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Diário Oficial do Estado de São Paulo

O lugar onde a neurociência fica ao alcance do público leigo

Publicado em 08 março 2018

Como ter uma mente mais equilibrada?” Desde o final de 2017, cartazes com essa pergunta têm despertado a atenção de quem passa pelas estações do Metrô. A ação integra campanha de lançamento do portal Cérebro e Saúde (www.cerebroesaude.com.br), braço de difusão científica do Instituto Brasileiro de Neurociência e Neurotecnologia (Brainn), sediado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e um dos 17 Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) apoiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Com o objetivo de mostrar como os avanços científicos podem colaborar para melhorar a qualidade de vida, o conteúdo do canal oferece ao leitor informações e curiosidades a respeito do funcionamento do cérebro. A linguagem é leve e os textos, de fácil entendimento. São dicas para aproveitar ao máximo a capacidade cerebral; descobertas no campo da inteligência artificial e da realidade virtual e suas aplicações no dia a dia, exercícios para afastar o estresse e manter a mente saudável, hábitos para fortalecer a memó­ria e o raciocínio, além de artigos sobre as últimas descobertas da ciência nessa área.

Desde 2013, o Cepid Brainn – responsável pela criação do portal – dedica-se a aliar a pesquisa básica à clínica aplicada e ao desenvolvimento tecnológico para tentar trazer conhecimentos sobre algumas patologias, sobretudo a epilepsia e o AVC, bem como suas associações. As investigações envolvem áreas de genética, neurobiologia, farmacologia, neuroimagem, ciências da computação, robótica, física e engenharia. O objetivo é desenvolver e aprimorar meios de diagnóstico, prevenção e tratamento desses males.

“A epilepsia, por exemplo, é uma doença neurológica grave e comum, infelizmente ainda permeada por muito preconceito. O AVC é a enfermidade que mais mata no mundo e, certamente, a doença cognitiva adquirida responsável pelo maior índice de incapacidade física e social”, informa o médico Li Li Min, coordenador de difusão do Cepid Brainn e professor do Departamento de Neurologia da Unicamp.

Interface amigável – O portal Cé­rebro e Saúde, de acordo com Li, nasceu da necessidade de se estabelecer um canal de comunicação mais estreito com a população, utilizando para isso uma interface “menos corporativa e mais amigável”.

“A difusão científica é uma via de mão dupla: na medida em que o pesquisador leva conhecimento até as pessoas, ele volta com novos questionamentos, para os quais parte em busca de novas respostas. É um círculo virtuoso”, destaca o professor.

A ideia de levar conceitos de neurociência ao público leigo tem funcionado, segundo os idealizadores, que comemoram bons números de acesso ao canal em poucos meses. Se a linguagem é para leigos, o mesmo não se pode afirmar sobre quem produz o conteúdo do site. Por trás de tudo o que é publicado está uma equipe composta por especialistas em ciências do cérebro: médicos, neurocirurgiões, cientistas, biólogos, além de engenheiros, físicos e cientistas da computação.

No portal do Cepid Brainn (www.brainn.org.br), no ar desde a formação do centro, é possível encontrar tudo o que é produzido, com textos e informações na íntegra, direcionados a pesquisadores da área. E no site Cérebro e Saúde as matérias são apuradas e escritas por uma equipe de profissionais egressos dos cursos de graduação em Jornalismo e de especialização em Divulgação Científica da própria Unicamp.

Nova fase – Em seu quinto ano de atuação, o centro de pesquisas projeta metas ambiciosas, como a criação da Universidade do Paciente, nos moldes do que já vem sendo desenvolvido em países como Estados Unidos, França e Espanha. O conceito, de acordo com o professor Li, consiste na criação de um ambiente de interação em que os pacientes de doenças neurológicas, seus familiares e médicos atuam juntos, cada um com sua visão a respeito da doença neurológica. Essa interação, de acordo com Li, além de permitir o surgimento de novos questionamentos, que, transformados em objetos de pesquisa, podem resultar em novas melhorias na qualidade de vida de quem sofre do mal. “Quando você não entende a sua enfermidade e não sabe sobre ela, pouco domínio você tem sobre a situação. Pacientes com maior domínio sobre suas doenças conseguem enfrentá-las de maneira mais positiva”, enfatiza.

A pauta inclui também um grande projeto em neuroeducação, criado a partir do estreitamento da já existente parceria com a Diretoria de Ensino Campinas – Leste. A ideia é preparar professores para a abordagem de crianças com epilepsia e outros transtornos neurológicos, como TDA e autismo, bem como na mediação da interação entre crianças com e sem os transtornos. “Trata-se de um projeto robusto, que extrapola o âmbito da difusão. Colocaremos em prática mecanismos de intervenção tecnoló­ gica na linha de neuromodulação, capacitação de professores e tratamento de alunos, incluindo atuação com os pais e a comunidade”, revela o professor Li.

Roseane Barreiros

Imprensa Oficial – Conteúdo Editorial

Pesquisa de alta complexidade

A atuação dos Cepids sustenta-se em três pilares: pesquisa de alta complexidade em temas específicos, difusão de informações para a sociedade, por meio de atividades de extensão, e contribuição com a inovação, por meio da transferência de conhecimento.

A Fapesp mantém 17 Cepids, sediados em universidades públicas e privadas do Estado. Dedicam-se à pesquisa sobre os mais variados temas, como alimentos e nutrição, biodiversidade e descoberta de novas drogas, matemáticas aplicadas à indústria, antioxidantes em biomedicina, terapia celular e estudos metropolitanos.

As propostas, segundo o coordenador do programa da Fapesp e professor do Instituto de Matemática e Estatística (IME- USP), Roberto Marcondes César Júnior, foram selecionadas num processo bastante competitivo, entre os mais de 150 projetos inscritos. “Esses centros de pesquisa dedicamse a desafios de grande relevância. Os temas são complexos, exigem equipes maiores e longos prazos para abordagem dos problemas, que normalmente não poderiam ser solucionados por apenas um especialista”, explica César Júnior.

Por essa razão, recebem financiamento da Fapesp durante 11 anos, período no qual passam por avaliações bianuais de um comitê internacional de especialistas, aptos a decidirem sobre a continuidade da pesquisa, com base nos resultados e planos propostos.