Notícia

Jornal da Unesp

O MAPA DA VIDA

Publicado em 01 agosto 1999

Por Oscar D'Ambrosio
Ao participar dos cinco projetos do Programa Genoma-Fapesp, a UNESP assegura seu lugar na elite da pesquisa genética mundial Há uma Onsa (assim mesmo, com "s") rondando a ciência do Estado de São Paulo. É ela, em última instância, que tem permitido o mapeamento genético do câncer humano, da cana-de-açúcar e dos agentes que causam o cancro cítrico e o amarelinho, pragas que atacam os laranjais paulistas. Essa Onsa, sigla em inglês de Organização para Seqüenciamento e Análise de Nucleotídeos, não só não mata, como pode salvar vidas e preservar a agricultura. Onsa é o Instituto Virtual de Genoma do Estado de São Paulo, que engloba os diversos projetos do Programa Genoma-Fapesp. "Temos dado seguidas demonstrações de critério e rigor na aplicação de recursos, e a comunidade científica paulista, com os grupos estabelecidos principalmente na UNESP, USP e Unicamp, vem respondendo à altura ao investimento realizado", diz Carlos Henrique de Brito Cruz, presidente do Conselho Superior da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, a Fapesp. A escolha da sigla Onsa expressa o respeito da ciência brasileira pela TIGR (tigre, em inglês, sem o "e"), instituição norte-americana referencial na área de pesquisa em genética molecular. "Em 1997, ao iniciarmos o seqüenciamento da bactéria Xylella fastidiosa, causadora da clorose variegada dos citros, conhecida como 'praga do amarelinho', que afeta gravemente os laranjais paulistas, só havia projetos semelhantes no circuito EUA - Europa - Japão. Hoje, o projeto da Xylella está quase no fim e temos mais quatro em andamento", informa Francisco Romeu Landi, diretor presidente do Conselho Técnico Administrativo da Fapesp. PATOGENICIDADE Até setembro próximo, o resultado final do seqüenciamento da Xylella será publicado na revista norte-americana Nature. "Além disso, estamos tentando, no Programa Genoma Funcional, encontrar os genes envolvidos com a patogenicidade da bactéria", informa a bioquímica Eliana Lemos, do Departamento de Tecnologia da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias (FCAV) da UNESP, câmpus de Jaboticabal, que participa tanto do Genoma da Xylella como do Funcional (veja quadro). Iniciado nos EUA, em 1990, o Programa Genoma, destinado ao mapeamento do código genético de todos os seres vivos, é a primeira etapa para o estudo de doenças e para a obtenção de medicamentos eficazes para combatê-las. Introduzido no Brasil para o estudo do amarelinho, o seqüenciamento genético da Xylella custou cerca de US$ 15 milhões e introduziu uma metodologia que revolucionou a pesquisa no País. "Não concentramos toda a verba em um local, mas identificamos laboratórios em várias partes do Estado, concedemos recursos e montamos uma rede virtual de pesquisa", diz Landi. Além de mapear o genoma da Xylella, o primeiro Genoma tinha como objetivo capacitar os laboratórios brasileiros a entrar nessa nova era da pesquisa genética. Até agora, laboratórios da UNESP foram escolhidos pela Fapesp para atuar em todos os projetos Genoma em andamento. "A participação de grupos da UNESP evidencia um aumento no reconhecimento, pela comunidade científica, da qualidade da pesquisa realizada pela nossa Universidade", diz o farmacêutico-bioquímico Sandro Roberto Valentini, do Departamento de Ciências Biológicas da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da UNESP, câmpus de Araraquara, que coordena um laboratório do Genoma Humano do Câncer. INICIATIVA BRASILEIRA O sucesso da pesquisa com o amarelinho estimulou a Fapesp a, em março último, iniciar o Programa Genoma Humano, possível graças a uma parceria com o Instituto Ludwig de Pesquisa sobre o Câncer, organização internacional sediada em Nova York, com filial em São Paulo. "Trata-se da primeira iniciativa brasileira de contribuir de forma significativa para o seqüenciamento do genoma humano", conta Valentini. O Genoma Humano do Câncer, que receberá um investimento de R$ 10 milhões nos próximos dois anos, tem como objetivo gerar entre 500 mil e 750 mil seqüências de genes a partir de material retirado dos tumores de maior incidência no Brasil, como os de cabeça e pescoço, gástricos e de colo de útero. "Trabalhamos com aberrações cromossômicas em tumores de pele, cabeça e pescoço, câncer ósseo, de tireóide e próstata, gerando dados para a elucidação dos mecanismos envolvidos no processo tumorigênico", diz a geneticista Eloíza Helena Tajara da Silva, do Departamento de Biologia do Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas (Ibilce) da UNESP, câmpus de São José do Rio Preto, coordenadora de um dos laboratórios de seqüenciamento do Projeto. Para a docente do Ibilce, uma vez terminado esse trabalho de seqüenciamento de genes, as informações obtidas no projeto poderão ser de grande valia no futuro para o tratamento, cura e prevenção desses tipos de câncer, representando uma contribuição inédita da ciência nacional na corrida global pelo mapeamento dos 3 bilhões de genes que formam o Homo sapiens sapiens. "O projeto pode ajudar na elucidação do genoma humano e a UNESP está participando desse processo", diz Eloíza. MAIS RAPIDEZ Para isso, os pesquisadores contam com uma nova tecnologia de seqüenciamento de genomas, desenvolvida no Brasil pelo grupo do pesquisador Andrew Simpson, do Instituto Ludwig, e batizada Orestes, do inglês Open Reading Frames ESTs (Expressed Sequence Tags). Essa tecnologia permite localizar com mais rapidez e eficiência as seqüências das regiões centrais dos genes, que detêm as principais informações. "Isso é extremamente importante, pois estaremos seqüenciando apenas a parte altamente informativa do genoma", diz Valentini, da FCF, de Araraquara. Em abril, teve início um novo projeto: o Genoma Cana-de-Açúcar, que, para conhecer melhor o vegetal, busca, inicialmente, entender por que ele é doce. Para isso, será necessário seqüenciar cerca de 50 mil genes, com a mesma tecnologia usada no Projeto Genoma Humano do Câncer, num investimento de cerca de US$ 8 milhões, que conta com o apoio da Cooperativa dos Produtores de Açúcar e Álcool do Estado de São Paulo (Copersucar). "A idéia é descobrir os genes responsáveis pelo metabolismo da sacarose, o açúcar da cana, e outros que levam a planta a ter resistência a doenças e a condições adversas de clima e solo", diz o biólogo Manoel Victor Franco Lemos, do Departamento de Biologia Aplicada à Agropecuária da FCAV, câmpus de Jaboticabal, coordenador de um laboratório de seqüenciamento do programa. O Projeto Genoma Cana está profundamente enraizado na economia nacional, já que o Brasil é o maior produtor mundial de cana-de-açúcar, sendo responsável por 25% da produção mundial, da qual 60% saem do Estado de São Paulo, cuja agroindústria de cana movimenta R$ 8 bilhões por ano e gera 600 mil empregos diretos. "Com a ajuda dos novos métodos de análise molecular, haverá um crescente interesse na aplicação prática das informações que este projeto de seqüenciamento irá gerar", afirma Manoel Victor. "Ser escolhido para participar desse Genoma significa a aquisição, com verba da Fapesp, de um seqüênciador de 170 mil dólares, que deixa nosso laboratório na ponta da pesquisa mundial", completa o farmacêutico-bioquímico Maurício Bacci Júnior, coordenador do laboratório selecionado do Centro de Estudos de Insetos Sociais, unidade auxiliar do Instituto de Biociência da UNESP, câmpus de Rio Claro. CONFIANÇA O mais recente programa da Fapesp, lançado em junho, tem como ponto de partida justamente as pesquisas com a Xylella. Trata-se do Genoma Xanthonomas, bactéria causadora do cancro cítrico, praga que, somente no ano passado, causou prejuízos da ordem de US$ 500 milhões no Estado de São Paulo. O Laboratório de Bioquímica e Biologia Molecular da FCAV da UNESP, câmpus de Jaboticabal, coordenado pelo docente Jesus Aparecido Ferro, foi escolhido pela Fapesp como um dos laboratórios centrais do projeto. "A escolha de grupos da UNESP para participar de um programa de tão alto nível evidencia a confiança da Fapesp nos nossos professores e laboratórios", avalia Eloíza Tajara da Silva, do Ibilce. Contando com US$ 5 milhões da Fapesp e mais US$ 500 mil do Fundo Paulista de Defesa da Citricultura (Fundecitrus), o projeto pode ajudar a desenvolver armas químicas de precisão contra o cancro cítrico. O Xanthonomas axonopodis pv citri tem cerca de 4 mil genes, que precisam ser lidos e postos na ordem certa, num prazo de dois anos. "Em todos esses programas, a UNESP se beneficia pela captação de recursos, com a conseqüente melhoria dos laboratórios envolvidos", constata Valentini, da FCF. Para Manoel Victor, da FCAV, a Fapesp está reconhecendo os esforços da UNESP na pesquisa científica. "Por isso, ao selecionar nossos laboratórios, ela também investe na melhoria da qualificação profissional de nossos professores, técnicos e alunos", avalia. Nesse sentido, a escolha de laboratórios da Universidade nos projetos Genoma é um reconhecimento ao investimento da UNESP na formação de melhores profissionais. "Mais importante que ter muitos laboratórios é constatar como o Programa Genoma permitiu a ascensão de novas lideranças na área da pesquisa molecular", conclui Landi, da Fapesp. A UNESP nos Genomas Os laboratórios selecionados pela Fapesp GENOMA DA XYLELLA FASTIDIOSA Laboratórios de Seqüenciamento: Antônio Carlos Maringoni/Eiko Eurya Kuramae-lzioka (FCA/Botucatu; Catalina Romero Lopes/Celso Luís Marino (IB/Botucatu); Eliana Lemos (FCAV/Jaboticabal); Jesus Aparecido Ferro (FCAV/Jaboticabal) GENOMA FUNCIONAL Eliana Lemos (FCAV/Jaboticabal) GENOMA HUMANO DO CÂNCER Laboratório de Bioinformática: Jesus Aparecido Ferro (FCAV/Jaboticabal) Laboratórios de Seqüenciamento: Eloíza Helena Tajara da Silva (Ibilce/São José do Rio Preto); Maria Inês de Moura Campos Pardini (FM/Botucatu); Sandro Roberto Valentini (FCF/Araraquara); e Sílvia Regina Rogatto (FM/Botucatu). GENOMA DA CANA-DE-AÇÚCAR Mineração de Dados: Eiko Eurya Kuramae-lzioka (FCA/Botucatu) Laboratórios de Seqüenciamento: Celso Luís Marino (IB/Botucatu); Eiko Eurya Kuramae-Izioka (FCA/Botucatu); Manoel Victor Franco Lemos (FCVA/Jaboticabal); Maria Inês Tiraboschi Ferro (FCAV/Jaboticabal) e Maurício Bacci Jr. (IB/Rio Claro). GENOMA XANTHONOMAS Laboratório Central: FCAV/Jaboticabal - Jesus Aparecido Ferro, Agda Paula Facincani, Antônio Nhani Jr., Haroldo Alves Pereira, Luiz Roberto Furlan, Maria Inês Tiraboschi Ferro e Thiago Claudino Gréggio (Departamento de Tecnologia); e Marcos Macari (Departamento de Morfologia e Fisiologia Animal)