Notícia

Jornal do Brasil

O futuro dos combustíveis no Brasil

Publicado em 06 setembro 2009

Por Josué Luccas

No último século, a cana-de-açúcar produziu álcool com a fermentação do caldo de cana, através de uma bactéria chamada Saccaromyces ceriviciae, que se encontra no ar. Entretanto, nos últimos anos, nossas lavouras receberam os cultivares mais sofisticados e centenas de melhoramentos genéticos, onde, aliados aos modernos processos de produção, chegamos à incrível marca de mais de 360 usinas em todo o país, com uma produção fantástica de 28 bilhões de litros de álcool/ano, contra 24 bilhões de litros de álcool/ano produzidos nos EUA. O mais admirável é que produzimos álcool a US$ 0.28/litro, contra US$ 0.55 por litro de álcool/ano dos EUA, o nosso maior concorrente.

No entanto, o caldo de cana aparece em 8 a 10% do total do processo de esmagamento da canade-açúcar, e o que sobra é uma biomassa não comestível, chamada de biomassa lignocelulosica, mais conhecida como bagaço de cana uma farta matéria prima subutilizada pelas indústrias sucro-alcooleiras para gerar energia para seus próprios fornos.

Os cientistas, há décadas, conhecem cada molécula da composição estrutural desta biomassa, um complexo químico formado por moléculas de celulose, hemicelulose e lignina, das quais já foram obtidos e identificados, em bancada de laboratório e em pequenos protótipos de usinas, vários tipos de biocombustíveis.

Nasce no Brasil a mais nova estrela da indústria nacional, as biorefinarias, onde a partir da biomassa obtemos a celulose, que é base de produção de glucose, resinas, poliésteres, vários tipos de álcoois, o butadieno, que, reagindo com o estireno, produz a borracha sintética, o etileno, que é matéria-prima básica para produção de plásticos, e os biopolímeros, para a produção dos plásticos biodegradáveis.

Da hemicelulose obtemos materiais como o nylon, vários tipos de açúcares e de álcool, o sorbitol e o manitol, para a indústria alimentícia, além de uma extensa cadeia de químicos e fármacos.

Além disso, passaremos também por uma mudança de paradigma nos processos de produção para obtenção de combustível sintético. Isso mesmo: combustível líquido sintético.

O custo é elevado porque depende de altas temperaturas, (800°C), na gaseificação da biomassa para produzir o gás de síntese (o syngas, como é conhecido). Neste caso, ocorre uma reação do monóxido de carbono com hidrogênio, para obtenção de grupamentos funcionais de hidrocarbonetos. A lignina também pode passar por processos térmicos, como a pirólise, e de oxidação, para a obtenção de bioóleos e químicos respectivamente. E esta é uma pesquisa onde a Petrobras e todas as multinacionais da área de petróleo apostam alto.

O biodiesel, tão estratégico quanto a cana, é um assunto à parte e muito extenso, cuja matéria-prima são as oleaginosas. Hoje, utilizamos a soja dado a uma infraestrutura de logística e também porque seus 18% de óleo não agregam tanto valor ao alimento, e sim o farelo de soja, utilizado em toda a ração animal e em nossa indústria alimentícia. Muito em breve utilizaremos outras plantas, como, por exemplo, o pinhão manso e a palma, no Norte do país. O Programa Nacional de Biocombustíveis é um sucesso, administrado por pessoas competentes. Todos os postos do Brasil fornecem o diesel com 4% de biodiesel, o chamado B4, e em 2010 utilizaremos o B5, pois já temos instalações para a produção de 2 bilhões de litros/ano de biodiesel.

Nosso parque industrial conta com 65 fábricas instaladas e o país consome a produção interna dos mais de 40 bilhões/litros/ano de diesel.

Este esforço deve ser reconhecido ao Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) e a seus institutos de pesquisas, ao Programa Nacional de Biocombustíveis (PNB), à Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), à Agencia Nacional de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (ANP), à Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e à Fundação de Amparo a pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), que nos últimos 10 anos investiram aproximadamente R$ 10 bilhões nos estudos em biocombustíveis.