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“O melhor emprego que existe é ser reitor”

Publicado em 14 setembro 2017

Por Carolina Unzelte

Há 71 anos, José Goldemberg tem sua história ligada à USP. Além de estudante, foi diretor do Instituto de Física, reitor e o último a receber o título de professor emérito da Universidade, em fevereiro de 2017. Hoje, aos 89 anos, é presidente da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e conversou com o JC sobre sua trajetória.

Quais desafios o senhor enfrentou como reitor? Eles já foram superados?

Tornei-me reitor no fim do período autoritário, em 1986. Apesar de não ter mais aquele ambiente de perseguições mais óbvias, ainda era um período autoritário, em transição para a democracia. O primeiro desafio era tornar a universidade um lugar mais respirável, onde as pessoas não se sentissem vigiadas e tolhidas, característica da ditadura. Um exemplo: havia, literalmente, ao lado da reitoria um escritório do SNI [Serviço Nacional de Informações], onde as diversas atividades do reitor eram aprovadas. O fato era que reitor não assinava contratações que eram vetadas pelo Serviço. Sabendo disso, os departamentos já tinham autocensura, a pior que existe, porque as pessoas se amedrontam. No dia em que assumi a reitoria, encontrei a sala ao lado vazia. Tinha desaparecido toda a documentação e nunca mais ninguém voltou. Isso foi um sinal importante.

Com a volta da democracia, era conveniente mudar o Estatuto da Universidade, porque havia uma reivindicação de que mais pessoas fossem ouvidas no processo de gestão. E foi feito: é o que está em vigor até hoje, com pequenas modificações. O Estatuto abriu muito a Universidade, dando mais voz aos professores que estavam abaixo do nível de titular. Em alguns departamentos, os titulares não encorajavam a ascensão de elementos mais jovens. Agora todas as categorias têm voz. Agora, duas mil pessoas são envolvidas na escolha de reitor, nas várias etapas. A última coisa foi a autonomia financeira da Universidade, um assunto importantíssimo hoje. Antes, a Universidade era praticamente dirigida como uma repartição pública de administração direta. Exemplo: para ir ao exterior, era necessária a aprovação do governador. Ou seja, demorava tanto que, em geral, o objetivo da viagem já se perdia. Com a alta na inflação, o tempo todo o reitor precisava conversar com as autoridades do governo para reajustar os orçamentos. Era uma sacrifício. Então, negociamos junto com os reitores da Unicamp e da Unesp: o governo entregaria à Universidade uma fração do orçamento e faríamos a gestão esse recurso, como uma mesada. São as únicas universidades brasileiras que funcionam com esse sistema, que permite maior flexibilidade. Outros detalhe foi fazer uma carreira para os funcionários com previsão de ascensão. Eu me caracterizei como um reitor ranzinza, que cobrava desempenho. Acredito que o Brasil precisa de boas universidades, mas não temos recursos para que o ensino superior seja gratuito e universal, como é na França. Aqui, como a universidade é muito cara para o Estado, a qualidade e a meritocracia acabam sendo seus pilares.

As últimas medidas para contenção de crise na Universidade foram planos de demissão voluntária e suspensão de contratações. Essas medidas são efetivas?

Os recursos da Universidade, no nível que foram fixados pelo decreto de 1988, 9,4% do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) do Estado para as três universidades paulistas, funcionou bem até 2010. Com a crise econômica, a Universidade havia assumido encargos cujas consequências não foram bem avaliadas. Se o ICMS cai, os recursos das universidades também caem. A solução que a USP adotou foi o da demissão voluntária, um mecanismo usado em muitos lugares. Não é uma coisa agradável, mas foi uma tentativa de solução. O risco da demissão voluntária é que as pessoas que se aposentam são as que têm mais idade e mais experiência. É um problema, mas eu acredito que será superado e, se houver uma retomada da economia, a indexação vai permitir que as universidades recebam mais recursos.

O senhor é contra as eleições diretas para reitor. Por quê?

Por causa da minha ideia do que é uma universidade, com três categorias de pessoas: os alunos, que são transitórios; o pessoal do apoio, os funcionários, que são permanentes, mas que realizam tarefas; e quem define tais tarefas e é permanente, o corpo docente. Portanto, há uma hierarquia. São os professores que realmente entendem do conteúdo e que fixam a orientação da Universidade. Dar aos alunos o mesmo poder de escolha de dirigentes que os professores é uma distorção completa. Não é como eleição para prefeito, em que um médico ou uma gari são seres humanos cujos votos têm exatamente o mesmo valor. A universidade não é uma organização desse tipo.

O senhor criou o Instituto de Estudos Avançados (IEA) com a proposta de multidisciplinaridade e aproximação da sociedade. Como a produção acadêmica pode ser mais multidisciplinar e mais próxima da sociedade?

Essa foi uma experiência bem sucedida. As pessoas não lembram como era antes: os físicos só conversavam com os físicos, os químicos só com os químicos… Uma das coisas das quais me orgulho muito é a criação do clube dos professores, o primeiro lugar onde pessoas de vários institutos podiam se encontrar para almoçar, tomar um drink, namorar. A interdisciplinaridade melhorou bastante com o IEA, mas a geografia da Universidade joga contra. No exterior, uma universidade é um grande quarteirão. Aqui, os prédios foram feitos muitos distantes um do outro. Mas é um processo gradativo e foram feitos muitos esforços, com cursos que envolvem especialidades de vários tipos, por exemplo. O diretor atual do IEA, o Paulo Saldiva, é uma pessoa muito voltada para problemas ambientais. É ótimo, porque se há um problema no qual a sociedade está engajada hoje é o ambiental.

Depois de reitor, o senhor assumiu diversos cargos públicos, como Ministro da Educação e Secretário do Meio Ambiente do país e Secretário da Educação do Estado de São Paulo. Como política e academia podem trabalhar juntas para melhorias na sociedade?

Certamente, o melhor emprego que existe no mundo, e que eu já tive, é ser reitor da Universidade de São Paulo, por causa da autonomia. Esses outros cargos foram muito úteis para me dar uma visão mais completa da sociedade. Por que não aumenta o percentual dado às universidades? Pergunta que é feita o tempo todo. É muito simples: para aumentar o percentual dos recursos, precisa tirar de outro lugar, da saúde, por exemplo, cuja situação é pior. Cada vez que vejo reivindicações muito fortes, digo: “bom, mas e o resto da sociedade?”. Nós conseguimos para as universidades uma posição até bastante privilegiada, o que é importante, porque desde que elas foram criadas no século XII, tinham um papel de apontar novos caminhos. O país não é suficientemente rico para aceitar todos, mas os que entram têm um espaço para criar ideias, desenvolver máquinas, produtos, patentes para melhorar a operação da sociedade. Muitos alunos na minha época, hoje menos, achavam que tomar de assalto a reitoria era a mesma coisa que tomar o Palácio de Inverno na Revolução Russa, como Lênin fez. Não é. A revolução social não vai ocorrer dentro da Universidade. Vai ocorrer no resto da sociedade. Tenho, aliás, um orgulho extraordinário: a reitoria, na minha gestão, nunca foi invadida. A brincadeira era que eu era um pouco autoritário, mas era uma brincadeira. Era um autoritário suave, me dava bem com os estudantes, ia no bandejão. Imagina se os reitores fazem isso hoje, não acontece. Se ele for lá, não sabe direito o que vai acontecer.

O senhor diz que sempre cobrou desempenho das pessoas. Há uma crítica recorrente de que os professores são cobrados por produções, papers, publicações que, apesar de numerosas, podem não ser relevantes. Como o senhor avalia essa crítica?

É verdade, uma crítica justa. É difícil fazer avaliações em certas áreas. Nas área de ciências exatas, é mais fácil, porque a publicação de papers nas revistas internacionais passa por um processo de seleção muito grande. Sobretudo na área de ciências humanas, é um problema grande. Esse é um problema que a FAPESP tem. Mas existem outros critérios, é um processo de aperfeiçoamento. As críticas principais que ocorrem tem a ver com o papel da CAPES [Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior], porque que ela que introduziu essa numeração que virou uma coisa mais ou menos aritmética. Houve distorções e é preciso aperfeiçoar esses mecanismos. Agora, argumentar que mesmo pessoas da área de humanidades não podem ser avaliadas é incorreto, porque tem mil maneiras de avaliar. Por exemplo, na área de artes plásticas, que é uma das mais difíceis, exposições, críticas que aparecem nos meios de comunicação podem ser critérios.