Notícia

Agência C&T (MCTI)

O mapa do Bioma Pampa

Publicado em 05 janeiro 2008

Pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) lançaram o documento Mapeamento da cobertura vegetal do Bioma Pampa, após três anos de elaboração.

fonte: Agência FAPESP


O trabalho faz parte do Projeto de Conservação e Utilização Sustentável da Diversidade Biológica Brasileira (ProBio), iniciativa do Ministério do Meio Ambiente (MMA) que pretende mapear os remanescentes de vegetação natural de todos os biomas brasileiros. De acordo com Heindrich Hasenack, professor do Departamento de Ecologia da UFRGS, que coordena o Laboratório de Geoprocessamento, responsável pelo estudo, um dos principais objetivos do documento é dar ao MMA uma idéia mais clara do que ainda resta de cobertura natural do bioma, permitindo direcionar ações de preservação.

"Procuramos identificar áreas nas quais a vegetação original ainda está em estado de preservação razoável. Com o mapa em mãos, o ministério terá um instrumento objetivo para definir a implantação de novas áreas de conservação", disse Hasenack à Agência FAPESP. O Pampa, com 178 mil quilômetros quadrados - o que corresponde a 63% do território do Rio Grande do Sul -, já perdeu 59% de sua cobertura vegetal nativa. Segundo o professor, a crescente conversão para novos usos nas últimas décadas, com o avanço da fronteira agrícola, invasão de espécies exóticas e expansão das pastagens, ameaça o bioma.

"Os biomas de áreas abertas, como o Pampa e o Cerrado, sofrem bastante por serem desvalorizados. A tendência é que se valorizem mais as formações florestais e os campos sejam vistos como uma degradação da floresta. Mas temos áreas de campos naturais com grande biodiversidade", disse. O trabalho contou com a supervisão técnica do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e usou como fonte imagens feitas pelo satélite Landsat, resultando em um conjunto de 23 mapas articulados, que recobrem toda a metade sul do estado. De acordo com Hasenack, o sistema nacional de unidades de conservação prevê que as unidades cubram pelo menos 10% de cada bioma. Mas, segundo ele, não adianta preservar qualquer parte - essas áreas precisam ser representativas da grande heterogeneidade do bioma. "As unidades de conservação no Pampa se concentram nas áreas lagunares e de planície costeira - o Banhado do Taim e o Parque Nacional da Lagoa do Peixe. Nenhuma delas inclui o campo típico das fronteiras oeste e sul do estado", afirmou.


Mapa único dos biomas

O mapa é bastante abrangente e se presta a diversas outras aplicações além da definição de áreas de conservação. "O documento define onde estão as áreas de savana ou de estepe, por exemplo, e indica que tipo de atividade substituiu cada área onde não há mais cobertura vegetal original, como agricultura, silvicultura ou urbanização", disse Hasenack. Como o intuito do Probio é mapear toda a cobertura vegetal de seis biomas continentais brasileiros, os pesquisadores se reuniram com os grupos responsáveis por cada um deles para harmonizar agendas e metodologias. "O MMA estabeleceu um padrão mínimo comum que viabilizasse posteriormente um mapa único de todos os biomas", explicou.

Todos eles utilizaram imagens do Landsat de 2002, ano em que o MMA havia adquirido imagens de toda a Amazônia. A partir daí, os pesquisadores fizeram a intepretação dos dados de modo a reproduzir do ponto de vista da legenda um mapa que pudesse ser comparado com os que foram feitos na década de 1970. "Com isso, podemos comparar a vegetação mapeada nos dois períodos em cada bioma e apontar tendências. O intervalo, no entanto, é muito grande. O ideal será que, de agora em diante, tenhamos um mapeamento desses a cada dez anos, transformando a iniciativa em um monitoramento sistemático", indicou.

O monitoramente serviria, segundo Hasenack, para que empreendedores planejassem negócios. "Em geral, eles calculam a expansão dos empreendimentos exclusivamente a partir da área disponível. Mas a terra não é homogênea. Seria preciso considerar a área líquida utilizável, condicionada a limites ambientais", disse. Atualmente, as áreas menos representadas em unidades de conservação são as que apresentam melhor estado de preservação. "Esses municípios mantêm uma criação tradicional, extensiva, de gado. Por isso utilizam a pastagem nativa. Isso pode indicar um modelo de sustentabilidade para o Pampa, com investimento em um melhoramento do manejo nesses campos", afirmou Hasenack.