Notícia

Revista da APCD

O impacto das pesquisas dos produtos naturais e sua utilização na odontologia

Publicado em 01 janeiro 2019

1- Qual a importância dos produtos naturais para a Odontologia?

Os produtos naturais são de extrema importância, pois são fontes de substâncias com possíveis ações para ajudar na prevenção e no tratamento de doenças. O Brasil com sua vasta biodiversidade é uma fonte riquíssima de recursos para a pesquisa e desenvolvimento de produtos e soluções para a melhora da qualidade de vida de sua população (e de outros países). Por isso, as iniciativas e os incentivos para a pesquisa das melhores fontes de produtos naturais que possuam uma relação de custo barato e de benefício alto (que sejam eficazes e economicamente viáveis) são imprescindíveis para o avanço da ciência e retorno para a sociedade.

Entretanto, o caminho para o desenvolvimento de produtos ou ferramentas de origem natural para uso preventivo ou terapêutico é longo. Pois, são necessários estudos pré-clínicos em laboratório (in vitro) para averiguar o potencial de ação preventiva ou terapêutica em modelos adequados e selecionar esses produtos naturais e seus derivados para estudos de prova de conceito. Ainda, em muitos casos são necessários estudos pré-clínicos com modelos animas adequados (dentro dos princípios éticos, in vivo) antes de se iniciar estudos clínicos com humanos. Alguns exemplos de produtos naturais e com múltiplas possíveis aplicações são as proantocianidinas e tt-farnesol. As proantocianidinas, que são uma classe de polifenóis encontrados em diversas plantas, têm sido investigadas como antimicrobiano, antibiofilme, agentes promotores de ligações cruzadas (cross-linkers) para prevenir a degradação do colágeno, entre outros. Já o tt-farnesol, um terpenoide que foi identificado em diversas plantas e própolis, entre outros, possui um potencial farmacológico vasto, incluindo atividade antimicrobiana, antibiofilme, anti-inflamatória e analgésica.

2- Depois de ter trabalhado por bastante tempo nos EUA e recentemente ter retornado ao Brasil, quais as principais diferenças que você percebe entre a pesquisa em Odontologia brasileira e americana? Seria possível afirmar que em ambos os países a pesquisa é realizada em níveis de excelência?

Considerando os aspectos fundamentais para realização de pesquisa: pessoal capacitado (know-how, expertise, engajamento), infraestrutura, financiamento (recursos financeiros advindos de agências de fomento à pesquisa), transparência (ética) e resultados (publicações, patentes, formação de recursos humanos, produtos e ferramentas). ainda existem algumas diferenças entre a pesquisa em Odontologia brasileira e americana. Na minha opinião, as principais diferenças são:

1) a velocidade desde a concepção de um projeto, a sua execução (obtenção de recursos e pessoal capacitado) e seus produtos (publicações, patentes, formação de recursos humanos, produtos e ferramentas). Lá, essa "cadeia produtiva" funciona sem muitos percalços, ou quando algum surge, busca-se uma solução rápida e efetiva. Aqui ocorre uma morosidade nas diversas esferas, desde treinamento de pessoal até manutenção de equipamentos, dentre outros aspectos.

2) capacitação de pessoal. Embora sejamos considerados criativos e trabalhadores lá para realizar um estágio ou trabalho, eu considero que o treinamento nos aspectos técnicos em pesquisa de alunos de iniciação científica, mestrado e doutorado é mais moroso aqui. Pois, a exposição à parte laboratorial (experimental) durante o ensino médio e a graduação é mais baixa no Brasil. Embora existam esforços para melhorar este aspecto, como os recentes programas de iniciação científica do ensino médio, junto aos já consagrados programas de iniciação científica durante a graduação, ainda é necessário um trabalho de base maior.

3) ambiente que fomente novas ideias e colaborações. Por exemplo, lá existe uma maior facilidade de acesso a colaborações com a disponibilidade de apresentações de progresso de pesquisa no departamento ou na instituição (palestras pelos pesquisadores) . Lá, na colaboração entre pesquisadores de uma mesma instituição e com outras o papel que cada um desempenhará está muito claro desde o início. Também, o engajamento e o comprometimento são diferentes.

4) Documentação adequada da pesquisa sendo realizada. Nos EUA este quesito faz parte do treinamento em "Ética na pesquisa" e pedido de financiamento (o projeto para isto tem que estar claro). Porém, no Brasil isso ainda é um problema, pois a grande parte da pesquisa é feita em instituições de ensino e pesquisa com estudantes que muitas vezes não reportam os detalhes do que está sendo realizado, por confiar em sua memória. Assim, quando alguém irá replicar o trabalho baseado no que está documentado, pontos importantes podem estar faltando. Aqui entra o papel fundamental do Orientador ou Pesquisador Responsável em verificar as informações (os resultados) conforme as mesmas são obtidas e de ser o guardião de tais informações e materiais.

5) Serviço técnico de alta qualidade (os chamados "Core facilities"): equipamentos de grande porte operados por pessoal capacitado e dedicado a operá-los. Diversas iniciativas federais (Fineps) e estaduais Fapesp (projetos temáticos, Cepids, Jovem Pesquisador) tem ajudado muito na aquisição de equipamentos, multiusuários, porém, ainda é necessário um melhor uso de tais recursos (acesso, custo, contratação de pessoal técnico).

6) diferença entre critérios de avaliação, com aparente falta de sintonia entre os órgãos de fomento federais e os estaduais no Brasil. No meu caso, submeti o mesmo projeto para o CNPq em resposta à chamada Universal e também à Fapesp na modalidade auxílio a Pesquisa Jovem Pesquisador. Esse projeto foi denegado pelo CNPq e aprovado pela FAPESP. No caso do referido órgão federal, enviei projetos à diferentes chamadas e apenas 1 dentre 4 foi aprovado recentemente.

Mesmo com todas essas diferenças, acredito sim que a pesquisa realizada no Brasil possuí um nível de excelência similar ao daquela produzida nos EUA. Pois, em números de publicações, o Brasil configura entre os mais produtivos. Ainda, muitos pesquisadores brasileiros, com formação no Brasil acabam indo trabalhar em instituições nos EUA, por existirem mais oportunidades de trabalho.

Considero que a formação dos pesquisadores, a infraestrutura, os mecanismos de incentivo financeiro existem aqui e estão melhorando bastante. Por muito tempo, existia o conceito de publicar por publicar para mostrar resultado, mas isso prejudicou o impacto da ciência realizada. Entretanto, este cenário está mudando e o impacto da ciência produzida aqui está aumentando e deve continuar assim.

Diversos programas brasileiros incentivam a ida de pesquisadores brasileiros para diversos países com pesquisa (ou mentalidade para pesquisa) "mais desenvolvida" (EUA, Reino Unido, Alemanha, França, entre outros) e vinda de pesquisadores destes países. Essas parcerias podem impulsionar e melhorar a percepção do papel da nossa pesquisa na comunidade científica mundial. Finalmente, acho importante refletir sobre o envolvimento da sociedade e o retorno dado a ela.

Entrevistada: Marlise Inêz Klein Furlan

Mestre e doutora em Biologia Bucodental- FOP Unicamp. Pesquisadora - Área de Biologia Molecular Aplicada à Microbiologia - Departamento de Materiais Odontológicos e Prótese, (FOAr-Unesp).