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Correio Popular online

O império do dízimo

Publicado em 06 setembro 2009

Contra-feitiço: antropólogo investiga o crescimento da Igreja Universal e afirma que o combate ao demônio é explorado nos cultos para arregimentar fiéis

Coisa ruim, capeta, maligno, anti-cristo. Seja qual nome tenha, na Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) o diabo é causador de doenças, pobreza, desavenças, tragédias. Esse discurso, que atribui ao demônio males cotidianos, sataniza crenças "rivais" e oferece a cura pelo exorcismo, arregimentando milhões de fiéis mundo afora, foi abordado pelo antropólogo Ronaldo de Almeida em A Igreja Universal e seus Demônios, publicado em maio pela Editora Terceiro Nome, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Fruto de pesquisa iniciada nos anos 1990, o livro surgiu a partir da revisão da tese de mestrado de Almeida, hoje doutor em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo (USP) e professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Em tempos de "guerra santa" deflagrada pela IURD contra seus opositores, diante das acusações de fraude, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha contra o bispo Edir Macedo e mais nove dirigentes, já indiciados pela Justiça, a obra do antropólogo traz uma oportuna reflexão e consistente informação sobre as raízes da igreja e suas práticas.

Metrópole - O senhor diz no livro que a IURD é construída sobre o tripé cura, exorcismo e prosperidade. Como o demônio aparece nesse repertório?

Ronaldo de Almeida - A IURD promete melhoria financeira, cura, saúde. Mas prega que o reverso, doenças, dificuldades financeiras são causadas pelo diabo. Uma ação de demônios que ela garante solucionar. Seu discurso demoniza problemas da ordem cotidiana.

O diabo também vem sendo culpado pelas acusações contra a cúpula da IURD?

O discurso varia conforme o público. No aspecto religioso, é uma ação do maligno frente às coisas boas enviadas por Deus que ocorrem pela Universal. Mas no plano material ela diz que existem outros inimigos que podem ser demonizados, como a Rede Globo, as religiões afro-brasileiras e a Igreja Católica, em determinado momento. O maligno se incorporaria claramente nessas instituições.

Culpar o demônio é uma bela forma de se livrar de responsabilidades bem humanas, não?

Certamente. Na verdade, a responsabilidade é partilhada, porque a IURD fala que você pode deixar uma abertura para o diabo entrar na sua vida. Como ficar espiritualmente protegido? A resposta deles é: frequente a igreja.

Ao combater os ritos afros, a IURD não acaba por legitimá-los?

É o grande paradoxo dessa igreja. Porque, ao combater, ela dá um estatuto de espiritualidade a essas religiões e fica parecida com o que está combatendo. A IURD valida o feitiço e apresenta o contra-feitiço. Pode-se dizer que são orações por libertação, bênçãos, mas, como antropólogo, posso dizer que é o mesmo tipo de fenômeno.

O repertório da IURD não contempla um aprofundamento da Bíblia? Seria a tal "libertação da teologia" que o bispo Edir Macedo tratou em livro?

Na época do livro, tinha força no Brasil a Teologia da Libertação, e ele propositalmente chamou de "libertação da teologia" numa referência ao catolicismo, dizendo que na IURD havia fé e não doutrina, no sentido litúrgico. Mas eles têm sim, um sistema, que é esse de demonizar o mundo, um código de comportamentos, práticas rituais... O que configura um campo doutrinário e até reflexão teológica, não tão profunda e consistente quanto no catolicismo e no protestantismo, mas que não deixa de ser um conjunto de doutrinas. Bastante flexíveis, diga-se.

Em que sentido?

Ela vai moldando suas ideias. Vilipendiava as religiões afro-brasileiras chamando o demônio de pomba-gira, tranca-rua, e sofreu vários processos. Agora, usa o termo genérico "encosto". Vai adequando o discurso também ao seu próprio enriquecimento e numa reação à pressão social. Em 1989, disse que o Lula era o diabo, mas na eleição de 2002, via Partido Liberal, apoiou-o. Sua lógica é essa plasticidade.

O dinheiro no cristianismo é elemento corruptor, mas a IURD prega a prosperidade como sinal de Deus aos escolhidos. Como o senhor vê isso?

O cristianismo tem esse desprendimento lá em Jesus Cristo, em São Francisco. Mas a Igreja Católica, como instituição, é rica. A teologia calvinista, inclusive no clássico de Max Weber, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, diz que a riqueza pode ser sinal de bênção e da condição de predestinado. Então a IURD não traz novidade. O que ela faz é inverter o dízimo como um agradecimento às graças divinas, como é na tradição protestante, no evangelho e no pentecostalismo clássico. A IURD diz que, se você der o dízimo, Deus vai abençoá-lo. Tem-se uma ideia de investimento.

Haveria manipulação no discurso para legitimar o enriquecimento da igreja?

É preciso dizer que muitas pessoas têm na IURD uma experiência genuína. Mas o que está sendo demonstrado é a apropriação de um dinheiro oferecido para a obra de Deus. Eu pensava já há muito tempo sobre esse circuito: o dízimo ajuda a comprar um terreno, sobre o qual se constrói um templo, onde se arrecada dinheiro para comprar um canal de tevê que dá visibilidade à igreja, que atrai mais fiéis, que dão mais dízimos e assim por diante. As concessões passam por política, políticos que são da igreja, e que em parte são eleitos porque são mostrados na programação. Há uma retroalimentação de mercado, mídia, política. O Ministério Público está seguindo o percurso.

E como se justificaria tamanho poder de convencimento da IURD para angariar recursos?

É difícil saber por que as pessoas acreditam a ponto de tirar dinheiro do bolso. Alguns dizem que é falta de escolaridade, ou porque é gente necessitada, ou a propaganda... Acho que é tudo isso meio misturado. Doações para a religião também estão na tradição cristã brasileira. E algumas dão porque creem mesmo. Outras podem estar investindo.

O senhor acha que a IURD pode acabar fortalecida ao se dizer perseguida e convocar seus fiéis para uma "guerra santa"?

É sempre um movimento. Isso fez o apóstolo Estevam Hernandez com a bispa Sônia Ernandez, da Renascer em Cristo. Edir Macedo também, quando foi preso em 1992, já com acusações de charlatanismo. O livro que ele lançou recentemente traz foto sua atrás das grades, lendo a Bíblia. Está no Novo Testamento e faz parte do mito cristão ser perseguido. Então a tendência é jogar a coisa para o plano espiritual.

Funciona?

Em 1995, quando houve o confronto com a Globo, no episódio do chute na santa (em 12 de outubro, o bispo Sérgio von Helder, num programa que apresentava na Record, chutou a imagem de Nossa Senhora Aparecida), eu fui, no dia seguinte, a um templo da IURD, e estava vazio. Em uma semana voltou a ficar cheio. Então, não sei se isso diminui a convicção das pessoas. É uma igreja que lida com essa imagem negativa há muito tempo e só tem crescido.