Notícia

Altair Tavares

O mundo pós-pandemia conhecerá a distância que separa os desiguais

Publicado em 12 novembro 2021

A pandemia do novo coronavírus desencadeou um grande contexto marcado por tamanhas desigualdades econômicas, sociais e culturais. Portanto, a pandemia acentuou ainda mais a distância que separa os desiguais. Até mesmo os trabalhos remotos também excluiu vários grupos profissionais, principalmente aqueles com menor conectividade, assim, contemplou apenas 38% da força do trabalho.

Nos grandes centros urbanos, onde se concentram maior parte dos deslocamentos para o trabalho, também concentram a maior taxa de óbito.

O professor da Universidade de São Paulo (USP), Eduardo Haddad, disse durante um seminário on-line promovido no final de outubro pela Fapesp e pelo Instituto do Legislativo Paulista (ILP) que, ”no mundo pós-Covid, testemunharemos o surgimento de novas geografias de descontentes, reforçadas por disparidades intraurbanas e inter-regionais, principalmente nos países em desenvolvimentos”, afirma.

No contexto geral da pandemia, podemos perceber que a disseminação da Covid-19 esteve fortemente relacionada às desigualdades estruturais-sociais e espaciais.

Assim, de acordo com o pesquisador Eduardo Haddad, a pandemia teve efeito mais intenso em famílias pobres nas áreas metropolitanas do Sul Global,, afetando fortemente os bairros que possui grande ocorrência de trabalho informal.

Conforme matéria da Agência Fapesp desta quinta-feira (11), aqui no Brasil o presidente Jair Bolsonaro rejeitou publicamente o risco associado à pandemia e posicionou-se, assim como o então presidente Norte-Americano Donaldo Trump. De acordo com a matéria, tanto Donaldo quanto Bolsonaro contrariou os métodos impostos pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como o distanciamento social e o uso de máscara.

Tendo uma visão ampla, percebe-se que, durante um bom tempo, grande parte das sociedades pareceu ignorar o perigo e apoiar os dois presidentes.

Os desafios da pandemia

O impacto da pandemia afetou também o setor de transportes. Ciro Biderman, professor dos programas de Graduação e Pós-Graduação em Administração Pública e Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e coordenador do Centro de Estudos em Política e Economia do Setor Público (Cepesp), informou que até 2013, as tarifas de ônibus aumentavam sistematicamente acima da inflação. As manifestações contra a majoração das tarifas, ocorridas naquele ano, impediram, em certa medida, que isso continuasse acontecendo, o que aumentou a pressão sobre o sistema.

O professor explica que nessa via, surgiu um fenômeno novo, que foi a emergência do transporte por aplicativo. ”No transporte por ônibus, as viagens curtas subsidiam, na prática, as viagens longas. E a adoção do transporte por aplicativo fez cair exatamente a demanda por viagens curtas”, explica Ciro.

Raquel Rolnik, professora titular da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (FAU-USP) e coordenadora do Laboratório Espaço Público e Direito à Cidade (LabCidade), esmiuçou em sua fala como e por que a pandemia afetou de forma distinta os diferentes territórios. E contestou a resposta simplista que associa estritamente à pobreza a maior incidência de casos e óbitos.

“A primeira coisa que apareceu nos debates públicos foi a ideia de que ‘onde tem favela tem COVID’. Essa ideia dialoga com o reconhecimento das desigualdades, das condições precárias vividas por grandes parcelas da população, mas não se verifica na prática. Já vimos esse tipo de explicação em outros momentos da história e ela esconde uma espécie de criminalização de certas formas de morar que, no pós-pandemia, justificaria a demolição de determinados espaços”, disse.

Segundo Raquel, a correlação mais clara mostrada pelas pesquisas foi com a mobilidade urbana. Áreas que concentram o maior número de saídas para o trabalho foram também as que concentraram o maior número de óbitos.

Desigualdade tecnológica

Pesquisadores mostraram que existem conflitos que não podem ser resolvidos de maneira racional, sentando-se ao redor de uma mesa. “Há conflitos irreconciliáveis, posições tão opostas que é impossível chegar a um consenso. Um modelo genérico e pretensamente universal, como o das cidades inteligentes, é muito difícil que dê conta de realidades tão complexas.”

Mas o que de fato aconteceu? Mais de 70% das pessoas ocupadas nas classes A e B puderam aderir ao trabalho doméstico. Porém, nas classes C, D e E, a adesão não passou de 28%. Também houve uma grande disparidade em relação ao tipo de dispositivo utilizado para a realização do trabalho remoto. Enquanto 77% das pessoas ocupadas nas classes A e B utilizaram o computador, laptop, notebook, nas classes D e E as pessoas tiveram que recorrer ao celular”, apontou.

A síntese das quatro apresentações é que, se a ideia de pós-pandemia parece apontar para o futuro, o que se verifica de fato é a persistência do passado – um passado de desigualdades que a COVID acentuou, em vez de arrefecer.

As informações são da Agência Fapesp desta quinta-feira (11)