Notícia

Gazeta de Ribeirão online

O homem, o prêmio, o laureado

Publicado em 09 dezembro 2007

A Universidade de São Paulo, através da Prefeitura do Campus Administrativo de Ribeirão Preto, instituiu, em 2007, um concurso cultural para outorgar o Prêmio Maurício Rocha e Silva ao cientista cujo memorial, em seu conjunto de atividades, melhor refletisse uma atuação científica equivalente à do pesquisador Maurício Rocha e Silva, nas áreas de Ciências da Saúde e Biomédicas. Uma vez finalizado, apurou-se o nome do pesquisador Fernando Queiroz Cunha como o laureado do referido prêmio.

Descobridor da bradicinina, no final dos anos 40, Maurício Oscar da Rocha e Silva foi o químico e farmacologista que possibilitou à Medicina melhorar, radicalmente, a expectativa e qualidade de vida dos hipertensos nos quatro cantos do mundo. Formado pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro ( atual UFRJ ), impressionou pesquisadores estrangeiros com seu talento, dedicação e intuição raciocinante. Adepto ao ideal de que um cientista, antes de pensar em deixar o seu país, para melhorar sua vida financeira, deve voltar-se para melhorar a qualidade de vida de seu povo, muito fez neste sentido. Lutando pela criação da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (atual SBPC), defendeu a liberdade dos cientistas durante a ditadura militar e organizou, no final da década de 50, o departamento de farmacologia e a pós-graduação da Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto. Aos 70 anos, "afastado" da universidade pela compulsória, retornou à pintura de paisagens, hobby a que se dedicara brevemente nos anos anteriores. Deste retorno, vinte telas surgiram e de dispersaram por entre seus familiares. Junto a estes também foi preservado um auto-retrato, também pintado pelo mesmo. Três anos depois da compulsória, Rocha e Silva veio a falecer, sendo o filho, a última pessoa com quem falou em vida.

Não se pautando por suas pesquisas em relação à bradicinina, Rocha e Silva também pesquisou a histamina, publicando mais de 300 trabalhos em revistas como "Nature" e "Science" e comprovou a toxicidade do alecrim (Holocalyx glaziovii), causador de uma doença bovina comum, mas, então, muito prejudicial ao Brasil. Sem nunca esquecer a Filosofia da Ciência, utilizou reflexões desta para defender que a criação intelectual se orienta mais pela intuição do que pela razão. Reconhecido com os prêmios Moinho Santista (1967), mais alta condecoração científica então existente no Brasil, e Prêmio Nacional de Ciência e Tecnologia do CNPq, Rocha e Silva foi vice-presidente da União Internacional de Farmacologia, membro-fundador da Sociedade Brasileira de Fisiologia (1957) e da Sociedade Brasileira de Farmacologia e Terapêutica Experimental (1966), sem nos esquecermos de sua atuação no Conselho Federal de Educação. Apreciador de provérbios, assimilou, das considerações de Bertrand Russell, que "meias provas", "meias verdades" e "meia lógica" nada mais eram que "prova nenhuma", "mentira total" e "falta de lógica".

Quando graduando, lecionando em colégios para garantir seu próprio sustento, foi amigo fiel da Física e da Literatura, chegando a publicar o livro de contos "Bonecos de Porcellana". Tal fato revela que a Arte, em todas as suas manifestações, e a Ciência, parecem sempre caminhar juntas na formação dos pequenos grandes homens. Ao instituir um prêmio com seu nome, a Prefeitura do Campus da USP de Ribeirão Preto, em parceria com o Santander-Banespa, buscou reverenciar o Conhecimento que todo cientista se propõe a buscar, assim como, a originar em sua trajetória acadêmica.

O laureado, Fernando Queiroz Cunha, graduado em Ciências Biológicas, Modalidade Médica, pela UnB (1978), é mestre em Farmacologia, pela UFC (1981) e doutor em Farmacologia, pela FMRP-USP (1989). Atualmente, Professor Titular da FMRP-USP, é pesquisador e consultor ad hoc do CNPq, assim como, consultor ad hoc da CAPES e FAPESP, além de consultor de revistas de circulação internacional, tais como, Shock, British Journal of Pharmacology, European Journal of Pharmacology, Brazilian Journal of Medical and Biological Research, Critical Care Medicine, Journal of Immunology, European Journal of Immunology, Pain, Mediators of Inflammation, Immunology e Journal of Pharmacology and Experimental Therapeutics, entre outras. Atualmente, suas linhas de pesquisa estudam o processo inflamatório, em suas diferentes vertentes. Pioneiro em demonstrar que na sepse severa, tanto em modelos experimentais como em pacientes, ocorre falência da migração de neutrófilos para o foco infeccioso e que o grau dessa falência correlaciona-se com a severidade do processo séptico, publicou, nesta área, mais de 20 artigos, assim como, orientou mais de 12 alunos de pós-graduação. A relevância destes trabalhos pode ser constatada nas conferências e palestras que Queiroz Cunha tem proferido em diversos congressos de áreas correlatas e, paralelamente, em sua prática clínica. Instituições como SBI, Sociedade Brasileira para Estudos da Dor, Sociedade Brasileira de Reumatologia, Sociedade Brasileira de Medicina Intensiva, Sociedade Brasileira de Hipertensão, Sociedade Brasileira de Neurociência, Sociedade Brasileira de Microbiologia, Sociedade Brasileira de Veterinária, Sociedade Brasileira de Endocrinologia, Sociedade Brasileira de Hansinologia e Sociedade Brasileira de Patologia Experimental, entre outras, são algumas que podem referendar seu trabalho.

A entrega do prêmio será realizada, em sessão solene, no dia 10 de dezembro de 2007, às 20h, no Centro de Convenções de Ribeirão Preto, tendo sido, este evento, incluído nas comemorações dos 55 anos da Faculdade de Medicina. Convidamos, portanto, toda a comunidade científico-acadêmica, assim como, ribeirão-pretana, a prestigiar tal evento.

José Aparecido Da Silva é Prefeito do Campus da USP de Ribeirão Preto; Rosemary Conceição dos Santos é Doutora em Letras pela USP-SP