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Gazeta do Povo online

O inevitável e suas lições

Publicado em 21 novembro 2008

Era só uma questão de tempo. Ou de esperar uma vaga na agenda do catastrofismo que parece tomar conta de algumas cabeças pelo mundo afora. E eis que surge a sombra da crise internacional sobre os programas e estudos na área de energias renováveis. Se a escalada do preço do petróleo, nos primeiros meses do ano, acelerava, do ponto de vista econômico, a busca de fontes alternativas, agora o quadro que se apresenta, com a queda da cotação do barril, é de um provável desestímulo. Como se os problemas do aquecimento global não passassem de miragens.

De qualquer forma, a questão pontua a Power Conference, o fórum internacional de energia renovável e sustentabilidade que é levado a efeito em Florianópolis, reunindo especialistas brasileiros e estrangeiros. Sintomaticamente, como mostramos ontem, foi incluída na programação uma mesa-redonda sobre as perspectivas de investimento em energia renovável com o sombrio título “Há luz no fim da crise?”.

Certamente na contramão de uma corrente que parece cada vez mais presente em eventos desse tipo, o ministro Carlos Minc, do Meio Ambiente, garante não estar preocupado com um possível aumento da (nova) corrida ao petróleo. Pelo contrário. Ele vê a crise como uma “oportunidade de descarbonizar”. O Brasil continuará se pautando na busca de saídas que o bom senso sempre recomendou. E, passada a crise, estará pronto para enfrentar a nova onda de crescimento que há de ser pautada pela sustentabilidade.

Em 2007, empreendimentos na área de fontes alternativas de energia receberam cerca de US$ 150 bilhões em todo o mundo. Neste ano, os investimentos seriam maiores. O que se questiona, porém, é o que 2009 nos reserva. Haverá um refluxo?

Conselheiro do governo britânico para assuntos de mudanças climáticas, o economista Nicholas Stern pede a palavra e faz uma ponderação. Mesmo que a crise venha a afetar a capacidade de investimento em esforços de redução das emissões de carbono, ela, a crise, também ensinará muito sobre os riscos da falta de sustentabilidade econômica.

Na opinião de Stern, que participou de workshop da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, em promoção conjunta com a Embaixada Britânica, a crise internacional terá impacto fundamental nas discussões da Conferência Mundial sobre Mudanças Climáticas, marcada para dezembro de 2009, na Dinamarca, e que deverá estabelecer o acordo internacional destinado a substituir o já surrado Protocolo de Kyoto. Stern insiste que os países desenvolvidos devem se comprometer a cortar em até 80% suas emissões de carbono até 2050 e que as nações emergentes também estabeleçam metas nessa área. E ele, que já foi economista-chefe e vice-presidente do Banco Mundial, compara os efeitos do atual tsunami financeiro mundial com as conseqüências previstas pelas mudanças climáticas globais. A crise financeira, diz, não é afinal um desastre natural. Como o aquecimento global, é um problema de origem humana, por se ignorar os riscos do que não é sustentável. Ou por outra, “o risco ignorado é geralmente amplificado. E essa é uma lição da crise econômica que precisa ser transposta para a crise ambiental.”

A inércia que levou à crise financeira não pode se repetir na crise climática.