Notícia

Brasileiros

O inventor de cidades

Publicado em 01 maio 2013

Por Gonçalo Junior

As lembranças mais antigas que o imigrante italiano Jorge Wilheim guarda do Brasil não é visual, mas olfativa. Tinha 12 anos, em 1940, quando descobriu o prazer de comer mamão e o jamais esqueceria os muitos "ajantarados" de domingo da pensão - mexido feito com sobras do almoço e do dia anterior. A família Wilheim chegava ao País, depois de passar um ano em Buenos Aires. Por ser judia, fugiu da Itália em fevereiro de 1939, seis meses depois que o regime fascista do ditador Benito Mussolin i baixou uma lei racial, que oficializava a perseguição aos judeus. "Antes de decidir, papai procurou o lugar mais longínquo do mapa mundi. Concluiu pela Austrália ou Argentina." Conseguiu os vistos com a cúria de Trieste, que deu atestado de católico para todos. Uma dívida de gratidão que Jorge faz questão de se lembrar. Em Buenos Aires, o pai não conseguiu trabalho e resolveu migrar para o Brasil. Parte dos Wilheim, na verdade, já estava em São Paulo, onde montou a fábrica de eletrodomést icos Arno.

O pai foi vender máquinas de café expresso. Tempos duros, com todos amontoados numa pensão. Até permitir que alugasse uma casa. Foi amor instantâneo entre Jorge e São Paulo. No primeiro momento, o adolescente viu-se maravilhado, principalmente porque ali realizou o sonho de ter uma casa com cachorro, o que aconteceu na primeira residência, alugada na Alameda Franco - depois, morou na Jaú e na José Maria Lisboa. "Quando disseram que viríamos para cá, já estava me adaptando a Buenos Aires. Tive de começar tudo de novo." A primeira vez que andou de bonde foi no Brasil. Isso aconteceu no primeiro dia na capital paulista. "Uma beleza aquela engenhoca, era todo aberto, pegamos no Jardim Paulista e descemos a Pamplona." A molecada pobre e descalça, levava ao menos um pé do sapato, que um emprestava ao outro -a condição para viajar sobre os trilhos era que pelo menos um pé estivesse coberto. Os bons tempos foram na Jaú, entre Hadock Lobo e Bela Cintra. A casa era tão grande que, décadas depois foram erguidos dois prédios na área. Nesse recomeço, pelo terceiro ano seguido, Jorge fez de novo o último ano da 1ª série, no Colégio Rio Branco, que ficava na Dr. Vila Nova, Vila Buarque.

Não podia imaginar, claro, até onde esse amor o levaria, como arquiteto e urbanista duas décadas depois.  Menos ainda que deixaria sua marca por toda cidade, como um dos principais urbanistas brasileiros, atuando também como administrador público e escritor. Vieram de sua imaginação as sedes do Hospital Albert Einstein, da Fundação de Apoio e Amparo à Pesquisa (FAPESP), Clube Hebraica, SESI Vila Mariana, Indústria Gessy Lever e Coti, prédio do Jockey Clube de São Paulo e a hoje cult Galeria Ouro Fino. Jorge foi responsável também pelo Parque Anhembi e pela reurbanização do Pátio do Colégio e do Vale do Anhangabaú, Avenida Sumaré, Nova Augusta e a cidade portuguesa de Costabela. Além de São Paulo, fez o plano diretor de importantes cidades brasileiras -Curitiba, Joinville, Natal, Campinas. Sem esquecer que, em 1957, participou da elaboração do Plano Piloto de Brasília, com Lúcio Costa e Oscar Niemeyer.

A memória de quem pensa soluções como urbanista o faz recordar que viu serem erguidos os dois primeiros prédios da Paulista, nas esquinas da Brigadeiro Luis Antonio e Bela Cintra, por Abelardo de Souza, no fim dos anos de 1940.  O Conjunto Nacional, recorda-se, era ocupado antes pela mansão do mercador Horácio Sabino. Mas se observava tudo ao seu redor, não foi a arquitetura seu primeiro interesse. No começo, sua paixão era escrever. Fez o primeiro jornalzinho de escola, aos 12 anos, La Gravata, que teve só um número e cinco exemplares. O segundo, em francês, chamava-se Gerard, e teve 50 cópias mimeografadas.  Em suas páginas, publicava poesias e ensaios sobre música de sua autoria. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, o adido cultural francês resolveu transformá-lo em revista, a Paralelas, que teve sete números. Jorge também traduziu, pela primeira vez no Brasil, os diários de Kafka. Na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo d a Universidade Presbiteriana Mackenzie, onde estudou, fez a revista Pilotis, numa referência à coluna descoberta, sem ser escondida numa parede, em oposição ao neoclassicismo, numa postura de rebeldia e modernidade. Seu grupo criou o diretório acadêmico e Jorge se aproximou do Partido Comunista Brasileiro. A pedido de Pietro Maria Bardi, então diretor do Museu de Arte de São Paulo, deu cursos de história da arte, além da música. Entre seus alunos, Fernando Henrique Cardoso, Ruth Cardoso, Thomaz Farkas e Rubens Paiva-deputado depois assassinado pela ditadura militar.

Como não havia cursos de Jornalismo e Cinema, duas de suas obsessões, ele escolheu Arquitetura. Pesou a pressão dos pais, que queriam para seu futuro uma carreira sólida. Jorge criou gosto e voltou seu olhar para as formas e a busca de soluções práticas. No último ano da faculdade, em 1952, um gesto ousado mudou sua vida. Com 24 anos, inscreveu-se em um concurso para construção da Santa Casa de Jaú. Ganhou a disputa. O dinheiro que ganhou lhe permitiu abrir seu escritório em 1953 -uma saleta de 2,6 m x 5,80 m na rua Marconi, em frente à Casa Vogue e vizinho à Livraria Jaraguá, centro de São Paulo. "Coisas de Brasil entregarem a construção de um hospital a um estagiário", brinca ele. "Mas sou sério, acho que sentiram isso e deu certo, fiz u m bom hospital, com o berçário próximo das mães, para que elas pudessem acompanhá-los." Gostaram tanto que construiu mais dois hospitais, em São Bernardo e em Campo Grande, Mato Grosso. No último, o contratante fez uma proposta quase insana: construir do zero entre Campo Grande e Dourados uma cidade para 15 mil pessoas, com a finalidade de ocupar e desenvolver a região.

Jorge aceitou. Ele, então, falava fluentemente sete línguas, o que permitia leituras do que havia de mais moderno em arquitetura e urbanização no mundo. Era o 1954 e, naquele fim de mundo, nasceu Angélica. A empreitada despertou nele a consciência ecológica. Tanto que gerenciou a obra de modo que grandes árvores não fossem derrubadas, mas incorporadas à paisagem. E preservou na área central dois quarteirões com vegetação nativa. Suas superquadras - com estrutura comercial independente – lembrariam as que fez Lúcio Costa em Brasília anos de pois. Essa preocupação o credenciou, na década de 1970, a elaborar o primeiro estudo de impacto ambiental no Brasil, para a Alcoa, em São Luiz, Maranhão. A empresa tinha tido uma experiência traumática na Austrália com lama tóxica para lava r minério. Outro problema era a fumaça, não tóxica, que cobriria a cidade. O projeto foi aplicado com êxito. Por isso, em 1972, participou das reuniões preparatórias da Conferência de Estocolmo, na Suécia, considerada a primeira atitude mundial de se tentar organiza r as relações de Homem e Meio Ambiente. Voltaria a fazer o mesmo na Rio-92.

Mapa da mina

Uma mudança de rumo em sua vida profissional veio com a aproximação do poder público, em 1968, quando o governador Paulo Egídio Martins o contratou como consultor para elaborar um estudo que identificasse os problemas urgentes do Estado e apontasse soluções. "Juntei pessoas conhecidas e disse que faríamos em duas semanas o que normalmente precisaríamos de dois anos. Era preciso descobrir a ponta do iceberg dos problemas crônicos do Estado, analisar as relações. Perguntaram se seu tinha enlouquecido. Mas conseguimos. Juntamos 120 pontos em 21 relatórios. Falei por quase três horas para todo secretariado. Depois de prestar muita atenção, o governador aprovou e chamou o documento de Mapa da Mina, com ações conjuntas das secretarias, que incluía a construção do Metrô e seria iniciada ainda em 1968." Curioso foi que Paulo Egídio e Jorge estavam em extremos opostos ideológicos. Ele, ligado ao PCB. O governador, do partido da ditadura. "Desprezava quem era da direita, mas ele era um político honesto e leal."

Enquanto isso, Jorge era chamado para apresentar soluções d as mais inusitadas. Um diretor da Shell tinha1ido seu livro São Paulo Metr6pole 65 e o procurou. A companhia era a terceira em vendas em São Paulo e ele lhe passou um roteiro de vendas, inclusive das concorrentes.  Percebeu que, na saída da Rodovia Dutra, o posto que mais vendia conseguia bons resultados porque dava um copo de presente. "O produto era o mesmo, gasolina, com pequena variação de preços. Sugeri cobrir todo o posto por causa da ch u va e dar algo que não era o produto principal. Assim nasceram as lojas de conveniência. Menos de um ano depois, a Shell era a primeira." Ele também inovou de modo curioso em seu primeiro cargo público, como secretário de Economia e Planejamento do Estado de São Paulo, em 1975. A crise do petróleo, iniciada em 1973, inflacionou os preços e Paulo Egídio pediu a ele que encontrasse alguma solução para poupar combustíveis nos carros do governo. Jorge descobriu que no Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA) existiam pesquisas de álcool combustível.  "Fui lá e lembro que andei num fusca com cheiro diferente, porque 23% do que fazia o carro andar era álcool. São Paulo tinha de dar um exemplo e adotou a mistura em sua frota. Peguei, levei para Reis Veloso, ministro do Planejamento de Geisel." Este lançou o Proálcool e ficou com as glórias.

A partir dos anos de 1980, Jorge presidiu a Fundação Bienal. (1986) e foi secretário de Economia e Planejamento do Estado de São Paulo, na gestão do governador Paulo Egydio Martins (1986); secretário municipal de Planejamento duas vezes, nas gestões Mário Covas (1987) e Marta Suplicy (2001); e secretário estadual do Meio Ambiente no governo de Orestes Quércia (1990). No último, liderou a elaboração do atual Plano Diretor Estratégico e dos 31 Planos das subprefeituras de São Paulo. Tanta vivência com problemas macros da capital paulista não fez dele um mago pensador de soluções mirabolantes para o transporte público, Simplesmente porque a saída está diante de todos e são óbvias, explica ele. Falta somente vontade política para fazer. "O Metrô só vai funcionar com a malha completa, investindo sem parar, por 15 anos." Para ele, transporte é a soma de vários sujeitos que precisam dar as mãos- pedestre, ciclista, motoqueiro, ônibus, trem e metrô. Tem de ser visto como uma coisa sistêmica. E, claro, trabalhar contra o mito do automóvel, que dá a sensação, a ilusão de liberdade. "É sensual, bonito, seduz, e as pessoas ficam cegas."

Em 2012, Jorge colaborou na elaboração do Programa de Governo do então candidato à prefeitura de São Paulo, Fernando Haddad, do PT. O que foi feito por esse senhor gentil e com entusiasmo renovado. Ele está animado com a gestão de Haddad. "Não sou militante de carteirinha, mas apoio o PT.” O arquiteto destaca nas propostas com sua participação a intenção de romper com a relação convencional de centro e periferia, de modo que as áreas mais distantes tenham vida própria, tanto econômica quanto cultural. "O sistema de vida dessas localidades atual é demorado, penoso e injusto. Daí a importância dos CEUs, que suprem em parte essa estrutura, porque junta educação, cultura e esporte."

Parte das propostas d o plano diretor que fez para São Paulo em 1994 agora deve sair do papel. Como a ideia de macrometrópole, que ligará num sistema de transportes eficiente as cidades de Campi nas, São Paulo e Santos. Jorge explica que existe um fluxo diário de dois milhões de pessoas que estudam, moram e trabalham nesse triângulo, mas que não têm uma interligação de transporte público barato e eficiente. "Macromet rópole" foi cunhado por ele quando presidiu a Empresa Metropolitana d e Planejamento da Grande São Paulo {EMPLASA). Significa que as soluções urbanísticas para a capital paulista vão além de seus limites geográficos. A ideia ficou esquecida nos arquivos do órgão até recentemente ser resgatada, devido ao agravamento dos problemas na Grande São Paulo. No entanto, a autoria do conceito permanece esquecida. E Jorge mantém o discurso até hoje. "São Paulo começa em Campinas, passa pela capital e desce até Santos. É o que chamo de macrometrópole, que tem 20 milhões de habitantes. E é essa a dimensão na qual têm de ser vistos os problemas de transporte público, saneamento e preservação dos parques.”  Simples assim.

ldeias e livros

O único momento em que Jorge deixa o sorriso afável de lado é quando fala do muro que existe entre ele, seus livros e a universidade. Já publicou uma dúzia de obras, a maioria sobre São Paulo. Mas nunca teve retorno da academia, embora seja muito procurado por estudantes que querem entrevistá-lo. Seu sonho era lecionar, mas esbarra na exigência obrigatória do diploma de mestrado ou doutorado. Poderiam lhe dar o título de Notório Saber, mas isso ainda não foi feito. Quase conseguiu virar professor em 1964, ao ser convidado para ensinar urbanismo na Faculdade Mackenzie. Com o golpe militar e a perseguição a professores considerados de esquerda, o diretor, por cautela, pediu para ele adiar sua estreia em sala de aula. Isso nunca aconteceu. "Já lecionei em Berkeley e outras universidades importantes do mundo. Aqui, não posso", lamenta. "E os meus dez livros não valem nada." Mesmo assim, continua a produzir. E alfineta quem desdenha de sua produção teórica. "Preconceito, para mim, é um defeito de caráter. Ninguém pode me impedir de pensar. E estou pensando no futuro."

Seu livro mais recente, lançado pelo Senac, em 2011, chama-se São Paulo: Uma Interpretação, uma obra monumental e indispensável para se compreender como se fez São Paulo e as mudanças necessárias para torná-la um lugar melhor de se viver. Premi ada pela Academia Paulista de História, a obra apresenta ainda os dramas que atingem a qualidade de vida de todos os que habitam e visitam a cidade, ou nela trabalham. A discussão foi dividida em cinco temas: desigualdade e insegurança, moradia, meio ambiente urbano, mobilidade, planejamento e gestão.

Em suas reflexões, Jorge questiona quanto tempo leva para cair uma ficha sobre a eficiência de uma boa ideia? Ele mesmo responde: 15 anos. Ou mais. "Não sou gênio, é o ovo de Colombo, as soluções simplesmente estão diante de nós, mas demora convencer a todos disso." Em 1980, por exemplo, ele percebeu que a zona norte não tinha ligação com as leste e oeste e nem estas com a sul. Sugeriu, então, criar vias paralelas às marginais. No caso da leste, a ligação seria pela Jacu-Pêssego. O tempo passou e só agora Haddad anuncia que vai fazer a obra. Jorge propõe também mexer nas margens das ferrovias, hoje abandonadas porque as fábricas foram embora. Enquanto isso, renova seu otimismo propondo soluções para cidades que cresceram desordenadamente. Atualmente, ele comanda seu escritório de arquitetura, com oito funcionários. Como construir os alicerces de uma cidade mais justa e inclusiva? Em que medida a estrutura acolhe, sustenta e alimenta a vida urbana? De que modo poderia ser melhorado o ambiente em que vive o cidadão? Perguntas que esse arquiteto humanista faz a si mesmo o tempo todo. Sim, Jorge vive com a cabeça em outros mundos. "Trabalho com a imaginação, penso em uma coisa que não existe." Com 60 anos de carreira e 85 anos de idade começa a ficar preocupante, segundo ele, que possa ver soluções importantes para São Paulo como tanto quer. O Trem Alta Velocidade (TAV), por exemplo, na melhor das hipóteses, fica pronto em 2015."Espero viver bastante ainda. Minha tia morreu com 105 anos. Niemeyer também." Com a modéstia de quem de fato tem talento, Jorge sabe que para chegar lá terá de continuar a alimentar a alma de ideias e sonhos, o que parece ser algo inesgotável nele.