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Correio Popular online

O futuro da medicina

Publicado em 08 setembro 2019

A geneticista e bióloga Mayana Zatz esteve, na última quarta- feira, no Centro Universitário Max Planck (UniMAX), em Indaiatuba, para conversar com alunos, profissionais da saúde e comunidade em geral sobre o futuro da medicina. O evento faz parte do programa Fronteiras na Saúde, promovido pelo curso de Medicina do Centro Universitário Max Planck (UniMAX).

Até novembro ocorrerão encontros gratuitos com profissionais renomados e inspiradores dentro do campus. Na palestra, Mayana abordou os avanços genômicos, medicina personalizada, edição de genes, células-tronco e bioengenharia. Ela conversou com a Metrópole sobre a medicina do futuro, sobre o incentivo em pesquisas e sobre sua vocação para ser cientista que surgiu ainda na infância. Autora do livro Genética: Escolhas que Nossos Avós não Faziam, a geneticista acumula vários prêmios nacionais e internacionais. Recebeu a Ordem Nacional de Grã-Cruz de Mérito Científico do Governo Federal e do Governo de São Paulo.

Entre os prêmios internacionais, destacamse o L’Oreal/Unesco para Mulheres na Ciência (2001), Prêmio TWAS em Pesquisa Médica (2004), Prêmio México de Ciência e Tecnologia (2008) e Prêmio Conte Gaetano por trabalhos sociais (2011). Mayana Zatz, uma das principais especialistas em genética médica e humana do País, nasceu no dia 16 de julho de 1947, em Tel Aviv, Israel, mas é naturalizada brasileira. Possui graduação em Ciências Biológicas pela Universidade de São Paulo (USP), doutorado em Genética, também pela USP, e pós-doutorado em Genética Humana e Médica pela Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos. Atualmente, a palestrante é professora titular de Genética do Instituto de Biociências da USP. Foi pró-reitora de Pesquisa da USP (2005-2009). É coordenadora do Centro de Pesquisas sobre o Genoma Humano e célulastronco (CEGH-CEL) e do Instituto Nacional de Células-Tronco em Doenças Genéticas. Além disso, é membro da Academia Brasileira de Ciências e da Academia de Ciências dos Países em Desenvolvimento (TWAS) e presidente fundadora da Associação Brasileira de Distrofia Muscular (Abdim).

Metrópole: Quais os caminhos que apontam a medicina do futuro?

Mayana: Temos vários aspectos que podem ser relacionados com a medicina do futuro. Um deles é a farmacogenômica ou medicina de precisão. O que seria isso? Hoje sabemos que a respostas às drogas depende do nosso genoma. No lugar de tomar um remédio sem saber se será bom ou ruim para você, será possível tomar remédio de acordo com o nosso genoma. Outra coisa muito importante que tem a ver com as respostas às drogas é a velocidade de metabolização dessas drogas. A mesma dosagem pode ser boa para uma pessoa e pode não servir para outro indivíduo. Hoje, o que acontece é que toda vez que você toma um remédio novo você não deixa de ser uma cobaia, porque não dá para saber o que vai acontecer. Para ajudar isso fizemos um banco genômico da nossa população.

Pode explicar melhor como funciona esse banco genômico da população idosa brasileira?

Com apoio da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), foram sequenciados os genomas de cerca de 1300 pessoas com mais de 60 anos, constituindo o primeiro e maior banco genômico da população idosa brasileira, que contribuirá para a identificação dos fatores genéticos e ambientais responsáveis por um envelhecimento saudável. Os resultados são extremamente interessantes, primeiro porque queremos entender o quanto é genético e ambiental para uma pessoa envelhecer de forma saudável. Mas, outro pronto é que é extremamente importante para interpretar mutações genéticas. Para se ter uma ideia, achamos sete bilhões de variantes que não estavam nos bancos internacionais, isso por causa da miscigenação da nossa população. Começamos esse projeto em 2008.

E sobre a edição do genes?

Se você tem um gene que causa uma doença conseguimos, hoje no laboratório, fazer uma linhagem celular e reprogramar as células e fazer neurônios. Isso abre possibilidades enormes de tratamento. Podemos no laboratório editar os genes e ver no laboratório se a tecnologia pode reverter uma doença. Isso vai acelerar muito o processo.

A senhora falou também da bioengenharia de tecido e do xenotransplante, pode explicar?

A bioengenharia de tecido consegue, a partir do sangue, fazer qualquer tipo de tecido. Para se ter uma ideia, pegamos um fígado de um rato e tiramos todas as células do fígado dele. Isso é uma outra maneira de substituir os transplantes e sem ter rejeição. Outra tecnologia é xenotransplante, um transplante de órgãos entre duas espécies diferentes, no caso, o porco e o homem. Isso porque sabemos que os porcos são os melhores doadores de órgãos. Os órgãos dos suínos são muito semelhantes aos de humanos, mas se fossem transplantados hoje seriam rejeitados. A ideia é modificálos para que se tornem compatíveis com o organismo humano, isso evitaria a rejeição. Isso abre uma possibilidade de reduzir ou até mesmo acabar com a fila de transplante de órgãos no Brasil.

E isso é para um futuro distante ou deve ocorrer em breve?

Isso já está sendo trabalhado e faz parte de um futuro breve.

Como estão os investimentos em pesquisas?

As tecnologias todas estão sendo desenvolvidas, mas estamos sofrendo uma crise enorme nos cortes de bolsas e pesquisas. Então enquanto falamos dos avanços que já estão acontecendo no resto do mundo, estamos brigando para conseguir bolsas. Pesquisa é algo que, se interrompe, não volta atrás. Estamos perdendo jovens que estão indo embora para outros lugares e não vão voltar. Nações de economia forte e com os melhores índices de desenvolvimento humano do mundo investem massivamente em pesquisa, educação e tecnologia. Os países que tiveram um salto qualitativo enorme foram os que investiram mais em pesquisa, ciência e tecnologia principalmente durante os períodos de crise. E, infelizmente isso não está ocorrendo conosco.

Sempre quis ser uma cientista?

Desde criança tinha um encantamento e achava o máximo as histórias dos cientistas, livros, plantas. Mas eu tinha tendência também para a área da medicina. No segundo grau me apaixonei pela genética e tive a certeza que era isso que eu queria fazer. Mas não tinha essa noção que iria ser essa explosão que tivemos. Com os avanços das tecnologias conseguimos evoluir bastante.

Já teve algum tipo de discriminação por ser mulher?

Nunca me senti discriminada por ser mulher. Na área biológica não há discriminação, os salários são iguais, as oportunidades são iguais. Nunca passei por isso.