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Gazeta do Povo online

O mercado e o preço de cada um

Publicado em 13 março 2009

Beronha e as permanentes questões de alta indagação filosófica. Ou de alta indagação pecuniária – ou pecuária, que seja, também vale. Se todo homem tem seu preço, raciocinou, qual seria o meu? O jeito foi consultar o solitário não de Apipucos, mas o urtigão da mansão da Vila Piroquinha. Natureza Morta tratou de descascar o abacaxi da melhor maneira possível, ou seja, pelas bordas. Disse que, feliz ou infelizmente, ele também não tinha preço porque não tinha cotação, ao contrário da arroba do boi. Seria um zero até para o mercado de boas ações, caso existisse.

– É isso, e suspeito jamais teremos peso, nem peso de consciência.

Mas, mantendo o boi no pasto, Natureza invocou um caso concreto, documentado, do preço do homem. Lançou à mesa dados interessantes, coletados pela historiadora Martha Abreu, da Universidade Federal Fluminense. Em 1850, um escravo comprado na África por US$ 40 valia em terras brasileiras, cuja produção crescente de café demandava escravos que não mais eram “importados”, de US$ 400 a US$ 1.200. Assim, uma carga de 800 escravos podia render a fortuna de US$ 960 mil: US$ 100, naquele ano, correspondem, hoje, a US$ 4 mil, conforme matéria da revista Pesquisa, de fevereiro, da Fapesp.

O título? “Tráfico made in USA – A busca pelo Camargo, um dos muitos navios negreiros americanos que vieram ao Brasil”, de Carlos Haag.

Camargo, epa! Nada a ver. Era o brique do capitão Nathaniel Gordon, que acabou na forca, em fevereiro de 1862, nos Estados Unidos, o único americano condenado à pena capital por participar do tráfico negreiro. Gordon teve o “privilégio” de comandar, em 1852, o último navio negreiro a desembarcar, com sucesso, 500 africanos em território brasileiro. Depois de despachar a sua “carga”, Gordon ateou fogo ao navio, para evitar sua prisão (o tráfico estava proibido no país desde 1850), e “escapuliu vestindo roupas femininas para os EUA”.

Enquanto um grupo de arqueologia subaquática procura os restos do navio, em Bracuí, Angra dos Reis, em terra firme pesquisadores revelam que pelo menos 430 navios dos Estados Unidos teriam feito 545 viagens escravistas às Américas entre 1815 e 1850, a maioria para Cuba e o Brasil. “Muitos baleeiros foram convertidos em navios negreiros ou serviram como disfarce para americanos traficarem escravos para costas brasileiras. Então Nova Iorque ganhara a honra dúbia de ser o maior entreposto de tráfico negro do globo.” Sob a bandeira americana, as embarcações eram praticamente intocáveis por parte dos ingleses.

Milhares de norte-americanos enriqueceram. “As embarcações construídas nos EUA abasteciam os entrepostos escravistas na costa africana, forneciam apoio decisivo às expedições escravistas e transportavam milhares de africanos para a costa brasileira”, relata a brasilianista Dale Graden, da Universidade de Idaho. Um cônsul americano no Rio, na década de 1840, avaliou entre 70% e 100% a rentabilidade dessas expedições negreiras em navios dos EUA, “tanto do Sul escravista quanto do Norte supostamente abolicionista”.

Como se vê, o preço de cada um depende dos outros. Procure não virar um cativo.