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UFJF - Universidade Federal de Juiz de Fora

O habitat faz o sapo

Publicado em 15 setembro 2020

Durante o processo evolutivo, os animais passaram por diversas adaptações morfológicas, fisiológicas e comportamentais na transição dos habitats aquáticos para os terrestres. As condições ambientais, muitas vezes, são as responsáveis pela diversificação dos comportamentos reprodutivos. Animais mais adaptados ao ambiente tendem a conseguir se alimentar melhor, se reproduzem e passam essas adaptações para sua prole. Uma pesquisa realizada com participação de um pesquisador do departamento de Zoologia do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFJF mostra como uma simples mudança de local de deposição dos ovos pode influenciar em características morfológicas de animais de um grupo.

De acordo com o estudo, as diferenças morfológicas entre os machos e as fêmeas de anfíbios anuros – grupo que inclui sapos, rãs e pererecas – tem relação direta com os locais de reprodução. Os anuros são geralmente associados à reprodução apenas no meio aquático; no entanto, esse processo também ocorre na vegetação, no solo, e em locais escondidos. “O dimorfismo sexual em tamanho (a diferença de tamanho corpóreo entre machos e fêmeas) é um fenômeno fascinante e diverso no mundo animal. Nos anfíbios anuros, fêmeas são maiores que machos em 90% das espécies, e estudos anteriores demonstraram que as fêmeas deste grupo são grandes pela vantagem de produzirem mais ovos”, explica Renato Christensen Nali, um dos pesquisadores envolvidos no estudo.

O ineditismo da pesquisa ao analisar a influência da área de deposição dos ovos na fecundidade e no tamanho corpóreo do grupo foi reconhecido, ao ter artigo publicado na revista Biological Journal of the Linnean Society, um dos periódicos mais tradicionais no ramo da biologia evolutiva.

Um peso nas costas

Além da reprodução na água, os anfíbios anuros também podem ter seus sítios de oviposição em tocas e frestas escondidas, em serapilheiras de matas, em folhas e galhos. As hipóteses da pesquisa foram direcionadas a compreender os possíveis impactos no dimorfismo sexual. “Pensamos que, em espécies que depositam ovos em locais como tocas e frestas, machos e fêmeas poderiam ter tamanhos de corpo similares pela restrição de espaço. Já em espécies que depositam ovos na vegetação, as fêmeas deveriam ser muito maiores para conseguirem carregar os machos”, diz Renato.

Em anfíbios anuros (sapos, rãs e pererecas) o esforço de carregar o macho no dorso pela vegetação parece ser um dos fatores que determinam fêmeas bem maiores e com uma menor produção de ovos. Por exemplo, a perereca Dendropsophus haddadi coloca os ovos em folhas, e o casal em abraço nupcial se movimenta na vegetação até encontrar um local apropriado para desovar. (Fotos: Nelson da Silva)

De acordo com Nali, para testar as hipóteses, foram realizadas etapas de compilação dos dados (com mais de 500 espécies de anfíbios anuros) e aplicação de análises evolutivas para avaliar se o local onde os ovos eram postos interferia na quantidade de ovos produzidos – fecundidade – e na estrutura corpórea – dimorfismo sexual em tamanho.

As respostas à investigação demonstraram que, em geral, as fêmeas são 20% maiores que os machos. De acordo com o artigo, a explicação poderia ser que esta diferença de tamanho resulta em uma maior justaposição de cloacas – cavidade de abertura do aparelho genital dos anfíbios -, aumentando, o sucesso da fertilização.

No entanto, segundo o pesquisador, no que tange aos animais que colocam os ovos em locais escondidos, há uma tendência de fêmeas e machos serem do mesmo tamanho, indicando que a possível limitação de espaço impede que fêmeas aumentem de tamanho durante a evolução. Os resultados da pesquisa apontam que o local de oviposição pode influenciar no dimorfismo sexual em tamanho do diverso grupo dos anuros.

“Além disso, em espécies que colocam ovos na vegetação, encontramos uma tendência de fêmeas bem maiores que machos e produzindo menos ovos. Isso é interessante pois, nessas espécies, a fêmea precisa carregar o macho no dorso durante o abraço nupcial (forma de acasalamento dos anuros), o que, juntamente com a massa dos próprios ovócitos em seu corpo, pode representar um grande esforço. Por isso, faz sentido que as fêmeas destas espécies sejam maiores e, ao mesmo tempo, produzam menos ovos”, pontua o professor.

Reconhecimento internacional

A Biological Journal of the Linnean Society é uma descendente direta da revista biológica mais antiga do mundo, onde foram publicadas as primeiras ideias de Darwin e Wallace, reconhecidos como os pais da evolução. A revista é considerada uma das mais tradicionais nos estudos de biologia evolutiva. “Considero uma grande honra ter um trabalho ali publicado. Porém, isso seria impossível sem a contribuição não apenas dos autores, mas também das dezenas de estudiosos de história natural, uma modalidade de pesquisa que, infelizmente, nem sempre tem o reconhecimento que merece”, pondera Nali.

Além do artigo, o trabalho também foi apresentado no congresso virtual da Animal Behavior Society, em vídeo, no mês de Julho. Renato Nali coordena o Laboratório de Ecologia Evolutiva de Anfíbios (LECEAN) e o projeto de extensão Coleção Itinerante de Zoologia da UFJF, que visa democratizar o acesso à diversidade animal, capacitar os estudantes e divulgar o trabalho científico da instituição de forma acessível à comunidade.

O estudo é fruto do trabalho colaborativo com pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp); Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ); Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e Cornell University. A pesquisa foi realizada com apoio financeiro da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e do CNPq.