Notícia

Jornal da Ciência online

O jaleco branco de Florestan

Publicado em 20 julho 2020

Por Vivian Costa

Artigo de Ennio Candotti, diretor do Museu da Amazônia e presidente de honra da SBPC

Nos depoimentos que acompanharam o lançamento do livro ”Ciência para o Brasil, 70 anos da SBPC”, Fernando Henrique Cardoso lembrou do jaleco branco que Florestan Fernandes usava, quando professor na FFCL da USP Maria Antônia, símbolo da sua “aspiração que a sociologia se transformasse numa ciência empírica” como a física ou a biologia ( entrevista publicada em Ciência Hoje n 8*, 1983 reproduzida em Cientistas do Brasil, SBPC 1998 ). O físico Abrahão de Morais, professor de ‘mecânica racional’, Omar Catunda, professor de cálculo, Antônio Candido de Mello e Souza e, se bem lembro, Paulo Sawaya um dos fundadores da SBPC, também usavam o jaleco branco.

Durante os depoimentos que celebravam a história da SBPC, me ocorreram lembranças (recorrentes em tempos de confinamento prolongado) do ambiente da FFCL, onde estudei de manhã física e de noite filosofia, entre os anos 60 e 64 (em 64 o curso de física foi transferido para a Cidade Universitária).

De fato, devo confessar que foi lá que aprendi o valor dos direitos humanos, dos princípios de “fraternidade, igualdade e liberdade” e também da necessidade de associar o fazer ciência com o contexto político em que vivemos. A bússola e os princípios que me orientariam nos anos que presidi a SPBC.

Encontrei as origens do aprendizado destes princípios no perfil de Florestan, mencionado acima, um registro de Albertino Rodrigues que anos mais tarde, em 1989, participaria comigo da diretoria da SBPC.

“Toda atividade intelectual e política se voltava para determinados fins, fins estes que estavam ligados à possibilidade de uma revolução democrática na sociedade brasileira. Não seria possível fazer a ciência crescer numa sociedade tolhida, numa sociedade tradicionalista de horizonte fechado. Era preciso conquistar o espaço histórico para o desenvolvimento da ciência”, afirmava Florestan.

O quadro político nacional e internacional dos anos cinquenta e sessenta fervia: as antigas colônias na África lutavam pela independência e em toda parte as sociedades buscavam fortalecer a democracia e as nações a soberania.

A radicalização do confronto entre USA e URSS ameaçava deflagrar uma guerra nuclear. A paz mobilizava a opinião pública mundo afora. O relógio do Bulletin of Atomic Scientists sinalizava que faltavam poucos minutos para meia noite, hora em que ocorreria a hecatombe.

No quadro local, a criação da Petrobras, do BNDES, do CNPq e da Capes polarizavam as atenções em política de desenvolvimento e ciência e em educação discutia-se o valor do ensino público gratuito na Lei de Diretrizes e Bases então em elaboração.

É de 1948 a inclusão na Constituição de SP de um Artigo de autoria de Mario Schenberg, então deputado do partido comunista, como lembrou Fernando Henrique. Artigo que possibilitava a vinculação de recursos para apoio à ciência e a criação da Fapesp, que de fato foi criada quinze anos depois, em 1963. Eu fui um dos beneficiados com as primeiras bolsas para alunos de graduação, lembro que William Saad Hossne era o seu diretor científico.

Lembro também que no salão do terceiro andar da Maria Antônia, nós alunos tínhamos a oportunidade de assistir às concorridas conferências sobre história da arte da professora Gilda Mello e Souza ou do filósofo da matemática, Jules Vuillemin, dedicada ao pintor francês Jean Baptiste Camille Corot.

Assisti no salão nobre naqueles anos (em 1963 creio), Michel Foucault em uma conferência sobre “as palavras e as coisas”, um livro que publicaria naqueles anos.

No diretório dos estudantes de física, uma salinha ao lado do portão de entrada do prédio, onde hoje é a galeria de arte, eram organizados encontros com professores. Guardo ainda o registro mimeografado de uma conferência de Mario Schenberg.

O Instituto de física ocupava uma sala no 4º andar onde hoje é a sala da presidência da SBPC. O elevador que levava ao 4º andar era o mesmo que hoje encontramos lá, com a mesma porta pantográfica.

Lembro também que em 1963 e 64 o professor de mecânica racional da UFRJ, Plinio Sussekind Rocha, da UFRJ (que, quando estava em São Paulo, vivia na casa do Cesar Lattes) lecionou para os físicos história e filosofia da ciência. O curso era dedicado à discussão do conceito de tempo na física e na filosofia.

Ele era também critico de cinema e havia trazido para São Paulo as ‘pizzas’ do filme de Mario Peixoto, “Limite”, que ainda em celulose se encontrava bastante danificado. Ele o havia trazido do Rio para reparos em um laboratório especializado em São Paulo, e eu com meu fusquinha, levava e trazia Plinio e Limite, do laboratório. Conheci naquela época o Saulo Pereira de Mello, que completou a recuperação. Saulo faleceu recentemente vítima do coronavírus. Aprendi com ele a arte da restauração de filmes de celulose. Arte que hoje esqueci.

O significado e a influência destes anos de Maria Antônia os percebi somente anos depois, durante meus estágios na Itália entre 65 e 74. Curiosamente o Instituto de Física de Pisa, quando cheguei em fins de 1965, tinha grande prestígio científico, mas o clima que se respirava era alheio ao quadro político italiano (despertou anos depois com os movimentos estudantis e operários de 68 e as manifestações pro Vietnam).

O Instituto não parecia estar preocupado com a missão de “conquistar o espaço histórico para o desenvolvimento da ciência.” Galileu já o havia conquistado.

Voltando da Europa em início de 1974 para o Instituto de Física da UFRJ, me associei à SBPC e passei a militar na Secretaria Regional do Rio de Janeiro, liderada então por Roberto Lent, a quem sucedi na secretaria em ‘77. Naqueles anos, a questão do Acordo Nuclear com a Alemanha polarizava as discussões dentro e fora da SBPC e da Sociedade Brasileira de Física.

Participamos com a Regional do Rio dos preparativos da histórica Reunião de 77.

Lembro que Oscar Sala, então presidente da SBPC, era contrário à realização da Reunião, preferia evitar atritos com o General Ernesto Geisel, presidente ditador, que havia proibido sua realização em Fortaleza.

Mauricio Rocha e Silva, prestigioso sócio fundador, apoiado por uma ativa e independente comissão de sócios, resistiu a essa fuga e insistiu em realizar a Reunião. Convenceu Dom Evaristo Arns a ceder os auditórios e salas da PUC. Finda a Reunião, Mauricio agradeceu e lembro que, em nome da ciência, perdoou o Vaticano pelas perseguições a Galileu de 1637.

Dom Evaristo, arcebispo de SP e decano da PUC, agradeceu e selou com a ciência e a SBPC, duradoura paz. O Vaticano de fato reabilitou anos depois Galileu (creio que Carlos Chagas membro da Pontifícia Academia colaborou) e se desculpou publicamente por tê-lo condenado a abjurar as teorias que ele defendia: A Terra (que não é plana) gira ao redor do Sol. Ela não ocupa o centro do Universo. Conta a história que após o abjuro ele teria exclamado: “eppur si muove”, o mote daquela Reunião Anual.

Dois anos depois, em 1979 novas eleições na SBPC e os candidatos à presidência eram José Reis e Alberto Carvalho da Silva, apoiado pela Regional do Rio.

Venceu José Reis, que por razões de saúde preferiu não assumir. Entre dar posse ao segundo colocado, dar a presidência ao vice de Reis, Jose Goldemberg, ou convocar novas eleições, Sala preferiu dar posse ao físico da USP.

Em 1985 Alberto Carvalho da Silva assumiria a presidência do Fórum das Sociedades Científicas e entre 1990 e 91 seria, junto com Flavio Fava de Moraes e Moises Nussenzveig, um dos principais animadores e conferencistas viajantes do movimento promovido pela SBPC em favor da criação das Fundações de Apoio à Pesquisa nos estados do País.

Entre 1990 e 91, a batalha pela conquista do “espaço histórico para o desenvolvimento da ciência” havia ganho novas forças, as regionais da SBPC e os sócios, leitores de Ciência Hoje e do Jornal da Ciência Hoje, estavam mobilizados em 23 dos 25 estados.

Florestan Fernandes, Fernando Henrique Cardoso, Otavio Elísio Alves Brito, Severo Gomes e Ulisses Guimarães haviam conseguido convencer deputados e senadores que a Constituição de 1988 deveria incluir um Artigo dedicado à ciência e tecnologia e, em particular, à ciência básica: o Artigo 218, que determina:

“O Estado promoverá o desenvolvimento científico, a pesquisa e a capacitação tecnológicas”

Paragrafo. 1. A pesquisa cientifica básica receberá tratamento prioritário do Estado tendo em vista o bem público e o progresso das ciências.

Paragrafo. 5. É facultado aos Estados e ao Distrito Federal vincular parcela de sua receita orçamentaria a entidades públicas de fomento ao ensino e à pesquisa científica e tecnológica.

As Fundações de Amparo à Pesquisa, as FAPs, foram criadas em 23 estados.

O jaleco havia se tornado história.

Passados trinta e dois anos, a batalha em defesa e efetivo cumprimento dos princípios e determinações da Constituição de 1988 ainda não terminou.

O espaço histórico para o desenvolvimento da ciência não está consolidado e a democracia também não.

Hoje voltamos às barricadas, com a bússola e o compasso que a SBPC guarda em sua Memória.

(Foto: )