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A Comarca

O movimento migratório em Matão

Publicado em 02 setembro 2020

Os ônibus rurais que se movem pelas ruas, os canaviais próximos às estradas de terra e o cheiro de laranja que advém das fábricas são características típicas do cenário e do cotidiano matonenses. Por ter se desenvolvido por meio da produção e exportação rural-agrícola, a cidade cresceu em termos econômicos, políticos, sociais e culturais, pautando-se também no protagonismo de famílias migrantes que vinham para cá trabalhar na safra – muitas advindas dos estados do Piauí ou de Alagoas, pelo período de 6 a 9 meses, além dos trabalhadores que já residiam neste espaço. Giovana Gonçalves Pereira, cientista social, mestre e doutora em Demografia pela Unicamp, cresceu no meio dessas paisagens e decidiu transformar suas memórias em pesquisa acadêmica: estudar a importância dos trabalhadores rurais migrantes na história de Matão.

“Quando penso no porquê de ter começado a trabalhar com esse tema, lembro da minha infância. Os meus avós moravam na Fazenda Santo Antônio, que fica na zona rural de Matão e, durante os anos 90, recebia muitos trabalhadores rurais para manejar a cana. Portanto, essa realidade sempre esteve muito próxima de mim. Mas foi apenas na universidade, em meados de 2010, que a inquietação e o encantamento para entender mais sobre esse cotidiano foram ganhando forma de pesquisa”, conta a cientista social. Dessa curiosidade surgiram duas Iniciações Científicas, um Mestrado e um Doutorado especializados no tema – sendo o enfoque desta entrevista o Mestrado ‘Entre o partir e o chegar: os trabalhadores rurais migrantes em Matão/SP’, de 2015. Os trabalhos foram financiados pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). A Pastoral do Migrante e a Secretaria de Assistência Social da época, em Matão, também participaram e contribuíram para a realização do projeto.

“Quando pensamos no agronegócio, pensamos na modernização agropecuária, nas máquinas, implementos agrícolas e toda a tecnologia envolvida nessa produção muito importante para o progresso econômico. Mas acabamos nos esquecendo e precisamos estar atentos, também e principalmente, às pessoas que se encontram na ponta do processo produtivo: os agricultores e os trabalhadores rurais. Se não termos quem colha a laranja ou corte a cana, não teremos o restante, que nem chegará até a indústria”, explica Giovana, que complementa: “Não podemos olhar para Matão como um ponto desconectado do mundo, pois é uma cidade que tem muita relação com toda a divisão internacional do trabalho da citricultura. Assim, quando olhamos para Matão, também olhamos para o estado da Flórida, nos EUA; para o centro financeiro de São Paulo; e para o Porto de Bruxelas, na Bélgica. Mas além disso, quando olhamos para Matão, também olhamos para o interior dos estados do Piauí e de Alagoas, porque muitos migrantes vêm desses lugares e a gente precisa dessas pessoas”.

Em seus trabalhos, a pesquisadora focou em analisar, valorizar e entender os migrantes que vinham trabalhar em Matão. “Busquei compreender como e por que pessoas que moram tão longe se deslocam, anualmente, para trabalhar em nossa cidade, tendo em vista a relevância desses trabalhadores não somente como mão de obra, mas no que agregam cultural e socialmente para o município. Eu não posso falar por essas populações porque elas são as melhores informantes de si mesmas, no entanto, com as pesquisas, percebemos que um dos motivos principais que as atraíam para cá foi o acesso ao mercado de trabalho formal, que na época era muito restrito na cidade de Jaicós, por exemplo, no interior do Piauí, para a população que migrava de lá”.

MODERNIZAÇÃO

Em 1964, com o início das atividades da Citrosuco, Matão passou a valorizar o agronegócio citrícola em suas terras para além do cultivo do café. Foi a partir de 1980 que o Brasil se consolidou como o maior produtor de laranja do mundo e a Região Central paulista, que inclui Araraquara, São Carlos, Taquaritinga e Matão, tornou-se pioneira nessa produção e exportação, como consta no projeto de Mestrado desenvolvido por Giovana. Com a modernização das indústrias, houve a adoção do sistema tank-farm, ou seja, do “bombeamento automático de suco dos tanques de armazenamento industrial para o caminhão-pipa, o que possibilitou redução dos custos e maior conservação do produto”.

A Cutrale, em Araraquara, e a Citrosuco, em Matão, também adotaram tais medidas. Mas quando se pensa nas partes da plantação e da colheita, que podem ser feitas de forma manual ou mecanizada, segundo Abramovay (2000), cai-se no “vício de raciocínio na maneira como se definem essas áreas rurais no Brasil, que contribui decisivamente para que sejam assimiladas de forma automática ao atraso, à carência de serviço e à falta de cidadania”. No entanto, não se deve imaginar que isso “simboliza um baixo dinamismo tecnológico do setor”, porque, como lembra a cientista social Giovana Pereira, são partes tão essenciais da produção e do cotidiano de municípios quanto outras.

Pensar o processo de trabalho desde a sua concepção é entender de onde as pessoas saem, qual o caminho por que passam e onde pretendem chegar. Dessa forma, pode-se tentar diminuir o preconceito e a exclusão de povos que moram no vaivém permanentemente temporário. Conhecer a própria história também pode ser uma contribuição, pois Matão é um município que foi desenvolvido tanto por imigrantes italianos que vieram para trabalhar nas lavouras de café quanto por piauienses que buscam a segurança de um trabalho formal nas plantações de laranja da região. Compreender como se caracteriza o crescimento demográfico matonense, a movimentação cultural, social e econômica para além da agroindústria citrícola, é reconhecer a participação de populações historicamente marginalizadas que, em idas e vindas, constroem por meio do seu próprio cotidiano a história não só de uma cidade ou região, mas de um país.

Fonte: Ana Luiza Otrente Batista (Estagiária)