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JC Notícias (São Paulo, SP)

O gênero da ciência

Publicado em 09 março 2020

Diálogo com teorias feministas abre novas frentes de investigação em distintas áreas do conhecimento

Qual o impacto da presença de mulheres na ciência e da discussão sobre gênero nos resultados de pesquisas científicas? Artigo publicado em 2018 na Lancet Oncology mostra, por exemplo, que considerar a variável sexo na compreensão de dinâmicas genéticas e hormonais pode trazer inovação à imunoterapia contra o câncer.

Em 2017, estudo divulgado pela Nature Medicine revelou que a descoberta de diferenças sexuais em padrões moleculares permite aprimorar o desenvolvimento de remédios para alívio da dor e depressão. Em movimento que teve início no final da década de 1980 e ganhou força a partir dos anos 2000, cientistas têm incorporado a análise de sexo e gênero em seus projetos. A medida tem dado novos rumos a estudos em múltiplas áreas do conhecimento, como biomedicina, demografia, inteligência artificial e filosofia.

Nas últimas décadas, governos, universidades e empresas de diferentes partes do mundo têm adotado estratégias para absorver os desafios envolvendo igualdade de gênero e diversidade em carreiras de pesquisa. De acordo com Londa Schiebinger, professora de história da ciência na Universidade Stanford, na Califórnia, Estados Unidos, e diretora do projeto Gendered Innovations in Science, Medicine, and Engineering, a medida diz respeito tanto a inclusão de mulheres quanto a de outros grupos sub-representados.

Além disso, muitas organizações têm se empenhado em promover transformações na cultura institucional, de maneira a permitir que perfis variados ascendam profissionalmente. “Nesse caminho, a incorporação de variáveis de sexo ou gênero voltada à inovação na pesquisa científica representa a área mais nova e importante para o futuro da ciência”, considera Schiebinger, pioneira no mapeamento e sistematização de metodologias que incorporam o viés de sexo ou gênero em análises científicas.

De acordo com ela, o movimento pode favorecer a elaboração de pesquisas com células-tronco e inteligência artificial, estudos nas áreas da ciência da computação e robótica. “Até hoje, a maioria das investigações baseou-se em células e tecidos masculinos quando se estuda seres humanos e animais. Os modelos de referência tratam os homens como norma”, observa a pesquisadora.

As consequências dessa dinâmica passam, por exemplo, pelo desenvolvimento de medicamentos que causam mais efeitos colaterais em mulheres, como é o caso de 10 produtos farmacêuticos retirados do mercado em 2001 pelo governo norte-americano. Na ocasião, constatou-se que oito dos 10 remédios apresentavam maiores riscos para mulheres e quatro deles podem ter causado mais efeitos adversos para elas porque eram prescritos com mais frequência do que aos homens. “O desenvolvimento dessas medicações custou bilhões de dólares e elas causaram morte e sofrimento. A ciência não pode se dar ao luxo de errar”, afirmou Schiebinger durante o 8º encontro do Global Research Council realizado ano passado, em São Paulo.

Leia na íntegra: Pesquisa Fapesp

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