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Nexo Jornal

O método que auxilia a leitura de crianças com dislexia

Publicado em 22 outubro 2018

Crianças com dislexia apresentam dificuldade em relacionar letras e seus respectivos sons. Um novo trabalho de pesquisadores brasileiros e franceses, feito com 36 crianças de 9 e 10 anos, metade delas disléxica, provou que o uso de filtros verdes pode melhorar a velocidade de sua leitura.

Nos testes, realizados em um hospital em Paris com apoio da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), foi constatado que as crianças disléxicas fixaram o olhar na imagem por 500 milésimos de segundo, em comparação a 600 milésimos, quando o filtro era amarelo ou não havia filtro. Crianças sem dislexia registraram 400 milésimos de segundo para a mesma ação.

O uso de filtros coloridos para esse fim foi patenteado pela primeira vez em 1983. Entretanto, os estudos referentes à eficiência do método eram considerados incompletos. Ainda assim, ele era utilizado em países como a França. Em outros, como o Brasil, o método não foi adotado, pois havia poucas evidências de sua eficácia.

A equipe franco-brasileira conseguiu analisar pela primeira vez o movimento dos olhos das crianças leitoras e comprovar a leitura mais veloz. “As crianças conseguiram identificar as letras e processar toda a questão semântica em um tempo menor”, afirmou José Barela, professor e pesquisador na área de desenvolvimento motor da Universidade Cruzeiro do Sul que integra a equipe do projeto, ao Nexo. A análise foi feita com câmeras acopladas em óculos, um equipamento de rastreamento de olhar com raios infravermelhos de uso médico.

Como se dá o mecanismo? De acordo com Barela, supõe-se que quando se altera a cor de uma situação, o sistema nervoso de uma criança leitora com dislexia passa a ficar mais “ativo” para a realização da tarefa, alcançando a velocidade maior.

Barela oferece uma analogia para facilitar a compreensão. “Quando você é acostumado a dirigir um carro, acostumado com o freio e a embreagem, não presta muita atenção na hora de dirigir. Mas quando pega um carro diferente e o acelerador ou a embreagem estão mais moles ou duros, você passa a realizar a ação de modo mais consciente, com mais atenção”, explicou. “É uma possível explicação para a mudança da cor do filtro. Alteramos o estímulo que chega aos olhos das crianças e, com isso, algumas regiões do sistema nervoso ficam mais ativas, permitindo uma leitura mais rápida.”

O pesquisador afirmou que o estudo é só uma etapa de um processo maior de compreensão dos mecanismos da dislexia. Segundo ele, é preciso entender, por exemplo, porque certas cores funcionam de modo distinto em crianças diferentes ou se, depois de algum tempo de uso do filtro, o olho da criança tende a se acostumar, reduzindo a eficácia do método.

A dislexia é uma condição neurológica que afeta a linguagem. Ela permanece por toda a vida e é frequentemente hereditária. As pessoas com dislexia têm dificuldade em realizar ações como leitura, escrita e soletração, pois áreas do cérebro que analisam novas palavras e que criam modelos neurais para palavras conhecidas não são ativadas.

Existem dois tipos de dislexia: a do desenvolvimento, que vem desde o nascimento; e a adquirida, ou alexia, quando um indivíduo perde a capacidade de ler e escrever depois de uma lesão no cérebro ou doença.

A dislexia aparece com maior frequência nas chamadas ortografias opacas, de línguas em que há muita variação na relação entre fonema (som) e grafema (escrita). É o caso dos idiomas francês e inglês. Nas ortografias transparentes, como espanhol e italiano, a relação entre representação gráfica e sonoridade é mais regular, o que contribui para uma incidência menor de dislexia.

De acordo com o site Dislexia Brasil, a condição não é causada por baixas capacidades intelectuais, escolaridade ruim, problemas familiares ou dificuldade de aprender.

“Dislexia não é uma categoria única, mas um transtorno que se encontra em um espectro de déficits”, descreveu a psicóloga britânica Maggie Snowling, em citação no site da Dislexia Brasil.

No Brasil, segundo Barela, 5 a 15% da população tem dislexia, índice similar à média mundial.