Notícia

Jornal da USP

O inventário da intolerância

Publicado em 03 novembro 2009

Por Valéria Dias

Documentos que mostram a posição do governo brasileiro diante da perseguição de judeus durante a Segunda Guerra Mundial, depoimentos de sobreviventes de campos de concentração nazistas e material didático para os professores abordarem o tema em sala de aula. Esses são alguns dos recursos disponibilizados na internet pelo Arquivo Virtual do Holocausto e Antissemitismo (Arqshoah) da USP, inaugurado no dia 17 de outubro.

Fajga Rajzla Boguchwal é uma garota de 10 anos que mora na cidade de Opatow, na Polônia, junto com a mãe e a irmã de 7 anos. O que ela mais deseja é sair da Europa e vir para o Brasil, onde seu pai aguarda ansioso pela chegada da família. O ano é 1938 e as coisas estão cada vez mais difíceis para os judeus radicados na Europa. Fajga resolve, então, escrever uma carta para a Embaixada brasileira em Varsóvia, para quem, literalmente, implora por um visto de entrada no Brasil, país onde seu pai estava refugiado há meses. "Dirijo-me a VV.SS. suplicando que nos concedam o visto, pois a nossa situação é realmente desesperada", escreveu a menina. "Nenhum imigrante, estou certa, se encontra em circunstâncias tão angustiosas como as nossas."

A carta de Fajga é um dos documentos disponíveis para consulta no Arquivo Virtual do Holocausto e Antissemitismo (Arqshoah) - acessível no endereço www.arqshoah.com.br -, que entrou no ar no dia 17 de outubro. O Arqshoah torna públicos documentos oficiais que revelam a posição do governo brasileiro diante do antissemitismo e da perseguição aos judeus desde a ascensão de Hitler ao poder na Alemanha, em 1933 (leia texto na página ao lado). Além de documentos produzidos por diplomatas durante a Segunda Guerra Mundial, o arquivo disponibiliza testemunhos e inventários dos sobreviventes do Holocausto que vivem no Brasil. O portal conta também com farto material didático para professores trabalharem o tema em sala de aula, além de vídeos das entrevistas com os sobreviventes e uma biblioteca virtual, entre outros materiais.

O projeto está ligado ao Laboratório de Estudos de Etnicidade, Racismo e Discriminação (LEER) do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP e tem a coordenação da professora Maria Luiza Tucci Carneiro. O Arqshoah torna pública uma vasta documentação conseguida ao longo de 30 anos de pesquisas da professora Maria Luiza em arquivos do Brasil e do exterior. A inauguração do portal ocorreu no dia 17 de outubro, durante a 10ª Jornada Interdisciplinar sobre o Ensino da História do Holocausto, em Curitiba.

Sensibilização - "Queremos sensibilizar a opinião pública e acadêmica para a história do Brasil contemporâneo relacionada à perseguição nazista aos judeus e ao antissemitismo", conta a coordenadora do projeto. O portal inclui ainda uma galeria com os nomes e histórias das pessoas que ajudaram a salvar judeus da perseguição, as rotas de fuga usadas pelos refugiados e um link para os artistas e intelectuais judeus que se refugiaram no Brasil, além de um inventário de sobreviventes - contendo dados pessoais, documentos como passaportes, fotografias e passagens de navio - e uma bibliografia sobre o tema. Há também espaço reservado para documentação e estudos sobre ciganos, homossexuais e testemunhas de Jeová, minorias também excluídas pela política intolerante da Alemanha nazista.

Maria Luiza aponta que existe "um certo distanciamento" por parte de educadores, pois nas salas de aula eles sempre abordam o Holocausto como um adendo da Segunda Guerra Mundial. "A ideia é romper esse distanciamento e quebrar o silêncio imposto pelas histórias oficiais, oferecendo aos professores material didático que favoreça o ensino e o debate sobre o Holocausto como genocídio singular e crime contra a humanidade. O material foi produzido por especialistas em várias áreas do conhecimento: teatro, cinema, história, literatura, psicologia etc.", comenta. Exemplos de como o tema pode ser abordado pelos professores são a carta de Fajga Rajzla Boguchwal e os discursos de Thomas Mann pela BBC de Londres (1940-1945), que foram transformados em peças teatrais pela pesquisadora Leslie Marko, uma das integrantes do LEER.

A carta de Fajga: desespero

Conscientização - Para a professora Maria Luiza, a ideia central do arquivo é sensibilizar o internauta e mostrar o perigo e a extensão da aplicação das ideias antissemitas, principalmente quando elas são acionadas como instrumentos de poder do Estado. "É uma forma de alertar as pessoas de que aquela situação não pode acontecer novamente nem pode ser negada por revisionistas, neonazistas e outros grupos da extrema direita, como acontece hoje em dia", aponta a pesquisadora.

Maria Luiza destaca também o papel do historiador, que é o "de procurar conscientizar a sociedade da importância de se reavaliar o passado, interpretar o presente e investir num futuro melhor". Para a pesquisadora, "cabe ao historiador reescrever a história, que muitas vezes está comprometida com as versões oficiais que negam a verdade histórica e procuram anular a identidade de um povo. Daí a importância da abertura dos arquivos ditos "secretos" e "confidenciais" e a divulgação de documentos até então desconhecidos. Este é um dos objetivos do Arqshoah: tornar públicos documentos já disponibilizados por alguns arquivos, mas até então inéditos", destaca.

O Arquivo Virtual do Holocausto e Antissemitismo tem apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), das Pró-Reitorias de Cultura e Extensão Universitária e de Pesquisa da USP, da B"Nai B"rith, do LEER e da Cyrela Brazil. Além desses apoios, o projeto abriu o segmento "Adote um bolsista", direcionado para a captação de recursos de empresas e fundações interessadas em participar da iniciativa.

O Arquivo Virtual do Holocausto e Antissemitismo (Arqshoah) pode ser acessado no endereço www.arqshoah.com.br.

Relatos de quem viu o horror

Em um dos links do Arqshoah, os internautas têm acesso a arquivos de áudio e vídeo que registram as histórias de vida de sobreviventes do Holocausto. De acordo com a pesquisadora Raquel Mizrahi, coordenadora do Núcleo de História Oral do Arqshoah, trata-se de um trabalho enriquecedor, em que cada depoimento traz um novo aspecto do tema, apresentando sempre um dado que não havia sido mostrado anteriormente. "Já gravamos a trajetória com cerca de 35 sobreviventes ou com os filhos deles. Durante os depoimentos, podemos perceber as diferentes visões que os entrevistados apresentam para experiências semelhantes ocorridas em um mesmo campo de concentração", aponta.

Raquel lembra que alguns entrevistados já haviam gravado anteriormente depoimentos para a Survivors of the Shoah Visual History Foundation (Fundação dos Sobreviventes da História Visual do Shoah). Essa entidade foi fundada em 1994 pelo diretor de cinema Steven Spielberg, após a realização do filme A lista de Schindler, que conta a história de Oscar Schindler, o empresário que durante a Segunda Guerra ajudou a salvar centenas de judeus.

Além dessas gravações, estão sendo agrupadas centenas de registros já elaborados pelo Arquivo Histórico Judaico Brasileiro e também vídeos cedidos por aqueles que foram entrevistados pelo projeto do cineasta Spielberg.

Raquel conta que, inicialmente, a professora Maria Luiza sugeriu alguns nomes que poderiam participar das gravações. "É comum o entrevistado indicar parentes e amigos que passaram por experiências na guerra", afirma. A pesquisadora faz parte da comunidade judaica e é autora de um livro sobre histórias de vida de sobreviventes do Holocausto, o que a ajudou a encontrar pessoas dispostas a gravar os depoimentos, assim como o fato de frequentar o clube A Hebraica. Outras fontes foram as pesquisadoras Rosana Meiches e Roseli Klapp Zimmermann, que indicaram possíveis entrevistados. "Também tivemos retorno dos formulários encartados no folder de apresentação do Arqshoah, distribuído inicialmente na Hebraica, em abril de 2008, durante o lançamento do livro O antissemitismo nas Américas, organizado pela professora Maria Luiza."

Segundo Raquel, a maioria dos entrevistados era adolescente durante a guerra, e hoje têm entre 70 e 90 anos. As entrevistas duram em média duas horas e são permeadas por três perguntas: "Qual a lembrança que mais marcou sua vida durante a infância?", "Qual imagem você guarda da guerra?" e "Como conseguiu visto de entrada para o Brasil? Onde se estabeleceu? Recebeu ajuda de alguém ou de alguma instituição?". Os entrevistados também falam sobre seus dados pessoais, familiares, religiosos, os campos de concentração por onde passaram etc. Ela explica que a prioridade para gravação de depoimentos é: primeiro, sobreviventes; segundo, refugiados; e terceiro, filhos de sobreviventes.

Além do resgate da memória e das histórias de vida que muitas vezes são desconhecidas dos netos e filhos desses sobreviventes, os depoimentos também ajudam a traçar as rotas de fuga utilizadas pelos refugiados. (V.D.)