Notícia

A Tribuna (Santos, SP)

O impasse da chuva via celular

Publicado em 29 janeiro 2007

Há cerca de três anos, aqui mesmo, nestas páginas do Caderno de Ciência, os leitores tomaram conhecimento de uma técnica desenvolvida por pesquisadores brasileiros que permitia receber informes, via celular, sobre a ocorrência de pancadas de chuvas.
O sistema, criado pelos analistas de informática Carlos Alberto de Agostinho e Simone Cincotto Souto, do Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet), da Universidade Estadual Paulista (Unesp), possibilita saber, com até uma hora de antecedência, quanto vai chover e de onde vem a precipitação (norte, sul, leste ou oeste).
Batizado de 'Alerta Tempestade', o software é ideal para profissionais que atuam no campo, como, por exemplo, funcionários da Defesa Civil ou empregados de Centrais Elétricas. Além disso, pelo seu potencial, pode também ser uma fonte de informação segura e mesmo imprescindível para quem viaja, seja a trabalho ou de férias.
Ele funciona como um e-mail. Os dados atmosféricos, coletados por satélites a cada sete minutos e meio são analisados pelo software. Ao identificar uma intensidade de chuva maior que 23 milímetros por hora (23 litros de água por metro quadrado), o sistema aciona o sinal de alerta e envia um 'torpedo' (mensagem de texto) com os dados ao celular.
Para isso, o ponto onde o usuário se encontra é dividido em três raios. Ao receber o alerta com o número 1, significa que a tempestade está a menos de 20 km. O 2 determina que ela está entre 20 km e 40 km de distância e o 3 acima de 40 km e menos de 60 km.
Segundo Simone, o serviço funcionou perfeitamente entre 2004 e final de 2005, enviando 'torpedos' para clientes pré-cadastrados. A partir de então, por uma determinação das empresas que operam a telefonia celular no Brasil, ele foi tirado do ar.
"O problema é que é impossível saber quantos alertas o usuário irá receber. Como cada um custa cerca de 40 centavos, as pessoas pagavam no máximo R$ 12,00 por mês, o que fez com que as operadoras não se interessassem pela manutenção do serviço", explica. Além disso, o serviço só abrange cerca de 70% do território paulista - áreas cobertas pelos dois únicos radares existentes no Estado, um deles em Bauru e o outro em Presidente Prudente, capazes de cobrir um raio de 240 quilômetros, o que deixa, por exemplo, a Baixada Santista fora do sistema.
Desde de 2004, porém, já foi solicitada e aprovada pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) uma verba para a instalação e novos radares. Até hoje, entretanto, o Governo do Estado não liberou o dinheiro.
Enquanto isso prossegue o impasse. A tecnologia, inédita em toda a América Latina, África, Ásia e parte da Europa, está ociosa, parada à espera de quem consiga, primeiro, liberar verbas para os novos radares e, depois, seja capaz de convencer as empresas de telefonia a perceberem que se o custo pode até não compensar, o serviço é de extrema relevância, capaz de minimizar danos materiais e vítimas.