Notícia

Clínica Literária

O mercado emergente no fundo do mar traz problemas à tona

Publicado em 14 maio 2013

Por Luís Peazê

Conversa no Píer

Há dez anos atrás, anunciei "Vendem-se Terrenos no Fundo do Mar" e parecia um título de efeito, para capturar a atenção de leitores distraídos. Não era isso, tratava-se de um problema iminente, daqueles que pouca gente se interessa e muitos até entram em pânico quando a coisa eclode a ponto de ser manchete na mídia mundial. Sem falar dos oportunistas das catástrofes. Pois o problema evoluiu, silenciosamente como de fato acontece no fundo dos oceanos, offshore, longe do interesse dos cityslikers; mais ainda da classe média das zonas periféricas; pior, sem compreensão para os humanos miseráveis que vivem na pobreza - estes representam mais da metade da população do planeta - sem acesso a alimentação, habitação, saúde, muito menos à educação que lhes favoreceria entender o problema.

Era o 4. Seminário do Meio Ambiente, realizado na sede da Petrobras, pela SOBENA - Sociedade Brasileira dos Engenheiros Navais, em 2003. Participei do evento para apresentar a utópica idéia de realizar seminários ao ar livre em mais de 300 praias, navegando pela costa brasileira, sonhando reunir "stackeholders" de vários setores de organizações governamentais, civis não governamentais, a iniciativa privada, do meio estudantil, acadêmico e até populações carcerárias... E pesquei a idéia de vender terrenos no fundo do mar a partir de declarações do Dr. Paulo Hargreaves, especialista em recifes artificiais, projeto, uso e manejo, que viveu no Japão alguns anos estudando e mergulhando num dos pedaços de água mais aterrados pela ação antrópica (humana), depois da área vizinha, os mares da China e próximos da Índia.

É lógico que a intenção não era iniciar um comércio, era chamar a atenção para a potencialidade de uso inapropriado, se não criminal, de áreas submarinhas que são extremamente sensíveis, e cuja interferência do homem - em larga escala - pode provocar impactos gravíssimos: desde à pesca à fauna marinha em geral; de alterações costeiras a micro-climas; da navegabilidade à saúde humana. Naquele seminário da SOBENA o Dr. Hargreaves alertava para os perigos do afundamento de grandes estruturas sem uma visão abrangente e monitoramento apropriado, de especialistas. Porém, isso tem sido feito ao redor do mundo indiscriminadamente, inclusive envolvendo resíduos tóxicos, radioativos e bélicos.

No Brasil, não é raro até mesmo em programas de entretenimento diário do "prime time", maquiados de jornalismo, assistirmos a venda de loteamentos partidários através de afundamentos de navios, por exemplo, com a promessa de fartura de pesca, para comunidades locais de pescadores artesanais, e de atração turística para mergulhadores "por um dia" que invadem áreas marinhas frágeis, despejados em pacotes de viagem cada vez mais convidativos.

A verdade é que, por trás da fabulosa proliferação de vida que se agrega a uma velocidade espantosa, em qualquer pedaço de coisa sólida alojada no fundo mar, há a ciência de várias áreas do conhecimento humano e uma física quântica implacáveis. O anilmalzinho em que nos tornamos é incapaz de assimilar o "big data" (monumental massa de dados que nós mesmos produzimos, numa realidade aumentada exponencialmente pela Internet) e, portanto, mergulhar na problemática do ambiente marinho e costeiro - complexo.

Homem: bicho de estimação da máquina

Perguntei ao Prof. Shuji Aihara, da Faculdade de Engenharia da Universidade de Tóquio, estudioso de fissuras em estruturas submarinhas de transporte de óleo, gás, nitrogênio e carbono, se ele poderia me fornecer dados de um inventário submarinho dessas estruturas no mundo, fotos também e, estudos similares de seus pares cientistas ao redor da Terra. O Prof. Aihara foi rápido ao retornar um email quase simultâneo ao meu, declarando que não tem dados, não tem números, não tem fotos, não tem nada e depende da indústria para desenvolver seus estudos. Seria estranho, se este observador fosse totalmente ingênuo.

"O rápido crescimento econômico nos BRICs [Brasil, Rússia, Índia e China] faz com que o mundo tenha que produzir cada vez mais energia. Estima-se que a demanda de energia primária total em 2035 será 50% maior do que a atual", declarou Aihara para agência da FAPESP - Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, segundo artigo do coordenador editorial Heitor Shimizu  (autor do livro "Robô, o Filho Pródigo - Seremos Seus Bichos de Estimação?" título que nos remete a grande reflexão).

Acumulamos na memória recente, um repertório sórdido de acidentes de grandes proporções, relacionados a navios petroleiros e plataformas de petróleo e a declaração do Prof. Aihara, ao seu amigo Shimizu, soa como um alarme: "... uma grande variedade de estruturas, como dutos de transporte, navios e estruturas em alto-mar, tem sido desenvolvida e construída nos últimos anos para dar conta dessa demanda." Shimizu acrescenta que "o grupo de pesquisa que o cientista coordena investiga tecnologias e formas de fazer com que essas estruturas sejam mais seguras, tanto para o homem como para o meio ambiente."

"Sistemas de transporte em massa de CO2 serão necessários para o sequestro e o armazenamento de carbono de fontes antropogênicas para locais como reservatórios subterrâneos. Por isso, dutos de longa distância continuarão em uso e novos tipos serão necessários", crava Heitor com as palavras de Aihara.

É sabido que 90% do transporte de carga no mundo são feitos pelo mar, assim como sabemos que atualmente atingimos o auge na corrida pela exaustão das fontes de combustíveis não renováveis, neste torrão que gravita no universo e que aprendemos a chamar de "rocha mãe", ou Gaia. Aprendemos inclusive que Gaia é um organismo vivo. Nossa inteligência descobriu na física quântica o que Ernest Hemingway já havia descoberto num poema de John Donne "...cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório; a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do gênero humano...". Porém, não nos importamos em ferir esse organismo de que somos parte. Continuamos nos matando, especialmente ao nosso caráter e padrões éticos, morais e espirituais, permanecendo "vendilhões do templo".

Não é novidade que os bancos de pesquisa das universidades ao redor do mundo atendem à demanda e financiamento dos grandes conglomerados, com o objetivo do ganho de escala e lucro, nada mais. O futuro em que as máquinas terão mesmo humanos como bichinhos de estimação é aqui e agora, através de engrenagens políticas - lobby.

Procura-se um síndico

Enquanto isso, um mercado emergente no fundo do mar, na minha tacanha opinião, traz muitos problemas à tona. Existe em franco crescimento uma indústria imobiliária que utiliza o solo marinho para a construção de hotéis, fábricas e residências. Não bastasse uma enorme onda de lixo marinho desabando sobre nós a cada dia. Dado o irremediável fluxo de descarte inapropriado de resíduos domésticos, industriais, hospitalares, rurais e urbanos da terra para o mar, via redes de esgoto e canais fluviais, assim como descartes originados no próprio ambiente marinho, por navios e atividades de pesca, de transporte, turismo e lazer. Concorrem para agravar os impactos dessa onda, as toneladas de tintas tóxicas (anti craca) carregadas de chumbo e substâncias nocivas às vidas marinha e humana, utilizadas na pintura dos cascos de navios, estruturas oceânicas e embarcações de pesca e de lazer abaixo da linha d´água.  

No exato momento em que o Brasil trata de modo obsceno a situação da nossa matriz de logística, e, de modo mais obsceno ainda a questão caótica de nossos portos.

O loteamento no fundo do mar está sendo edificado (em breve urbanizado) por firmas americanas, européias e do Oriente Médio. Elas anunciam um cardápio que atende a necessidades variadas e cujos preços variam de acordo com as "vantagens" de cada projeto: luxo ou "no frills"; para fins industriais, turísticos ou residenciais; próximos de facilidades em terra firme, com ou sem transporte incluído, etc. As fotos, tal como o lançamento de um novo aparelho de celular, atraem peixinhos humanos como as sondas de navios pesqueiros industriais que incluem aspiradores gigantescos, sugando tudo. Depredador. Há inclusive lotes à venda em mini países independentes (livres de impostos) flutuando ao largo da costa americana e de países árabes.

Não tardará para atividade de síndico do planeta tornar-se uma profissão, a mais valorizada. O problema é que tendemos a agir da forma que agimos com o síndico de nosso prédio - que ele resolva os problemas, nós, condôminos, ou inquilinos, não temos nada com isso, podemos até atrasar o pagamento mensal, burlar uma regra e outra da convenção, não participamos da assembléia geral, caminhamos com salto alto no apartamento às 3:00 horas da madrugada e o vizinho de baixo "que se foda"... Esse foi o único jeito de concluir esse artigo que apenas tocou de leve no espelho d´água desse mar abissal de conflitos e relevâncias para a vida sustentável moderna.