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Globo Reporter

O maior primata das Américas vive na Mata Atlântica: é o muriqui

Publicado em 18 novembro 2011

As sementes que os muriquis descartam caem no solo e nascem novas árvores. Ele é essencial para a manutenção da floresta.

Dois mil e onze é o ano internacional das florestas, e a nossa Mata Atlântica guarda a maior biodiversidade do planeta: 500 anos depois de descoberta, ela ainda nos surpreende. Por isso, será nosso ponto de partida para uma grande expedição - científica e jornalística.

Brasil. Um país com nome de árvore e que nasceu sobre a imensidão verde. E abriga todas as cores.

Restam pouco mais de 7% da Mata Atlântica original. Mas esse número pode aumentar um pouco se levarmos em conta as pequenas ilhas verdes, invisíveis aos olhos dos satélites.

Nossa expedição começa na maior faixa contínua de Mata Atlântica preservada do país. Vamos atravessar os parques estaduais Carlos Botelho, Intervales e PETAR, em São Paulo.

O lugar onde hoje vive a imensa maioria do povo brasileiro já foi repleto de mata. O Globo Repórter está junto ao coração da Mata Atlântica, a parte mais preservada da floresta, que um dia foi do extremo Sul ao Nordeste. A imensa barreira verde, que já foi um desafio para os desbravadores, hoje é o abrigo dos modernos pesquisadores que lutam pela preservação. Porque se a Amazônia é o pulmão do mundo, a Mata Atlântica pode ser considerada o pulmão que garante a sobrevivência de mais de 140 milhões de brasileiros.

Somos todos povos da floresta. As maiores cidades brasileiras cresceram sobre ela.

“O pouco que restou da floresta ainda é o suficiente para prestar o fornecimento de água para essas regiões”, conta o biólogo Carlos Joly, coordenador do BIOTA/FAPESP. “A gente vai ter as nascentes do Tietê, do Iguape e do Paraíba. Todos esses rios que são importantíssimos para o fornecimento de água estão nascendo e são alimentados por riachos e pequenos córregos que se formam dentro do domínio atlântico.”

O rei do pedaço está nos galhos mais altos. O maior primata das Américas é brasileiro e vive na Mata Atlântica: é o muriqui.

“A maior população da espécie de muriquis do sul e a maior população de muriquis em geral é aqui que a gente encontra: a duas horas de São Paulo”, revela o biólogo Maurício Talebi, da Unifesp-Diadema.

Maurício acompanha há 22 anos os muriquis. É a vida dele. “Eu conheci esses macacos e fiquei absolutamente apaixonado por eles. Além de ser um animal muito cordial entre si, socialmente, é um animal muito pacífico.”

Há dez dias, a equipe de Maurício põe os macacos para dormir. Ou seja: eles seguem os animais durante o dia até eles escolherem uma árvore para passar a noite. A equipe do Globo Repórter, então, acorda bem cedo, antes de o sol nascer, para ter boas chances de encontrar com eles.

Depois de uma hora de caminhada, o dia começa a clarear. A trilha é deixada para trás e pela frente é só mata. Os primeiros muriquis começam a aparecer. Eles estão acordando. Parecem calmos.

Maurício explica que o muriqui funciona como um dispersor de sementes de grande tamanho. “Eles são vitais para manter a própria floresta viva.”

Ou seja, as sementes que os muriquis descartam caem no solo e nascem novas árvores. “A gente fica muito contente de proteger um bicho que está plantando floresta”, diz o biólogo.

Subimos e descemos encostas pela mata fechada, carregando nosso equipamento nas costas. Acompanhamos a trilha dos macacos, o que se revela ser uma tarefa complicada. “A gente está tendo dificuldade aqui por baixo porque eles estão tendo facilidade lá por cima”, observa o repórter André Luiz Azevedo. “É uma boa forma de pensar”, ri Maurício.

“A Mata Atlântica é, de certa forma, por área, mais biodiversa que a Amazônia. Os bichos vivem em uma espécie de banquete”, revela Maurício.

Maurício avisa que espera conseguir ver os muriquis recém-nascidos.

No final da manhã, um flagrante da vida selvagem: um filhote de muriqui aparece mamando. “É uma demonstração de que a população está saudável. Estão gerando novos descendentes, aparentemente muito saudáveis também”, comemora Maurício.

Foram oito horas de caminhada, mas valeu a pena. Maurício observa as imagens da macaca muriqui amamentando o seu filhote. “É como um bebê humano. É bem aquela coisa totalmente descoordenada ainda. Para mim, é uma vitória ver isso, porque ao longo de muitos anos nós encontrávamos fêmeas com filhote, elas olhavam para a gente e saíam em disparada.”

Isso é uma boa notícia, mas ao mesmo tempo é um alerta: significa que ela não está com medo do homem. “Isso aumenta ainda mais a nossa responsabilidade”, conclui Maurício.

Pesquisadores e mateiros, juntos, trabalham para garantir o ciclo da vida na Mata Atlântica.