Notícia

O Liberal (PA)

O futuro da ciência na Amazônia

Publicado em 01 janeiro 2000

Em uma região pouco desenvolvida, será que a ciência deve ser uma prioridade para investimentos, quando há tantas necessidades urgentes de um povo sofrido, desde acesso à terra até o ensino básico, energia elétrica e remédio? Aqui estamos: na região mais rica em biodiversidade do País mais rico em biodiversidade do mundo. Que não por acaso também é a região mais rica em recursos hídricos, justamente quando estes estão tomando-se cada vez mais escassos para um planeta com sede. A Amazônia também é uma das regiões mais ricas em recursos minerais do mundo e igualmente abonada em diversidade cultural. Em seu vasto território encontram-se mais de 150 línguas indígenas, sem falar da riqueza representada pelos remanescentes de quilombos, os ribeirinhos, os seringueiros e os outros povos tradicionais. Amazônia: o Eldorado do Eldorado. Portanto, a ciência na Amazônia tem diversas vocações naturais: a biologia (em todos os seus aspectos), a hidrologia e estudos afins, as ciências da terra e as ciências humanas. Além disso, há as ciências aplicadas que visam melhorar a qualidade de vida, entre essas todos os ramos da saúde, da silvicultura e agricultura e da engenharia. Com essas vocações para ciência na Amazônia e uma demanda para seus resultados tão grande, seria natural que a ciência estivesse bem desenvolvida e priorizada na região. Infelizmente, não é assim. Somos discriminados em tudo que diz respeito ao investimento em ciência. Enquanto nós da região Norte somamos 6,8% da população nacional, temos apenas 1,9% dos programas de pós-graduação e recebemos apenas 0,7% das bolsas para o doutorado. Dos investimentos totais em pesquisa, recebemos apenas 2% do dinheiro desembolsado pelo CNPq. No Pará, temos o Fundo Estadual de Ciência e Tecnologia (Funtec), que ajuda a minimizar essas distorções, mas o Pará é o único Estado do Norte com um fundo similar Além disso, o Funtec recebe apenas 0,4% das receitas líquidas do Estado, enquanto a Fapesp do Estado de São Paulo recebe 1,0% de um bolo infinitamente maior. Há de se desenvolver estratégias para uma saída desse dilema. Uma é aumentar os investimentos nos centros de ciência e nas universidades. Uma simples retificação dos investimentos federais em ciência na região implicaria mais do que triplicar os recursos financeiros disponibilizados. Como a formação de novos recursos humanos é uma empreitada de médio e longo prazo, a escassez de pessoas treinadas tem que ser resolvida, no curto prazo, por uma estratégia de importação de cientistas de outras regiões (estão muito mais abundantes no Sudeste) e até do exterior. Isso pôde ser feito com contratos ou com bolsas de desenvolvimento regional. Concomitantemente, é urgente que os cientistas, já amantes na região não saiam, o que requer, entre outras coisas, uma reposição salarial emergencial baseada em produtividade para quem se dedica à ciência na Amazônia. Não se fixa nenhum cientista com os atuais R$ 2.000 líquidos pagos aos pesquisadores doutores dos institutos de pesquisa da região. Ampliar a capacidade científica na região é fundamental para enfrentar os desafios de gerenciamento dos nossos recursos naturais e culturais. O que precisamos é um comando melhor do conhecimento sobre essa riqueza. Quase semanalmente há novas denúncias sobre biopirataria na região. O ministro do Meio Ambiente denunciou na Imprensa que, por mais importante que seja inibir a ação dos piratas, o Ibama não tem condições de impor respeito maior. A arma mais eficaz que podemos ter contra a biopirataria é informação básica sobre a flora e a fauna. É urgente reforçar nossos conhecimentos sobre a classificação e distribuição das plantas e animais que vivem no País. Neste contexto, é importante notar que o inventário biológico do País ainda não foi sequer iniciado de forma sistemática, como já está previsto no Programa Nacional de Biodiversidade (Pronabio), coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente. Nos Estados Unidos, um país com muito menos biodiversidade do que o Brasil, o inventário biológico data da Expedição Lewis e Clark, que desvendou o Oeste do continente norte-americano, embarcando em maio de 1804 de St. Louis, Missouri, e chegando por terra ao Pacífico em 1805. Enquanto nós ainda nem começamos o nosso inventário, os EUA estão para festejar 200 anos dedicados à atividade. Depois de sete meses da desastrada administração de Bresser Pereira frente ao Ministério da Ciência e Tecnologia, o governo FHC finalmente mostrou a devida atenção à pasta, nomeando o embaixador Ronaldo Sardenberg para ocupá-la. Homem culto, de rara sensibilidade e uma visão estratégica aguda, o ministro Sardenberg, desde já, está elaborando uma nova política para a doida e tecnologia na Amazônia, onde os órgãos oficiais, os institutos e as universidades terão um papel mais importante na formação de políticas públicas para ciência e tecnologia para a região. Apesar de economicamente pouco desenvolvida, a Amazônia conta com algumas instituições excepcionalmente bem posicionadas para ajudar no desenvolvimento de um programa integrado de ciência e tecnologia para a região. Temos a Universidade Federal do Fará, a acuidade de Ciências Agrárias do Pará, a Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias (Cpatu), a Estação Ecológica de Mamirauá e o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), entre outros, que desempenham papéis da mais alta relevância nas suas áreas de atuação. Além disso, podemos observar o fortalecimento de universidades estaduais e particulares, bem como Organizações Não-Governamentais. Espera-se que o Fará raça justiça a sua história e continue a liderar esse processo de consolidação da ciência e da tecnologia na região. Não é por acaso que é no Pará onde se localiza a mais antiga instituição de pesquisa da região: o Museu Paraense Emílio Goeldi. O Museu Goeldi desempenha um papel de destaque na pesquisa básica sobre a região e está em uma posição estratégica, com suas coleções, equipes de técnicos, biblioteca especializada, capacidade de difusão científica e mais de um século de tradição de, junto com as outras instituições, desenvolver ciência paira solucionar os problemas amazônicos. Com uma nova percepção do papel da ciência e tecnologia para uma vida mais plena dos cidadãos, é o próprio futuro da Amazônia que será melhor com a consolidação de uma política mais coerente. É no investimento na ciência e tecnologia que estão muitas das saídas para os desafios que os amazônidas enfrentam no seu dia-a-dia. Uma melhor qualidade devida, mais alternativas econômicas, trabalho digno e bem remunerado, saúde e maiores oportunidades de educação de qualidade. Eis o desafio que nossos governantes enfrentam e podemos ver que pelo menos alguns elementos para sua solução estão no lugar.