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Gazeta do Povo online

O grande desafio

Publicado em 21 janeiro 2007

Quem sobrevoa o Paraná, do litoral a Foz do Iguaçu, vai se deparar com pequenos nichos de Mata Atlântica espargidos nos extremos do território pelo desmatamento e o acelerado avanço da agricultura e da pecuária. Um retrato desolador, sabendo-se que a Mata Atlântica está reduzida a 6,98% de sua cobertura original. Em 2000, o índice era de 7,1%, como revela a edição 2000/2005 do Atlas dos Remanescentes Florestais de Mata Atlântica, um completo estudo sobre o bioma divulgado pela Fundação SOS Mata Atlântica e Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
O estudo abrange oito estados — Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso do Sul, Paraná, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Santa Catarina e São Paulo —, que somam 79.515.743 hectares, correspondendo a 60% da área do bioma.
Do total de 95.066 hectares de desflorestamento detectados no período de 2000 a 2005, 73.561 hectares — ou 77% do total de remanescentes suprimidos — estão concentrados em Santa Catarina e Paraná. Goiás foi o que mais devastou a Mata Atlântica percentualmente (7,94%), seguido por Mato Grosso do Sul (2,84%), Santa Catarina (2,03%), Paraná (1,34%), Rio Grande do Sul (0,30%), São Paulo (0,19%), Espírito Santo (0,16%) e Rio (0,08%).
Por conta disso e de outros fatores, o homem começa a perceber mais claramente que se meteu numa monumental enrascada com a natureza. São diários e das mais diversas magnitudes os exemplos disso. Do inverno paranaense que tende a ser cada vez menos frio, acompanhando a tendência global, conforme pesquisas do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Paraná, a estalidos e tremores provocados pela acomodação do subsolo.
Diretor do Centro Antropológico para Treinamento e Pesquisa em Mudanças Ambientais Globais da Universidade de Indiana, nos Estados Unidos, o antropólogo Emilio Moran foi um dos primeiros pesquisadores defender um olhar de cientista social sobre o debate do efeito estufa, segundo ele por muito tempo confinado ao âmbito da meteorologia.
Para Moran, que esteve no Brasil em julho do ano passado e deu conferência na Fapesp — Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo —, a melhor forma de sensibilizar as pessoas para o perigo real das mudanças e, assim, provocar transformações em seu comportamento tradicional, "é estudar a dimensão humana do fenômeno, tornando cada vez mais interdisciplinar a pesquisa nesse campo."
E quebrar ciclos viciosos. Em entrevista à Revista [ Pesquisa ] Fapesp, afirmou que é preciso pensar de forma criativa como mudar, onde mudar, porque existe a característica de "não mudar mais que o necessário". Segundo ele, o que se quer saber com alguma certeza é qual mudança é necessária. Aí, prossegue, está o problema, no momento com muitas divergências ainda entre os pesquisadores. Mas é preciso agir, conclama o antropólogo, mas a partir de perguntas integradas, que tenham a ver com a interação entre população e fatores climáticos. Buscando mudança de comportamento, mudanças culturais, mesmo que tardias.