suíças Aventis e Syngenta (resultado da fusão da Novartis com a inglesa Zêneca) e Monsanto, cujas pesquisas se concentram no desenvolvimento de grãos e híbridos de milho, sorgo e girassol. A Monsanto está investindo 40 milhões de dólares em pesquisa em 2001, e a Syngenta, 25 milhões. Em 1999, a Aventis assumiu o controle da mineira Mitla e adquiriu seu banco de mudas e sementes. Com ele, pretende desenvolver híbridos de milho cada vez mais resistentes. "O Triângulo Mineiro irradia tecnologias agrárias para o Centro-Oeste brasileiro", afirma Emrich. A efervescência no setor de biotecnologia também pode ser medida nas estatísticas do Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi), o órgão que concede patentes no Brasil. Desde 1999, os pedidos de patentes na área de biotecnologia farmacêutica aumentam em média 20% ao ano. Para agilizar a tramitação (uma patente demora em média cinco anos para ser concedida pelo Inpi), o Instituto conseguiu, afinal, em fevereiro passado, autorização para reforçar sua equipe de 147 técnicos com 100 novos contratados, por um ano. Eles vão acelerar o processamento e diminuir o atraso acumulado. Para acelerar a expansão do setor resta, porém, resolver uma confusão. As críticas ao contrato da Bioamazônia com a Novartis impeliram o governo federal, em julho de 2000, a baixar uma medida provisória regulando a bioprospecção por decreto. Com isso, atropelou quatro propostas de lei que eram discutidas no Congresso. Mas a emenda saiu pior que o soneto. A medida, que está atualmente em vigor, condicionou a transferência de todo material biológico, inclusive o que o Brasil importa, à licença prévia de uma Comissão Interministerial encarregada de definir os critérios para contratos e parcerias. Ela deveria ser empossada em dezembro de 2000, mas não foi. Desde junho, a medida provisória vem sendo reeditada, mês a mês. Foram nove vezes, até agora. Sem Comissão e sem licenças, toda a bioprospecção e o intercâmbio biológico do país com o exterior está parado. Todas as teses de mestrado e doutorado, as pesquisas de campo (só no Estado de São Paulo são 400) e os negócios engatilhados foram travados. Para investidores, como a Novartis, o trauma é grande. "Houve uma certa ingenuidade da matriz de Basiléia em negociar um contrato diretamente com a Bioamazônia sem conhecer as leis brasileiras", diz Branderley Cláudio, diretor de relações externas da Novartis Pharma. A subsidiária brasileira, que disputa com a Aventis o primeiro lugar no mercado farmacêutico nacional, tem fábricas em Taboão da Serra, na Grande São Paulo e em Resende, no interior do Rio de Janeiro, e fatura 500 milhões de dólares por ano. "Como na verdade não havia regulamentação sobre bioprospecção, o contrato com a Bioamazônia já nasceu vulnerável. Erramos ao ignorar o apelo político da questão", diz Cláudio. Deu no que deu. "Fomos chamados de piratas. Nos associamos a um projeto para apoiar o desenvolvimento da Amazônia e acabamos acusados de explorá-la", afirma. O contrato foi cancelado, a Bioamazônia apresentou outra proposta, mas a Novartis não respondeu. "Temos muito interesse em parcerias com empresas brasileiras. Mas agora vamos esperar a regulamentação da lei", afirma Cláudio. "Garanto que vamos colocar até o último advogado do mundo para analisar novas propostas de associação." Sem critérios e parâmetros legais para regulamentar a bioprospecção, os empreendimentos estarão sujeitos a risco. Iniciativas pioneiras podem acabar mal. Foi o que aconteceu com o cancerologista e escritor Dráuzio Varella, diretor do Centro de Pesquisa Oncológica da Universidade Paulista (Unip). Em 1995, a Unip adquiriu um barco para dar aulas de ecologia na Amazônia. Sob o impacto do primeiro contato com a região, Varella espantou-se com a falta de estudos sobre biodiversidade e pôs a mão na massa. "Há um tesouro escondido na Amazônia", afirma. "Se ninguém se mexer, ficará lá para sempre." Em 1997, ele viajou aos Estados Unidos e negociou um convênio da Unip com o Instituto Nacional do Câncer americano. Com investimento de 200 000 dólares, importou equipamentos e montou um laboratório de análises químicas na sede da universidade, na Avenida Paulista, em São Paulo. A idéia era criar um banco de extratos de plantas para testar células tumorais e bactérias ultra-resistentes. A coleta de material seria feita na Fazenda Intervales, do governo estadual, no município de Capão Bonito, na Mata Atlântica de São Paulo, que o sogro de Varella dirigira. Tudo se complicou na hora de pedir autorização à Secretaria do Meio Ambiente. "O convênio com os Estados Unidos era única e exclusivamente de assistência técnica", diz Varella. "Não havia remessa de material, nem de informação, nem contrato, nem exploração comercial." Sem saber como proceder diante da demanda, os técnicos da Secretaria mandaram o pedido para a Fundação Florestal. "Virou uma maluquice. Ninguém entendia nada. Havia ideologia demais e pouca ciência. As reuniões eram infindáveis, e o policiamento, constante. Fui tratado como bandido e trambiqueiro. Nunca me senti tão mal", afirma Varella. Nos últimos meses, entretanto, abriram-se perspectivas para que pesadelos como os do médico paulista não se repitam. O governo reconheceu as críticas à medida provisória e prometeu reescrevê-la, em vez de reeditá-la automaticamente, agilizando a concessão de licenças para a bioprospecção. É grande a pressão de empresários, cientistas e ambientalistas para a regularização. "Todos os dias recebemos dezenas de e-mails reclamando da medida", diz Simone Scholze, assessora do Ministério da Ciência e Tecnologia. A estabilidade da economia e o sucesso do Projeto Genoma da Fapesp também aproximaram o empresariado da comunidade científica. Se a bioprospecção for regulada com sensatez, os investimentos poderão explodir. "Estou na área há 30 anos, e acho que agora as coisas estão se desenhando para uma arrancada da biotecnologia", afirma Wanderley Canhos, vice-presidente da Fundação André Tosello, em Campinas. A instituição possui o maior banco de microorganismos, fungos e leveduras da América Latina. "Além da riqueza natural, o Brasil tem estrutura empresarial e científica para entrar nesse jogo", diz Canhos. Segundo ele, o primeiro passo é conhecer o poder e a riqueza que a natureza contém. O segundo é promovê-la transformando-a em vantagem competitiva para o país. "Só agora as empresas e a universidade estão se dando conta disso", diz Paulo Buss, presidente da Fiocruz, no Rio de Janeiro. A fundação emprega 3 131 técnicos (848 com Ph.D.), fabrica 62 medicamentos, 2 milhões de reagentes químicos e 300 milhões de vacinas por ano. "Esses números são tímidos", afirma Buss. "O rendimento tecnológico da Fiocruz é menor do que poderia ser." Para ele, a universidade brasileira só agora está começando a enfrentar o "nanismo histórico" que trava a conversão da pesquisa científica em tecnologia e negócios. "Tivemos 50 anos de política científica voltada para a produção de teses e artigos, não para tecnologia, produtos ou processos". Foram décadas de glórias e de mínguas. "Chegou a hora de quebrar o paradigma da universidade como catedral do saber", diz o presidente da Fiocruz. USINA DE GENOMAS Aproximar empresários e cientistas até que é fácil Boa parte da efervescência entre os empresários de biotecnologia é conseqüência do Programa Genoma da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), que montou uma bem-sucedida rede de 200 pesquisadores e 65 laboratórios, em contato estreito com as empresas. O Brasil foi o primeiro país do Terceiro Mundo a dominar a tecnologia do seqüenciamento genético. Em dezembro de 1999, os cientistas decifraram o genoma da bactéria Xylella fastidiosa, agente da praga do amarelinho, que ataca os laranjais, com o apoio da Fundação Citrus, bancada pelas empresas do setor. Agora eles estão decifrando o genoma dos tipos de câncer mais comuns no Brasil, em parceria com o Instituto Ludwig, e o genoma da cana-de-açúcar, para a Copersucar. Em maio, começarão a mapear o genoma do eucalipto a pedido de fabricantes de papel e celulose, como Votorantim, Ripasa e Suzano, que pagarão 1 milhão de dólares pela tarefa. A Fapesp também pretende investir 850 000 dólares para decifrar o parasita da esquitossomose, em parceria com o Instituto Butantã. Não é preciso ter uma vara de condão para aproximar cientistas e empresários no Brasil. Apenas estratégias de longo prazo. "Como o Brasil chegou a produzir aviões na Embraer?", pergunta José Fernando Perez, presidente da Fapesp. Ele mesmo responde: "Com o Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA) investindo em formação de recursos humanos desde a década de 50. O ITA não faz avião. Faz gente que faz". Gerar biotecnologias e explorar os recursos genéticos da biodiversidade é a evolução óbvia dos projetos genomas brasileiros. "O Brasil está mudando. Nós também estamos amadurecendo", diz Perez. "Temos na natureza brasileira um potencial incalculável." O presidente da Fapesp torce pela decolagem dos Fundos Setoriais de Ciência e Tecnologia recém-propostos pelo governo, que deverão captar recursos de negócios em petróleo, telecomunicações, informática, energia elétrica, mineração e transportes. Se eles saírem do papel, o orçamento do Ministério da Ciência e Tecnologia aumentará do atual 1 bilhão de reais para 1,7 bilhão. Por enquanto, apenas o Fundo CTPetro está funcionando. Há também o Programa de Biotecnologia e Recursos Genéticos do Programa Avança Brasil que será lançado neste semestre, com recursos de 240 milhões de reais nos próximos três anos, para fomentar o setor. A Fapesp, que dispõe constitucionalmente de 1% da arrecadação dos impostos no Estado de São Paulo (270 milhões de reais em 2001) está investindo na biodiversidade com o Projeto Biota. Serão 30 projetos com 400 pesquisadores atuando em 12 487 fragmentos de cerrado e na maior área contínua de Mata Atlântica do Brasil, que vai de Ubatuba, no litoral paulista, até o Paraná. "Vamos criar um paradigma nacional", diz Perez. "A idéia é fazer o inventário dos recursos naturais de São Paulo em diálogo com o Projeto Genoma." Mas, para começar a pesquisa, é preciso, antes, regulamentar a bioprospecção. PARCERIA INTELIGENTE Para a Natura, acordos com índios e fazendeiros abrem novos caminhos BIOPROSPECÇÃO SIGNIFICA MUITOS novos negócios para a Natura. A empresa paulista faturou 1,4 bilhão de reais no ano passado, construiu uma fábrica ultramodema em Cajamar, município da Grande São Paulo, e mudou de foco. Deixou de ser uma empresa de cosméticos para virar uma empresa de life style, dedicada à saúde, nutrição e qualidade de vida. "Nos Estados Unidos, o número de consultas às medicinas complementares, como fitoterapia (terapia com plantas), homeopatia, medicina chinesa e acupuntura, ultrapassou o de consultas à medicina tradicional desde 1998", diz Phillipe Pommez, vice-presidente de inovação e desenvolvimento de negócios da Natura. Há dois anos, a Natura comprou por 20 milhões de reais o tradicional laboratório Flora Medicinal, do Rio de Janeiro, fundado em 1912. Com isso, incorporou um vasto acervo sobre a flora brasileira. Recentemente, a subsidiária carioca lançou no mercado a droga Viriliflora, um estimulante da potência sexual extraído de plantas como a marapuama, cipó-cravo e catuaba. A linha de cosméticos Ekos, baseada em "ativos da biodiversidade brasileira" (buriti, castanha-do-pará, andiroba, cupuaçu, macela etc.) caminha para concentrar 10% do faturamento da empresa. Toda a matéria-prima da Natura é extraída sob certificação da Forest Stewardship Council, organização, não governamental que promove o, manejo sustentável das florestas. Um dos projetos engatilhados, com o Instituto Socioambiental, de São Paulo, pretende promover os conhecimentos dos povos do Parque Indígena do Xingu, no Mato Grossa "Só estamos esperando a regulamentação da bioprospecção", diz Pommez. Para ele, a nova lei precisa ser inteligente. "Tem de proteger o conhecimento tradicional e os recursos da natureza", afirma. "Ao mesmo tempo, não pode fechar o Brasil e deve estimular a iniciativa privada, o negocio é descomplicar", afirma.