“Um pequeno passo para o homem; um salto gigantesco para a humanidade.” Assim Neil Armstrong anunciou ao mundo o início de sua histórica caminhada lunar, em 20 de julho de 1969.
Meio século depois, as pegadas deixadas por ele e Buzz Aldrin permanecem visíveis não apenas na superfície da Lua — que não tem vento para apagá-las — como no “DNA” de inúmeras tecnologias que utilizamos hoje no nosso dia a dia, de aspiradores de pó e tênis de corrida a telefones celulares e máquinas de ressonância magnética.
Ainda que os motivos que impulsionaram o esforço americano de chegar à Lua (antes dos soviéticos) na década de 1960 tenham sido majoritariamente geopolíticos — um desdobramento da Guerra Fria entre os Estados Unidos da América (EUA) e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), as “armas” que asseguraram essa conquista, na prática, foram as da ciência, da tecnologia e da engenharia, acopladas a uma impressionante capacidade de gestão, segurança orçamentária e articulação política por parte dos americanos.
Legado tecnológico
O presidente americano John F. Kennedy não estava exagerando quando disse, em seu discurso ao Congresso, em 1961, que nenhuma missão seria “tão difícil ou tão cara” quanto a que ele estava propondo naquele momento, de “pousar um homem na Lua e trazê-lo de volta à Terra em segurança”, até o final da década. E assim foi feito.
Em seus 12 anos de operação — do anúncio de Kennedy, em 1961, até o último pouso na Lua, em 1972 — o Programa Apollo consumiu mais de US$ 20 bilhões em recursos públicos (cerca de US$ 150 bilhões, em valores atuais), num esforço monumental envolvendo cerca de 400 mil profissionais e milhares de contratos e encomendas tecnológicas feitas a empresas e universidades americanas.
Praticamente tudo que foi usado nas viagens à Lua, da sola da bota dos astronautas aos computadores de bordo e sistemas de comunicação do Módulo Lunar, precisou ser inventado, miniaturizado, automatizado ou, no mínimo, melhorado de alguma forma antes de ser lançado ao espaço.
“A ciência americana deu um salto gigantesco”, diz o professor Glauco Arbix, coordenador do Observatório de Inovação e Competitividade do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA-USP). “É o tipo de pesquisa que gera frutos em todas as áreas do conhecimento.”
Não que o programa espacial americano estivesse começando do zero. Em 1961, os EUA já haviam lançado uma série de satélites e até um homem ao espaço (Alan Shepard), mas ainda estavam “perdendo de 7×1 para os soviéticos”, lembra Arbix; e o desafio de pousar uma nave na Lua (e trazer a tripulação de volta em segurança) era infinitamente maior do que “apenas” colocar um objeto no espaço.
“Com a tecnologia que existia na época, parecia um delírio”, lembra o engenheiro aeroespacial Danton Villas Boas, tecnologista senior do Instituto de Aeronáutica e Espaço do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (IAE/DCTA), da Força Aérea Brasileira.
Mas é justamente nesses momentos de desafios extremos que os grandes avanços tecnológicos acontecem, diz o astronauta, engenheiro, aviador e atual ministro de Ciência e Tecnologia brasileiro, Marcos Pontes — o único brasileiro que já foi ao espaço. “A inovação não surge porque a pessoa está se sentindo muito bem e teve uma ótima ideia. Ela surge principalmente quando você tem uma dificuldade que te obriga a usar a criatividade para sair dela”, afirma Pontes, em entrevista ao Jornal da USP. “Eles realmente tiveram que se virar.”
Importante lembrar que a computação era algo ainda primitivo na década de 1960 e a maioria dos cálculos, desenhos e projetos precisavam ser feitos à mão. Computadores do tamanho de uma geladeira tiveram de ser reprojetados para caber (e funcionar com extrema precisão) dentro de um painel de controle, o que exigiu avanços imensos na miniaturização e integração de circuitos eletrônicos, assim como no desenvolvimento de materiais semicondutores e outras tecnologias elementares que hoje estão embutidas (em versões muito mais modernas, é claro) em praticamente todo e qualquer aparelho eletrônico que utilizamos em nossas vidas.
“Os smartphones que as pessoas usam hoje não seriam possíveis sem a Apollo 11”, aponta Arbix, da USP. “Eles tiveram que integrar circuitos de maneira totalmente nova. Isso colocou a produção e design de semicondutores num outro patamar.”
Isso, sem falar nas tecnologias pioneiras de comunicação wireless, desenvolvidas para se comunicar com os astronautas e monitorar sua saúde no espaço. Ou nas técnicas de congelamento e desidratação (liofilização) de alimentos, que precisaram ser desenvolvidas para empacotar suas refeições, amplamente usadas hoje nas indústrias de fármacos e alimentos, aqui na Terra.
Nem nas técnicas de processamento de imagens digitais, desenvolvidas pelo Laboratório de Propulsão à Jato (JPL) da Nasa na década de 1960, para melhorar a qualidade das imagens da Lua, que contribuíram para o desenvolvimento de máquinas de ressonância magnética e tomografia computadorizada, usadas hoje nos hospitais do mundo todo para detectar tumores, fraturas e uma série de outros problemas, com benefícios imensos para a saúde humana.
Muito menos na enorme variedade de ferramentas e novos materiais, resistentes a temperaturas extremas, radiação cósmica e diversas outras características, que precisaram ser desenvolvidos para as missões espaciais e hoje estão presentes em equipamentos de bombeiros, roupas de ginástica, carros, aviões, navios, edifícios e outros produtos dos mais variados tipos.
A lista de contribuições tecnológicas é enorme. Tudo desenvolvido com o apoio de universidades e mais de 20 mil empresas privadas, contratadas pela Nasa ao longo do programa. Cada um dos módulos do foguete lançador (o gigantesco Saturno V) e dos veículos espaciais (Módulo de Comando, Módulo de Serviço e Módulo Lunar), por exemplo, foi projetado e construído por uma empresa diferente — usando peças, sistemas e serviços que também precisaram ser desenvolvidos por outras empresas, especialmente para o projeto.
Caminhada do Homem na Lua
Já em 1962, o presidente Kennedy destacava que o desafio lunar, mesmo em sua fase inicial, havia criado “um grande número de empresas e dezenas de milhares de novos empregos”. “O espaço e suas indústrias relacionadas estão gerando novas demandas de investimento e pessoal qualificado”, disse JFK, em setembro daquele ano, em seu famoso discurso no campo de futebol da Universidade Rice, em Houston, Texas.
Outras universidades tiveram papel decisivo no programa, como o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), responsável por desenvolver o sistema de navegação dos veículos espaciais, e o Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), responsável por abrigar e gerenciar o JPL da Nasa.
“Muitas pessoas criticam o valor que se gasta com os programas espaciais, mas esquecem que esse dinheiro todo é gasto aqui na Terra, gerando empregos e inovação tecnológica”, diz a astrônoma brasileira Rosaly Lopes, pesquisadora sênior do JPL.
“O crescimento da nossa ciência e educação será enriquecido pelo novo conhecimento do universo e do ambiente, pelas novas técnicas de aprendizado, mapeamento e observação; pelas novas ferramentas e computadores para a indústria, para a medicina, para as residências e as escolas”, discursou ainda Kennedy, em 1962.
Talvez o maior legado seja a própria conquista do espaço, indispensável para o desenvolvimento de todos sistemas mais modernos de telecomunicações, meteorologia, navegação, geolocalização (GPS) e monitoramento da superfície terrestre, entre outros serviços essenciais
“A grande contribuição foi ter lançado a base dos programas espaciais, que passaram a servir a sociedade de forma ampla”, diz o coordenador de gestão científica e tecnológica do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Petrônio Noronha de Souza. Basicamente, qualquer coisa que dependa de um satélite para funcionar deve um “obrigado” ao Programa Apollo.
“O impacto foi muito grande no mundo todo, não só nos Estados Unidos”, resume o físico Antonio José Roque da Silva, professor da USP e diretor geral do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas.
No fim das contas, o esforço para conquistar a Lua gerou “uma pequena revolução industrial”, semelhante à que aconteceu com as grandes navegações dos séculos 16 e 17, segundo o astrônomo Augusto Damineli, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP. “Foi, certamente, um dos grandes feitos da humanidade”, diz o professor, de 72 anos, um dos muitos da sua geração que foram inspirados pelo Programa Apollo a entrar para a ciência e investigar o universo (mais relatos abaixo).
Corrida Espacial
Rosaly Lopes tinha 12 anos quando o homem pisou na Lua. Naquela noite de 20 de julho de 1969, ela estava dentro de um ônibus na Argentina, voltando com a família de uma viagem à Patagônia. Não havia televisão, mas um dos passageiros ouvia a transmissão do pouso pelo rádio.
“Foi muito emocionante; difícil até de descrever”, recorda Rosaly. Quando o ônibus fez uma parada para o café, ela desceu, olhou para o céu noturno e decidiu que sua vida seria dedicada ao espaço. O sonho de infância era ser astronauta; mas, reconhecendo que as chances eram muito pequenas — “por ser menina, brasileira, e muito míope” —, acabou aceitando a sugestão da irmã, de estudar astronomia. “Eu mal sabia o que um astrônomo fazia, mas queria trabalhar na corrida espacial, queria conquistar a Lua.”
Carioca, Rosaly foi para a Universidade de Londres estudar astronomia e, mais tarde, ciências planetárias, com especialização em vulcanologia. Em 1989, entrou para o Laboratório de Propulsão à Jato (JPL) da Nasa, em Pasadena, na Califórnia, onde permanece até hoje, como pesquisadora sênior. É referência internacional no estudo de vulcões extraterrestres, principalmente nas luas Io (de Júpiter) e Titã (de Saturno), usando imagens coletadas por sondas espaciais. “Não fui ao espaço, mas acabei explorando o sistema solar por meio da robótica. Isso saciou um pouco meu espírito de aventureira”, brinca a cientista.
Além do seu legado tecnológico, mais pragmático, as missão Apollo deixaram pegadas na imaginação de muitos jovens e crianças que, como Rosaly, se inspiraram nas façanhas da corrida espacial para entrar para a ciência e as engenharias. Uma herança muito mais difícil — talvez impossível — de ser quantificada, mas igualmente importante.
“Nunca desejei ser astronauta, mas o sucesso da missão Apollo me arrancou do interior do Paraná e me fez aventurar por um mundo incerto e complexo da cidade de São Paulo à procura de uma faculdade de Física”, lembra o professor Augusto Daminelli, do IAG-USP. Ele tinha 22 anos quando Neil Armstrong e Buzz Aldrin puseram os pés na Lua. Vivia na roça e não tinha televisão, mas conseguiu assistir ao feito pela TV, com a família, na casa de amigos. “Foi uma inspiração.”
“Daí, seguindo caminhos imponderáveis acabei me tornando um astrofísico e olhando a Lua não mais como um grande e difícil objetivo, mas como um pequeno aglomerado de rochas girando em torno de um minúsculo planeta”, completa Daminelli, hoje um renomado especialista em evolução estelar e astrobiologia.
“Havia um ambiente naquela época que valorizava muito a ciência; era muito bacana”, lembra o físico Antonio José Roque da Silva, da USP. Ele tinha só 5 anos em 1969, mas se lembra de ver todo mundo em casa parado na frente da TV, vendo o homem chegar à Lua. O tema era recorrente na mídia, nos programas de televisão, nas revistas, nos gibis e nos brinquedos; permeava toda a cultura e o imaginário da época. “Lembro que se falava muito disso em casa. Foi algo que certamente influenciou uma geração.”
“A astronomia e a exploração do universo talvez sejam os temas que mais despertam o interesse pela ciência. Tem essa dimensão do fascínio pelo desconhecido, que é algo mais intangível, além da tecnologia”, diz o engenheiro Carlos Américo Pacheco, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e ex-reitor do Instituto de Tecnológico de Aeronáutica (ITA), em São José dos Campos.
“Lembro daquela imagem na TV e, depois disso, da quantidade de brinquedos que tinha conectados à Lua e a foguetes”, recorda o engenheiro Danton Villas Boas, tecnologista do IAE-DCTA, especialista em motores foguete de propulsão líquida. Ele tinha 7 anos em 1969. “Estou trabalhando nessa área, sem dúvida, por influência do pouso na Lua.”
Outro abduzido pela euforia espacial da época foi o atual ministro Marcos Pontes, então um garoto de 6 anos crescendo na periferia de Bauru, interior de São Paulo. Ele confessa que não se lembra muito do dia, mas conta que o irmão mais velho, Luiz Carlos — que escrevia cartas para a Nasa e colecionava fotos dos astronautas e das espaçonaves —, lhe explicou o que estava acontecendo. “Aí eu falei: então, tudo bem; se eles estão pousando na Lua, um dia eu vou ser astronauta e vou para lá também.”
Pontes cresceu, entrou para a Força Aérea, virou piloto de caça, graduou-se em engenharia aeronáutica pelo ITA, e em 1998, quase 30 anos depois do pouso da Apollo 11, foi selecionado para ser o primeiro astronauta brasileiro, treinado pela Nasa. A oportunidade estava atrelada a um acordo de participação do Brasil na construção da Estação Espacial Internacional (ISS), que acabou não se concretizando (as peças que cabiam ao Brasil construir nunca foram entregues). Ainda assim, Pontes concluiu seu treinamento no Johnson Space Center, em Houston, foi diplomado astronauta, e em 2005 se tornou o primeiro (e até hoje, único) brasileiro a ir ao espaço, de carona numa missão russa à ISS.
Se Pontes se inspirou nas missões Apollo para chegar ao espaço, seu próprio vôo também serviu para inspirar uma nova geração de — quem sabe — futuros astronautas e cientistas brasileiros. “O que mais me lembro é da chegada do Pontes à Estação Espacial; foi algo que realmente me marcou. Eu tinha 8 anos; assisti pela TV”, conta a jovem Maria Gisllanny Bezerra Silva, hoje com 21, estudante do quarto semestre de Física na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). “Aquele dia, resolvi que queria ser astronauta.”
No início deste ano, Maria foi uma de 24 jovens selecionados ao redor do mundo para receber o STEAM and Space Award, um prêmio de reconhecimento oferecido pela organização The Mars Generation (“Geração Marte”), criada pela jovem americana Abigail Harrison — outra aspirante a astronauta, com sonhos de pisar em Marte. Ela planeja se mudar ainda neste ano para os EUA, para estudar física e engenharia no Sweet Briar College, uma faculdade só para mulheres na Virgínia. E de lá, fazer decolar sua carreira de astronauta.
“Com certeza, me inspiro muito nessas jornadas do homem à Lua”, conta Maria, que é apaixonada pelo filme Apollo 13, de 1995. “Já assisti algumas centenas de vezes.”
Apollo 13 foi a única missão que fracassou em pousar na Lua (por causa de uma explosão em um dos tanques de oxigênio da nave), mas entrou para a história como um caso heróico de resgate espacial — muito bem retratado no filme. Um “fracasso de sucesso”, nas palavras da Nasa. Depois, vieram ainda a Apollo 14, 15, 16 e 17. Ao todo, foram seis pousos em sete tentativas, num período de três anos e meio. Nada mal para uma missão que parecia quase impossível.
“Continuo profundamente admirado do com o que eles fizeram”, diz o coordenador de gestão científica e tecnológica do INPE, Petrônio Noronha de Souza.
“Quase todas as outras grandes aventuras do homem podem ser repetidas com relativa facilidade, mas não essa. Foi muito difícil naquela época e continua sendo muito difícil, hoje.”
Os Estados Unidos têm como meta voltar à Lua em 2024, estabelecer uma base permanente lá, e usar essa experiência para planejar uma futura missão tripulada a Marte. Seu novo concorrente espacial, a China, também tem planos ambiciosos de enviar astronautas e construir uma base lunar nos próximos 10 anos. Já o Brasil, ainda sofre para reerguer seu Programa Espacial, 16 anos após o acidente com o Veículo Lançador de Satélite (VLS) na base de Alcântara, que deixou 21 mortos.
Saiba mais sobre essa nova corrida espacial entre China e Estados Unidos, e sobre as pretensões do Brasil no espaço, no Jornal da USP de segunda-feira, 22 de julho.