Notícia

Gazeta Mercantil

O mapa genético do café

Publicado em 05 março 2002

Por Daniela Prandi - de Campinas
Uma pesquisa de R$ 1,9 milhão, coordenada pelo Instituto Agronômico de Campinas (IAC), vai identificar o mapa genético do café. O objetivo é melhorar a qualidade e a produtividade do cultivo. Segundo o coordenador do projeto Genoma do Café, engenheiro-agrônomo Carlos Augusto Colombo, o levantamento é inédito. "O café tem características complexas e não se sabe exatamente o que lhe garante a boa qualidade", diz. "Com o mapeamento, vamos identificar os genes e obter material para novos estudos." Segundo Colombo, integrante do Centro de Genética e Biologia Molecular do IAC, a primeira fase do trabalho será concluída em julho, com o mapeamento de 100 mil seqüências genéticas. Metade do projeto é bancada pelo Consórcio de Pesquisa Cafeeira do Brasil e o restante, dividido entre Centro Nacional de Recursos Genéticos (Cenargen) e Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Tecidos da raiz, caule, flor e fruto do café serão analisados por uma rede de 40 laboratórios, 20 deles, no Estado de São Paulo. A previsão é de que até o fim do ano, pelo menos 200 mil seqüências tenham sido identificadas. "A partir do mapa, será possível avaliar o nível e os fatores que causam o estresse da cultura, como a resistência a pragas e a mudanças de temperatura", diz. O café cujo genoma será identificado será da variedade arábica tipo Novo Mundo, desenvolvido pelo próprio IAC e que representa mais de 70% do cultivo no Brasil. Segundo Colombo, o mapeamento deverá identificar pelo menos 30 mil genes. A iniciativa é elogiada por Eliana Relvas de Almeida, coordenadora do Centro de Cooperação do Café criado pelo Sindicato da Indústria de Cale do Estado de São Paulo (Sindicafé) para promover treinamentos na área de preparação da cultura. "Todo estudo que tenha como objetivo melhorar a qualidade da bebida é bem-vindo", afirma QUALIDADE Para ela, a indústria calceira brasileira está cada vez preocupada com o melhoramento da cultura. "O resultado tia pesquisa será observado na xícara, e quanto melhor a bebida, maior será o consumo", afirma. Estimativas do Sindicafé indicam que nos próximos dois anos o consumo no País deve subir de 12,8 milhões de sacas para 15 milhões. O cafeicultor Gabriel de Carvalho Dias, que produz o chamado "café gourmet" há oito anos nas fazendas Rainha e Cachoeira, em São Sebastião da Grama, afirma que qualidade é seu maior objetivo. "O mapeamento é importante e a pesquisa do IAC será de grande utilidade." Ele acredita que o setor deva investir também na cadeia de processamento. "Não se faz café de qualidade só com boas árvores". Para Dias, que prevê colher 13 mil sacas em 2002, estudos sobre técnicas de secagem e torrefação, por exemplo, também devem ser incentivados. D. PEDRO II CRIOU O IAC Criado em 1887 para pesquisar a cultura do café, o Instituto Agronômico de Campinas (IAC) tem hoje um dos mais respeitados projetos para o setor, o Programa de Melhoramento Cafeeiro. Calcula-se que dos 5,5 bilhões de pés de café plantados no País, 95% foram gerados a partir do projeto. "Os estudos são uma tradição do instituto, que sempre esteve na vanguarda das pesquisas cafeeiras", diz Carlos Augusto Colombo, coordenador do Genoma do Café. A Estação Agronômica de Campinas, primeiro nome do IAC, foi criada por D. Pedro II. O objetivo era estabelecer critérios técnicos e científicos para incentivar a cultura do café na região, introduzida em Campinas em 1807. Em 1932, o IAC elaborou um programa multidisciplinar de pesquisas. O trabalho foi responsável pelo estabelecimento de critérios técnicos para o cultivo racional e criou variedades mais produtivas. Atualmente, o instituto tem no currículo o desenvolvimento de dezenas de cultivares, como o Catuaí Amarelo e Catuaí Vermelho, Obatã e Tupi. Décadas antes da industrialização do País, o IAC já estudava a mecanização das lavouras cafeeiras. Foi lá que os pesquisadores traçaram as diretrizes para construção, teste e avaliação de pulverizadores de produtos químicos. Em 1979 foi lançada a primeira máquina colhedora de café. Nos anos 50, o IAC passou a estudar a influência do clima e métodos de defesa contra as geadas, que afetavam a produtividade dos cafezais. Hoje, o instituto tem arquivo de informações meteorológicas para monitoramento da cafeicultura.