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O Sul

O isolamento social muda o comportamento alimentar de brasileiras

Publicado em 23 novembro 2020

Por Da Redação

O isolamento social muda o comportamento alimentar de brasileiras. Reprodução s medidas de isolamento social adotadas para conter a covid-19 modificaram o comportamento alimentar das mulheres brasileiras independentemente de seu peso ou estado nutricional, revela pesquisa online feita entre os meses de junho e setembro, com 1.183 participantes. De modo geral, tornaram se mais comuns os hábitos de cozinhar (+%), sentar-se à mesa para comer (+40%), beliscar entre as refeições (24%) e pedir alimentos por delivery (14%). Em contrapartida, caiu o número de adeptas das compras em supermercado (34%) e das dietas para controle ou redução do peso (-%).

As voluntárias com índice de massa corporal (IMC) considerado normal (eutróficas) apontaram preocupações com “ saúde ”, “ origem natural ” e “ conforto afetivo ” como os principais fatores que influenciaram a seleção dos alimentos consumidos durante a quarentena. Já as mulheres com sobrepeso mencionaram “ prazer e “ conveniência ”, além de “ saúde ” e “ origem natural ”. Entre as obesas, “ apelo visual ” e “ prazer ” foram os dois principais determinantes da escolha alimentar. Os dados completos do estudo, que contou com apoio da Fapesp, estão disponíveis em artigo publicado na plataforma medRxiv, ainda sem revisão por pares. Permanência de motivadores “ A pesquisa revela que o confinamento alterou o comportamento de todas as participantes, independentemente do estado nutricional. Mas vale ressaltar que os motivadores da escolha alimentar entre as mulheres obesas e as eutróficas já eram diferentes antes da pandemia e isso permaneceu.

O chamado “ comer emocional'' aparece de forma mais marcante entre as voluntárias obesas ou com sobrepeso- algo que deve ser levado em conta ao pensarmos em políticas públicas para o novo normal da mulher brasileira ”, diz Bruno Gualano, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo () e coautor do estudo, liderado por Carolina Nicoletti Ferreira, também da FMUSP De acordo com o pesquisador, o trabalho foi centrado nas mulheres por serem elas as principais responsáveis por definir o cardápio familiar no Brasil. Além disso, segundo Gual ano, dados da literatura científica sugerem que o sexo feminino é mais propenso ao “ comer emocional ” do que o masculino, e também a vivenciar sentimentos de ansiedade, depressão e solidão em um contexto de isolamento, como o gerado pela pandemia.

Participaram da pesquisa voluntárias entre 18 e 72 anos (com mediana em torno de 34 anos) de diversas regiões do país, sendo a maioria branca (77,8%), solteira (55,5%) e com alta escolaridade (72,4%) — características que correspondem à população de classe média e média alta que teve mais condições de permanecer confinada nos meses em que o estudo foi realizado. Em relação ao IMC das participantes, 13,4% se declararam obesas, 26,2% afirmaram estar com sobrepeso e 60,4%, eutróficas. Mudanças ainda mais prejudiciais “ A principal ressalva que faço ao estudo é ao fato de não termos conseguido acessar a população mais vulnerável e periférica, apesar de termos feito um grande esforço nesse sentido. Mulheres negras, pobres e de menor escolaridade estão pouco representadas em nossa amostra e é bem provável que, para elas, as mudanças alimentares causadas pela pandemia tenham sido ainda mais prejudiciais e motivadas principalmente pelo preço dos alimentos ”, comenta Gualano.

O questionário foi divulgado com o auxílio de colaboradores do meio acadêmico, líderes comunitários, redes sociais, serviços de saúde e veículos de comunicação e de divulgação científica. Para participar era preciso apenas ter mais de 18 anos e responder a um questionário disponível on-line. Porto Alegre. Segunda, 23 de Novembro de 2020. 57 demia. O acesso limitado à internet e eventuais dificuldades de leitura e escrita podem ter contribuído para diminuir a adesão de mulheres com menor escolaridade, na avaliação de Gual ano.

Estado de espírito x estado nutricional Após analisarem as respostas das participantes por métodos estatísticos, os pesquisadores observaram uma forte correlação entre hábitos nutricionais considerados não salutares — como comer assistindo à televisão, substituir refeições por lanches ou beliscar entre as refeições- e sentimentos de depressão, ansiedade, estresse e solidão. Um dado que chamou a atenção dos pesquisadores foi a queda de 41% na prática de dietas. A explicação otimista, segundo Gual ano, é que as mulheres sabiamente teriam abandonado cardápios mais restritivos por serem estes um fator gerador de estresse. “ Mas isso também pode ser um sinal de desleixo com a saúde.

Há estudos mostrando que, durante a quarentena, as mulheres estão passando mais tempo sentadas e praticando menos exercícios físicos vigorosos. Além disso, aumentou o consumo de bebidas alcoólicas, de produtos ultraprocessados e de cigarro. Há uma sensação de que tudo é permitido já que estamos na pandemia. O problema é que essa situação Número de adeptas de dietas no Brasil teve redução durante a pan tem se prolongado e o teletrabalho parece ter vindo para ficar. As empresas já estão se adaptando e grande parte dessas mulheres vai continuar em casa. Por esse motivo, há risco de que esses hábitos temporários tornem-se permanentes ”, avalia.

Pressão arterial alta

A maioria dos pacientes avaliados apresentava aumento na pressão arterial. Do total, 25% tinham inflamação sistêmica e 20% não estavam seguindo as recomendações médicas para ingestão de suplementos vitamínicos e minerais. Além disso, um terço estava com sintomas depressivos e 40% apresentaram algum grau de ansiedade. Três pacientes relataram pensamentos suicidas e foram encaminhados para atendimento com especialista. Cerca de 60% dos avaliados não atingiram a quantidade mínima de atividade física recomendada. Os mais inativos foram os que apresentaram pior saúde física e mental. Esses indivíduos foram submetidos a um programa remoto de exercícios ao longo de três meses. Os resultados dessa intervenção estão sendo analisados neste momento pelo grupo de pesquisa.