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O jogo da representação: Doria, vacina e a questão racial

Publicado em 27 janeiro 2021

Por Carolina Melo

O governador João Doria busca uma mudança em sua imagem

Recentemente, Monica Calazans – mulher negra e enfermeira – foi a primeira pessoa a receber a CoronaVac, desenvolvida pelo Instituto Butantan de São Paulo. Em meio à emoção de finalmente termos uma vacina e, ao mesmo tempo, uma mulher negra ser a primeira vacinada, algumas questões me chamaram atenção, e sobre elas irei discorrer ao longo desse artigo. Para isso usarei o conceito representação.

Vamos lá então: a cultura é o meio onde os significados são compartilhados, sendo o repositório-chave de valores e significados. A linguagem – palavras, sons, objetos, etc. – é o meio privilegiado pelo qual damos sentidos e onde o significado é produzido e intercambiado – os significados só podem ser intercambiados pelo acesso comum à linguagem. E a representação, propriamente dita, é principal aspecto dos processos culturais e prática de significado através da linguagem. Dessa maneira, compreender as representações é compreender a cultura e até a história de determinada população.

Dito isso, agora é necessário conhecer a família Costa Doria e o que ela já representou no Brasil: Fernão Vaz da Costa, filho da maior autoridade portuguesa de seu tempo (Cristóvão Costa), chegou ao Brasil em 1549, junto com Tomé de Sousa, primeiro governador-geral do país. Clemenza Doria chegou alguns anos depois e, depois de alguns casamentos, casou-se com Fernão. Durante o período colonial, alguns nomes desse clã se destacam: o mais famoso é Antônio de Sá Doria (1590-1663), vereador e juiz de Salvador e provavelmente o homem mais rico daquela época. Outro importante é Antônio Marcelino Costa Doria, tenente que teve inúmeros filhos ilegítimos de escravas negras, deixando-os na extrema pobreza depois de sua morte. A família era dona de inúmeros engenhos em Salvador, São Francisco do Conde, Sergipe e Itaparica. Inclusive, a avó de Doria, Maria Carolina Barbosa de Oliveira, era prima de Ruy Barbosa – ele ordenou que todos os registros da escravidão fossem queimados.

Na história mais recente, Antônio Moitinho Doria, foi um dos fundadores da OAB e seu pai, João Doria, foi conhecido por ser um excelente marqueteiro, sendo responsável inclusive pela criação do dia dos namorados no Brasil. A família Costa Doria é tradicional e que fez riqueza em cima, principalmente, da escravidão. Em 2016, por exemplo, Doria adulterou seu compromisso com a erradicação do trabalho escravo e, no ano seguinte, defendeu a posição dos ruralistas sobre a portaria do Ministério do Trabalho que flexibilizou as regras de fiscalização do trabalho escravo.

Pois bem, entre 2020 e 2021, o mundo, mas principalmente o Brasil se viu diante da maior crise de saúde dos últimos tempos e, para piorar, em meio à incompetência do presidente, aos cortes e desvalorização da ciência e da corrida presidencial que se oficializará em 2022. Diante desse caos, uma esperança: no dia 17 de janeiro de 2021, a primeira dose da vacina é aplicada em Monica, minutos após da aprovação pela Anvisa. A escolha de quem seria a primeira pessoa vacinada, no caso uma mulher negra, foi feita pelo próprio governador. Após “lágrimas de emoção” pelo seu próprio “ato heroico” o que fica? O jogo representacional. Isso tudo é uma tentativa de mudar os significados associados a ele.

A emoção consegue ressignificar o próprio histórico escravocrata da família.

Isso é importante pois, apesar do Brasil ser um dos países mais racistas do mundo, a questão racial tem cada vez mais força, principalmente nas mudanças políticas (só lembrar das eleições presidenciais e vitória de Biden nos EUA). Aliás, nada mais justo que uma mulher negra seja a primeira vacinada, já que elas estão na linha de frente do combate ao COVID-19 e, ao mesmo tempo, são as mais vulneráveis ao vírus. No dia seguinte, Doria tentou tirar os quilombolas da lista preferencial da vacina, mas ficou tão contraditório que ele voltou atrás. Além disso, é importante ressaltar que o governo tirou R$ 454 mi dos 1,5 bi previstos anteriormente para o Instituto Butantan, além do corte de 30% do orçamento da FAPESP. A população negra é a mais afetada com os cortes da ciência, principalmente da vacina.

Seu jogo representacional com a população negra, não corresponde com a realidade do estado de São Paulo: ele tentou aprovar uma ração humana como alimentação para escolas de São Paulo – sendo que a maioria dos frequentadores dessas escolas são jovens negros e, além disso, muitos têm acesso apenas à alimentação servida na escola; durante todo o seu governo, ele higienizou a cidade de São Paulo, com o intuito de tirar a população negra, pobre das regiões centrais; no final do ano de 2019, após mortes causadas truculência policial no baile funk em Paraisópolis, Doria teceu elogios e defendeu a corporação.

Nos mantenhamos atentos com quem brinca com a vida (e morte) da população negra!

Fontes: Cultura e Representação (2016) de Stuart Hall e O passado escravocrata da família Doria (2018) de Ale Santos