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O guaraná, planta nativa do Brasil, se revela um potente antioxidante

Publicado em 27 julho 2016

O guaraná tem qualidades antioxidantes ainda  mais potentes do que o chá verde, de acordo com um estudo recente feito por pesquisadores da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. A propriedade medicinal se deve à presença, em sua formulação, de substâncias conhecidas como catequinas, que oferecem ação antioxidante e anti-inflamatória, entre outros benefícios à saúde humana.  A absorção desses compostos pelo organismo reduz a oxidação celular, também chamada de estresse oxidativo, cujos efeitos foram associados por diversos trabalhos ao surgimento de diabetes, problemas cardíacos, câncer, males neurodegenerativos e ao envelhecimento precoce.

A oxidação é atribuída aos radicais livres, moléculas que se formam por uma reação natural do organismo ao processo de queima do oxigênio pelas células. Como são instáveis, elas se associam rapidamente a outras moléculas próximas, o que pode levar a danos em células sadias. Em 99% dos casos, o corpo repara esses estragos. Mas, se a produção de radicais livres se torna muito grande, fica difícil controlar as consequências da sua multiplicação, a exemplo do envelhecimento precoce e da maior vulnerabilidade a doenças neurodegenerativas, cardíacas e vasculares. Alimentação ruim, radiação ultravioleta do sol, fumo e estresse estão entre os fatores que aumentam o processo oxidativo.  De forma contrária e ministradas em doses adequadas, substâncias como as vitaminas A, C e E, os minerais cobre, o selênio e zinco e os polifenóis, compostos encontrados nos vegetais, exercem ação protetora da integridade celular.

Os ensaios que revelaram a capacidade protetora do guaraná foram coordenados pela pesquisadora Lina Yonekura, atualmente professora assistente da Faculdade de Agricultura da Kagawa University, no Japão. O estudo teve apoio da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo).

Para conhecer mais sobre o potencial dos compostos do guaraná, os cientistas avaliaram o efeito agudo da ingestão da fruta (uma hora após a ingestão) e o efeito prolongado (em jejum).  Na primeira etapa, um grupo de pessoas saudáveis, porém com sobrepeso e risco cardiovascular ligeiramente elevado, seguiu uma dieta controlada por 15 dias. Depois, o grupo passou a receber, pela manhã e em jejum, doses de 3 gramas de guaraná em pó diluídos em 300 mililitros de água. Essa segunda fase durou outros 15 dias. Também foi feito um estudo detalhado para descrever como o corpo humano metaboliza as catequinas, pois pesquisas prévias não localizaram essa informação.

Avaliação pioneira

Com os dados fornecidos pelos exames realizados no grupo de voluntários no primeiro e no último dia de estudo, os pesquisadores puderam medir o impacto da ingestão da catequina no organismo de cada um dos participantes do trabalho. Isso foi avaliado por meio da observação de alguns marcadores. Um deles foi a medida da oxidação da proteína LDL (lipoproteína de baixa densidade, também chamada de colesterol ruim). Em seu estado natural, essa proteína conduz moléculas de colesterol circulantes no sangue para dentro das células, onde elas participam da produção de membranas celulares e de hormônios esteroides (estrógeno e testosterona). No entanto, quando as moléculas do LDL se oxidam, elas se tornam agentes perigosos da deposição de gorduras no interior das artérias e veias, colaborando para a elevação do risco de doenças cardivasculares. Nos testes feitos pelos pesquisadores, o LDL coletado dos voluntários após o consumo do guaraná se mostrou mais resistente ao processo de oxidação.

Outro critério para avaliar as mudanças foi a verificação de certos danos no DNA em algumas células. Neste caso, o foco da equipe recaiu sobre os linfócitos, que são células de defesa do organismo. Colhidas uma hora após o consumo do guaraná, essas células haviam sofrido menos alterações em seu código genético ao serem submetidas a um ambiente oxidativo. As razões possíveis para a reação mais positiva, segundo os pesquisadores, seria a presença de substâncias antioxidantes e/ou o melhor desempenho do sistema antioxidante enzimático dessas células.

A pesquisadora Yonekura afirma que a melhora de todos os parâmetros analisados está relacionada com o aumento da concentração das catequinas provenientes do guaraná na circulação sanguínea. “Vimos que o guaraná era, de fato, o responsável por esse efeito”, disse Yonekura. Segundo a pesquisadora, as  catequinas do guaraná melhoraram o sistema de defesa dessas células contra danos externos e também causados pelo próprio metabolismo. Trata-se de um mecanismo que envolve a ação de pelo menos três enzimas. Nos testes, o aumento na atividade de uma dessas substâncias, a glutationa peroxidase, se manteve até o dia seguinte após a ingestão do pó de guaraná dissolvido em água.

Muito além da cafeína

“Os resultados são animadores e mostram que a  biodisponibilidade das catequinas do guaraná é igual ou superior às do chá verde, cacau e chocolate, sendo suficiente para promover efeitos positivos sobre a atividade antioxidante no plasma (a parte líquida do sangue), proteger o DNA  e reduzir a oxidação das gorduras”, disse Lina Yonekura, coordenadora da pesquisa.

O estudo inaugura novas perspectivas para o aproveitamento da planta. “Até então, o guaraná era visto apenas como estimulante devido ao seu alto teor de cafeína, principalmente pela comunidade científica internacional. No Brasil, também observamos que havia escassez de trabalhos enfocando outros efeitos biológicos. A avaliação pioneira sobre a absorção e os efeitos biológicos de suas catequinas em voluntários humanos pode aumentar o interesse da comunidade científica, do mercado e da sociedade em geral pelo fruto como alimento funcional”, disse a pesquisadora Yonekura.

O artigo que discute os resultados da pesquisa foi destaque de capa da revista Food & Function, da Royal Society of Chemistry, do Reino Unido. O artigo Bioavailability of catechins from guaraná (Paullinia cupana) and its effect on antioxidant enzymes and other oxidative stress markers in healthy human subjects foi publicado no periódico como um dos Hot Articles de 2016 e é assinado por Yonekura e outros dez pesquisadores.