Notícia

Glorinha Cohen

O Holocausto e a educação em direitos humanos

Publicado em 09 fevereiro 2013

Por Maria Luiza Tucci Carneiro

Historiadora, Professora Livre Docente da Universidade de São Paulo, coordenadora do LEER- Laboratório de Estudos sobre Etnidade, Racismo e Discriminação e membro da Comissão Fundadora do Instituto Shoah de Direitos Humanos. Autora de:

O Anti-semitismo na Era Vargas (3ed. Perpsectiva, 2001); Cidadão do Mundo: O Brasil diante do Holocausto (Perspectiva, 2010); O Veneno da Serpente (Perspectiva, 2003); Holocausto, Crime contra a Humanidade (8ed. Ática), dentre outros. Coordenadora do projeto Fapesp Arqshoah- "De apátrida à cidadão brasileiro". Site:

www.arqshoah.com.br

Neste dia 27 de janeiro de 2013 evocamos, mais uma vez, o Holocausto, enquanto crime contra a Humanidade. Rememoramos, com pesar, os mais de seis milhões de judeus, além de milhares de ciganos, Testemunhas de Jeová, homossexuais e discidentes políticos exterminados pelo Alemanha nazista e países colaboracionistas. Todos os anos, em cerimônias oficiais contamos com a presença do Presidente da República Brasileira -Luiz Ignácio Lula da Silva e, agora, Dilma Rouseff. Reafirmamos, no coletivo, o compromisso de promover a educação das gerações vindouras sobre este genocídio singular na história da humanidade, frisado nos discursos oficiais como um dever fundamental ao qual o governo brasileiro se associa plenamente, endossando a data estipulada pela Organização das Nações Unidas (ONU), em 2005: 27 de janeiro - Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto.

Lembramos que em 27 de janeiro de 1945, centenas de prisioneiros dos campos de extermínio de Auschwitz e Birkenau, mantidos pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), próximos à cidade polonesa de Cracóvia, foram libertados. Nada mais eram do que figuras esqueléticas, espécies de mortos-vivos, marcados para morrer em um ritual genocida idealizado pelo Terceiro Reich como "Solução Final para a Questão Judaica". Nas valas coletivas, nos barracões e patios dos campos de concentração, milhares de corpos empilhados cheiravam barbárie.

Reconhecendo a importância de se preservar a história do Holcausto como parte fundamental do nosso processo educacional, o Ministério da Educação se solidariza com a memória destas vítimas e seus familiares, reforçando a importância de "relembrar esta data para que a tragédia do Holocausto não seja esquecida pelas futuras gerações e repetida", hoje um slogan sem muitos ecos nos programas oficiais das escolas que, em período de férias, sequer são convocadas para participar deste ato pedagógico. Mas tenho certeza de que muitos jovens foram incentivados ( e até mesmo premiados) a participar, no último dia 25 de janeiro, do passeio ciclístico em comemoração ao aniversário da cidade de São Paulo.

O que mais o governo brasileiro tem realizado, alem de participar oficialmente como convidado desta cerimônia rememorativa ? Quais são os programas educativos implementados pelo Estado com o objetivo de promover a educação, a memória e a pesquisa sobre o Holocausto ? Respondemos por algumas destas ações em nome do LEER- Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação da Universidade de São Paulo, da B'nai B'rith, das Universidades Federais e das Secretarias Municipais de Educação (de São Paulo, Porto Alegre, Rio de Janeiro, Curitiba, Brasília e Niterói) que, há vários anos - através de Jornadas Interdisciplinares e Oficinas Interativas - têm procurado conscientizar e sensibilizar os educadores para o ensino de temas relacionados ao Holocausto. Através de cursos de pós-graduação junto ao Departamento de História, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, da USP, pesquisas sobre antissemitismo, genocídio e racismo, vêm sendo incentivadas inspirando o pensamento crítico e a produção de novos conhecimentos sobre a história dos refugiados do nazifascismo no Brasil.

Hoje, o Instituto Shoah de Direitos Humanos, nascido da parceria da B'nai B'rith com o LEER/USP, assume esta frente mobilizadora com o propósito de gerar condutas e valores humanísticos, democráticos, éticos e morais. Na sua sede na Rua Caçapava, 105, em São Paulo, gera um espaço para a pesquisa, a educação e a homenagem aqueles que sobreviveram ao Holocausto e que ajudaram a salvar vidas. Daí a importância e a emergência de constituirmos um acêrvo que preserve a documentação expressiva das trajetórias de vida e rotas de fuga daqueles que optaram pelo Brasil enquanto país de acolhimento, refúgio dos expatriados, brasileiros por opção.

Através de projetos aprovados pela Lei Rouanet estaremos capacitando educadores, além de formar pesquisadores dedicados aos estudos do Holocausto, referência para todos os males. Para isso criamos os programas "Adote um bolsista", "Escreva a sua História", "Educando para a Cidadania e a Democracia". Além de oferecer ferramentas conceituais, acadêmicas e pedagógicas que facilitem o processo de ensino e aprendizagem do Holocausto, assumimos o compromisso de transmitir os significados e alerter para os perigos do racismo através de uma visão interdisciplinar que alcance todas as gerações, presentes e futuras. Reforçando as políticas públicas de Educação em Direitos Humanos, estamos reejeitando o revisionismo que nega o Holocausto, promovendo planos de ação e de proteção da memória, verdade e justiça. Rememorar apenas não basta, pois o racismo e o antissemitismo, assim como a fênix, renascem das cinzas.