Notícia

Gazeta Mercantil

O investimento externo em P&D

Publicado em 18 dezembro 2006

O professor Carlos Henrique Brito Cruz, diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), em artigo publicado na sexta-feira neste jornal, alertou que no final de 2004 o Brasil era o sexto classificado na preferência de executivos ouvidos para receber atividades de pesquisa e desenvolvimento (P&D), depois da China, EUA, Índia, Reino Unido e Alemanha. Este resultado, como avaliou o artigo, representava uma "oportunidade à qual as políticas nacionais para P&D têm dado pouca atenção". Este ranking integrou relatório da Economist Intelligence Unit, que analisou a tendência de multinacionais descentralizarem esforços de pesquisa.
O ex-reitor da Unicamp mostrou o potencial destes aportes. Só os investimentos em P&D feitos por multinacionais americanas fora dos EUA atingiram US$ 21 bilhões em 2002. Mas apenas US$ 300 milhões foram destinados ao Brasil. Este valor representou, nos cálculos de Brito Cruz, cerca de 20% do investimento empresarial em P&D no Brasil naquele ano. Este é o ponto relevante: o País tem condições de absorver parcela maior destes investimentos? Atividades pioneiras bem-sucedidas existem (como as da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial), mas não compõem uma política orgânica de P&D.
Em outubro, pesquisa dos professores Nelson Barrizzelli, da Universidade de São Paulo, e Rubens da Costa Santos, da Fundação Getulio Vargas (FGV), mostrou que cinco dos mais importantes setores econômico do País (agronegócio, têxtil, saúde, eletroeletrônico e automobilístico) perdem anualmente R$ 45 bilhões por inefi-ciência em cadeias produtivas, provocada pela baixa integração de sistemas internos e junto a fornecedores e clientes. As perdas na cadeia crescem pela perda de avanços tecnológicos, principalmente os derivados da integração entre softwares de integração e sistemas de produção internos. Apenas neste gap a indústria de alimentos deixou de avançar, segundo este levantamento, R$ 5,5 bilhões em faturamento no ano passado. Esta pesquisa está no site www.lucratividadeinovação.com.br.
Política de P&D com capacidade de absorver investimentos externos, que poderiam abrandar este tipo de gap tecnológico, implica também abrir um processo contínuo de espaço para cooperação. Por exemplo, as práticas de compensação comercial, industrial e tecnológica, o chamado offset, já adotado por muitos países. O offset é instrumento capaz tanto de criar alternativas para maior integração internacional como de buscar fortalecimento tecnológico e desenvolvimento industrial. No Brasil, interesse no tema existe no Itamaraty, nas Forças Armadas e em algumas empresas de atuação internacional, em especial a Petrobras e a Embraer.
A prática de offset nasceu em Bretton Woods, junto com o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, e previa que determinadas aquisições de fornecedores estrangeiros deveriam ser compensadas por diversos meios, em benefício de setores e áreas definidas pelo importador. Desde 1954 os EUA trocam produtos agrícolas por minerais estratégicos com esta prática. Inglaterra e Austrália, para citar um exemplo, definiram em lei a obrigatoriedade de órgãos governamentais praticarem o offset, principalmente nas negociações de equipamentos de defesa. A evolução da indústria aeroespacial européia é outro exemplo da eficiência dessa prática.
Em todas as economias industrializadas a prática de offset é ferramenta de política industrial e tecnológica. No Brasil, porém, a prática ainda enfrenta muita resistência provavelmente movida por desconhecimento de seu potencial e possibilidades.
A "oportunidade" oferecida pela intenção de descentralizar investimentos em P&D das multinacionais precisa ser melhor aproveitada pelo Brasil. Inclusive usando mais e melhor a prática do offset. Em um País em que o contingenciamento das verbas orçamentárias oriundas das receitas dos fundos de pesquisa foi de 57% em 2004, e estima-se que será de 39% neste ano, é erro grave desperdiçar-se qualquer oportunidade de investimento em pesquisa e desenvolvimento.

Kicker: Uso da compensação comercial, o chamado offset, poderia atenuar graves deficiências tecnológicas em muitas cadeias produtivas