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Pequenas Empresas & Grandes Negócios

O mapa da inovação

Publicado em 01 outubro 2010

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Em locais tão distantes um do outro, como Belém do Pará e São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, nasce - e cresce - um tipo raro de empreendedor. Nesses centros de geração de conhecimento e de mão de obra de qualidade, quem abre uma empresa não sonha com negócios comuns, mas sim com ideias que irão transformar a ciência, o campo e a tecnologia. Com a ajuda do Instituto Inovação, do Sebrae, do IBGE e de consultores, Pequenas Empresas Grandes Negócios fez um levantamento de 45 bolsões brasileiros da inovação. São cidades nas cinco regiões do Brasil, em que empresários têm melhores condições para criar e atrair recursos. Sim, porque vem crescendo o capital, público e privado, destinado a negócios de fronteira.

Se no passado a falta de recursos era um dos principais impeditivos para o Brasil entrar no mapa da inovação mundial, hoje o cenário é outro. Estamos longe do mundo ideal e bem melhor do que nas décadas passadas , afirma Eduardo Costa, diretor de inovação da Finep, agência de inovação do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT). Calculamos que 2% dos 5 milhões de empresas formais do país precisam inovar. Atendemos no máximo 3 mil de um universo de 100 mil , afirma.

Por ano, a Finep disponibiliza uma verba de R$ 4 bilhões para inovação - desses, R$ 2 bilhões para pesquisas em universidades, R$ 1,2 bilhão para crédito subsidiado, R$ 700 milhões para subvenção e R$ 100 milhões para capital de risco. A verba é multiplicada em parcerias firmadas com fundos de investimento e governos estaduais. A demanda é grande, daria para operar com pelo menos três vezes esse valor.

O MCT não é o único órgão que investe em inovação do país. As empresas brasileiras também podem recorrer aos programas do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), dos Bancos da Amazônia e do Nordeste, do Sebrae e de fundos de investimentos públicos e privados. De acordo com o Centro de Estudos em Private Equity e Venture Capital da FGV-Eaesp, os recursos só em venture capital somam no Brasil US$ 1,5 bilhão, o equivalente a R$ 2,7 bilhões. Com base em São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia e Santa Catarina, os fundos garimpam empreendimentos inovadores em todo o país, com aportes entre R$ 50 mil e R$ 500 mil por empresa.

Um dos poucos programas voltados especificamente para a micro e pequena empresa, o SebraeTec de Inovação Tecnológica, por exemplo, disponibilizou R$ 32 milhões para cerca de 20 mil micro e pequenos empreendedores investirem em inovação em 2010. A subvenção é de até 50% do projeto, em um teto de R$ 45 mil, porque nem toda inovação precisa de fortunas para ser implementada. Boa parte das empresas carece apenas de boa gestão , diz Edson Fermann, diretor de inovação do Sebrae. Pesquisa feita pelo Sebrae-SP sinaliza que 39% dos empreendedores precisariam de impostos menores para realizar inovações em seus produtos, enquanto 22% necessitariam de empréstimos bancários para desengavetar seus projetos. Todavia, apenas 20% das empresas ouvidas vão atrás de cursos e consultorias para se diferenciar.

Chega a sobrar dinheiro para investir em inovação em determinadas regiões do país, por falta de bons projetos, afirma Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). A questão é que grande parte das empresas não está preparada para inovar. Nem sequer sabe fazer um plano de negócios. Segundo Cruz, o que a maioria dos candidatos a investimentos encaminha aos órgãos de fomento é a especificação do produto e não o projeto de pesquisa que gerará algo inovador. Falta orientação para os empresários calcularem os riscos e mostrarem onde está a inovação. Só assim conseguirão ter acesso às verbas , afirma.

A análise é parecida fora dos centros públicos de pesquisa. Tem muita ideia boa que se perde em todo o país por falta de preparo empresarial , diz Frederico Greve, sócio da DGF Investimentos, responsável pelos fundos Fipac e Terra Viva, ambos voltados à inovação e com dinheiro em caixa para investir. Segundo Greve, mais da metade dos projetos analisados pelo fundo são encaminhados pelos próprios empreendedores. Mas a maioria dos aprovados é prospectada pela equipe da casa. Dos R$ 100 milhões disponíveis para o Fipac, foram investidos R$ 70 milhões em 14 empresas, todas do Sul e do Sudeste. Não investimos mais porque os projetos submetidos à seleção até agora não preencheram os pré-requisitos exigidos pelo fundo , afirma.

Especialistas são unânimes: o caminho para melhorar a distribuição da inovação no país está no preparo das empresas. É essencial investir em inovação. Mas ninguém coloca dinheiro em um negócio que não seja rentável, por mais revolucionário que seja , diz Greve, da DGF Investimentos.

Confira nas próximas páginas 10 negócios que crescem nos bolsões brasileiros de inovação.

> MECTRON

O que faz: o negócio de fabricação de produtos e serviços para as áreas de defesa e aeroespacial foi fundado há 20 anos por cinco engenheiros. Somos obrigados a desenvolver tecnologias internas, porque essas são áreas controladas pelos países que detêm a tecnologia , afirma o sócio Azhaury da Cunha, 53 anos. Não há pesquisa pura: 95% do portfólio tem origem na demanda do cliente

Fundação: 1991

Sede: São José dos Campos (SP)

Por que é inovadora: é a única empresa do Hemisfério Sul a fabricar mísseis inteligentes de quinta geração

Aportes: R$ 50 milhões de subsídios nos últimos cinco anos - R$ 15 milhões do fundo BNDESPAR, que desde 2007 é sócio no negócio

Funcionários: 300

Faturamento 2009: R$ 69 milhões

> ANGELUS

O que faz: desenvolvimento de soluções para o segmento clínico-odontológico

Fundação: 1994

Sede: Londrina (PR)

Por que é inovadora: tem oito patentes depositadas, foi pioneira no lançamento de pinos de fibra de vidro e de carbono para a área odontológica, e também no desenvolvimento de produtos para tratamento de perfurações de raízes para tratamento de canal dentário e na criação da primeira embalagem antimicrobiana do mercado mundial para produtos de odontologia. Recebeu o Prêmio Finep de Inovação 2009

Aportes: R$ 14 milhões nos últimos quatro anos, em boa parte verbas de subvenção da Finep

Funcionários: 47

Faturamento 2010 (projetado): R$ 12,5 milhões

> AMAZON DREAMS

O que faz: especializada em química fina, produz compostos concentrados extraídos de frutas e folhas da floresta amazônica usados pelas indústrias de alimentos funcionais, cosmética e farmacêutica

Fundação: 2002

Sede: Belém (PA)

Por que é inovadora: desenvolveu um processo de extração, purificação e fragmentação de extratos de frutas e folhas que garante um alto grau de pureza e concentração, acima de 75%. Até então o mercado trabalhava na casa dos 30%

Aportes: recebeu investimentos do Fundo Criatec da ordem de R$ 600 mil e até o fim deste ano contará com mais R$ 200 mil do CNPq

Funcionários: 450

Faturamento 2010 (projetado): R$ 1,5 milhão

> ASGA SOLUÇÕES EM TELECOM

O que faz: desenvolve sistemas de telecomunicação com transmissão por fibra óptica sob medida para operadoras de telefonia

Fundação: 1989

Sede: Paulínia (SP)

Por que é inovadora: a empresa foi pioneira no desenvolvimento do software biling . Trata-se de um programa que consegue gerar a listagem de todas as ligações feitas por usuários de telefonia celular. O programa foi adotado pela operadora Oi. Lança uma média de 20 novos produtos por ano

Aportes: contou com vários projetos de subvenção da Finep e participou do programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe)

Faturamento 2009: R$ 130 milhões

> CIANET

O que faz: a empresa oferece soluções de hardware e software para comunicação de dados de alta velocidade, equipamentos para convergência digital e telecomunicações, conversores para redes de internet e centrais telefônicas

Fundação: 1994

Sede: Florianópolis (SC)

Por que é inovadora: criou um equipamento que permite o uso de redes de internet externas (outdoor) com tráfego de 256 megabits por segundo por cabo coaxial, próprio para gerenciamento de grandes volumes de dados e conteúdo digital. Foi premiada mais de uma vez pela Finep como empresa inovadora e recebeu o prêmio Caspar Temer de Inovação 2010

Aportes: quatro subvenções da Finep no valor de R$ 3,5 milhões, além de investimentos do Fundo Criatec

Faturamento 2010 (projetado): R$ 15 milhões

> DESIDRATEC

O que faz: desidratação de produtos de origem vegetal, animal e mineral

Fundação: 2006

Sede: Fortaleza (CE)

Por que é inovadora: criou um processo único de evaporação a baixa temperatura, menos de 60° C, que mantém intactas as moléculas e preserva as características dos produtos desidratados. Foi premiada pela Anprotec como a empresa incubada mais inovadora em 2009

Aportes: dois projetos de subvenção da Finep no valor de R$ 1,2 milhão

Faturamento 2010 (projetado): R$ 1 milhão

> INVITRO CELLS

O que faz: realiza testes de toxicidade in vitro usando células e não animais para estudos de eficácia e segurança de produtos fármacos e cosméticos

Fundação: 2007

Sede: Belo Horizonte (MG)

Por que é inovadora: desenvolveu uma tecnologia capaz de identificar com precocidade o efeito tóxico de uma nova molécula

Aportes: R$ 1,3 milhão do fundo Criatec e R$ 10 mil do Sebraetec

Faturamento 2010 (projetado): R$ 700 mil

> MODCLIMA

O que faz: produz chuvas artificiais

Fundação: 2007

Sede: São Paulo (SP)

Por que é inovadora: desenvolveu uma tecnologia para produção de chuva artificial sem aglutinadores químicos, usando apenas água potável. Já fez chover mais de 500 vezes em Santa Catarina, Bahia, Maranhão e São Paulo

Aportes: R$ 120 mil de subvenção da Primeira Empresa Inovadora (Prime), da Finep

Faturamento 2010 (projetado): R$ 1,8 milhão

> ENALTA

O que faz: os softwares e hardwares criados e instalados pela Enalta em tratores, colheitadeiras, plantadeiras e equipamentos de irrigação ajudam usinas de álcool e açúcar a controlar melhor o processo de produção. Foi com a ajuda da Embrapa que o engenheiro Cléber Manzoni, 38 anos, transferiu seu negócio de Catanduva para São Carlos, ambas no interior de São Paulo. Acertamos a rota depois de patinar dois anos , afirma Manzoni. Até 2006 tínhamos apenas 15 clientes. Hoje passam de 70 e já exportamos para o Sudão e a Colômbia

Fundação: 1999

Sede: São Carlos (SP)

Por que é inovadora: o monitoramento realizado pela Enalta aumenta em até 50% a produtividade de máquinas na lavoura

Aportes: linhas de fomento da Finep, da Fapesp e do CNPq e aporte do fundo de capital semente Criatec

Funcionários: 47

Faturamento 2010 (projetado): R$ 4,6 milhões

> VÍQUA

O que faz: o funcionário da Tigre Daniel Alberto Cardoso colecionava ideias não utilizadas pela empresa. Até que resolveu abrir seu próprio negócio para aproveitá-las. Hoje, quem toca a Víqua é seu filho, Daniel Alberto Cardoso Júnior, 32 anos. Temos mais de cem lançamentos anualmente , diz. A empresa conta com um comitê para aprovar sugestões dos empregados e criou um banco de dados com um acervo de 300 novas ideias de produtos

Fundação: 1995

Sede: Joinville (SC)

Por que é inovadora: 90% dos produtos hidráulicos que já lançou foram novidades

Aportes: são investidos R$ 1,5 milhão por ano em projetos de inovação, com recursos próprios e com subvenção do BNDES

Funcionários: 450

Faturamento: não divulgado