Notícia

Jornal da USP

O futuro ameaçado

Publicado em 03 junho 2002

Por ANDRÉ CHAVES DE MELO
Estudo de pesquisadores do IPq mostra que o consumo de drogas, legalizadas ou não, por adolescentes e jovens entre 14 e 21 anos, aumenta a probabilidade de adoção de práticas sexuais de risco, o que representa, no conjunto, um comportamento autodestrutivo Se depender da frieza dos números e do calor de determinadas atitudes de risco do jovem paulistano, há nuvens muito escuras diante do futuro de uma nova geração. Em uma coletiva realizada no dia 23 de maio pesquisadores do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas (Grea) e do Projeto Sexualidade (Prosex), ambos do Instituto de Psiquiatria (IPq), revelaram um dado assustador: de 689 estudantes pesquisados em uma escola pública de ensino médio da zona oeste de São Paulo, todos na faixa dos 14 aos 21 anos, 85,12% já experimentaram, pelo menos uma vez na vida, algum tipo de droga, incluindo as permitidas por lei, como álcool e tabaco. Desse total, 53,1% tiveram experiências com drogas ilícitas. Esses e outros dados representam os primeiros resultados de um estudo intitulado "Uso de Substâncias Psicoativas e Comportamento Sexual de Risco em Adolescentes", publicado na edição do mês de maio da revista científica especializada norte-americana Substance Use & Misuse. A entrevista foi realizada no Anfiteatro do IPq, que é ligado ao Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina (FM) da USP. De acordo com Arthur Guerra de Andrade, coordenador do Grea, esses dados estão relacionados à adoção de um comportamento sexual de risco por parte dos jovens consumidores de drogas. "Cerca de 83% dos usuários de drogas ilícitas já tiveram relações sexuais completas, enquanto esse índice cai para 53% no caso dos usuários de drogas lícitas", informa. "Outro dado alarmante é que apenas 56,8% dos jovens que consomem drogas ilícitas usam preservativos durante o ato sexual, número que sobe para 65,3% no caso dos consumidores de drogas lícitas, principalmente tabaco e álcool", declara. "E cerca de 44,6% dos meninos consumidores de drogas já apelaram, pelo menos uma vez na vida, para a prostituição como forma de conseguir manter uma relação sexual enquanto no grupo dos não consumidores esse número cai para 18,9%, sendo que, no caso das meninas, usuárias ou não de drogas, essa prática não foi detectada." Agora, quando o tema passa pela quantidade de jovens que se prostituem para poderem obter drogas, os índices entre homens e mulheres praticamente foram os mesmos, ou seja, cerca 2,3% dos usuários de drogas lícitas e 3,7% dos usuários de drogas ilícitas. "Um dos muitos objetivos do projeto é tentar entender como o uso de drogas se relaciona com práticas sexuais de risco em adolescentes e de que forma ambos podem ser entendidos como manifestações de um comportamento extremamente autodestrutivo", diz Guerra. Além dele, estiveram presentes na coletiva Wagner F. Gattaz, diretor do Laboratório de Neurociências da FM, Sueli de Queiroz e Sandra Scivoletto, respectivamente diretora de prevenção e coordenadora executiva do Grea, e Vanise dos Santos, pesquisadora do Prosex que representou sua coordenadora, Carmita Najar. A pesquisa foi apoiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que forneceu 33 bolsas de estudo para professores que foram capacitados para lidar com o tema, aprendendo a identificar, abordar e encaminhar para tratamento alunos com problemas, sem repressão, por meio da incorporação dos temas drogas e comportamento sexual de risco aos currículos de suas disciplinas. "As bolsas foram fornecidas no sentido de estimular os docentes a participarem da proposta sendo que, em alguns casos, o incentivo dobrou o salário", diz Wagner F. Gattaz. "Mas a integração da comunidade, com a participação de pais e alunos, foi que permitiu a realização do projeto." A iniciativa durou quatro anos e foi dividida em três etapas. A primeira caracterizou-se pela criação de um diagnóstico da situação dos alunos e sua convivência com os assuntos drogas e sexo. A situação encontrada foi de despreparo dos professores e falta de informação dos jovens. Por exemplo, o número de casos de gravidez precoce girava entre três e quatro por ano, dado visto pela equipe como alarmante. O uso de drogas também era elevado e preocupante, pois a quantidade de fumantes de tabaco (cigarro) era grande e a de maconha era quase do mesmo tamanho. Na segunda fase ocorreu o trabalho educativo de capacitação dos professores, inserindo conhecimentos e experiências gerados na Universidade dentro da escola. Posteriormente, os especialistas do IPq e os professores passaram à etapa de conscientização de todos os envolvidos. "Aos poucos, a comunidade escolar percebeu que não havíamos chegado com a solução pronta, mas sim que as estratégias para melhorar sua realidade deveriam ser criadas por todos, no dia-a-dia", relata Gattaz. Segundo os pesquisadores, o jovem busca as drogas por curiosidade e existe uma seqüência previsível de substâncias que podem ser experimentadas, sendo o álcool o líder da lista, pois, como não é reconhecido pela legislação como uma droga, chega de maneira fácil ao adolescente que, normalmente, tem seu primeiro contato com a bebida logo cedo, aos 11 anos, enquanto o tabaco passa a ser conhecido aos 12 e a maconha, por volta dos 13 anos. "Uma das alternativas é a aplicação de uma legislação mais dura para as bebidas alcoólicas, com relação às punições para os donos de estabelecimentos que vendem esses produtos para menores de idade e, principalmente, que imponha limites para as propagandas, voltadas para os futuros consumidores, caso de algumas bebidas com altos teores alcoólicos que são apresentadas pelos fabricantes como refrescantes, quase refrigerantes", defende Guerra. "Não se trata de proibir o consumo de álcool, mas de torná-lo racional, para não trazer riscos à sociedade. Apesar do tabaco oferecer graves riscos para a pessoa, como a possibilidade de desenvolver câncer, nunca vi alguém fumar um cigarro e sair dirigindo embriagado, representando perigo para todos que cruzar sua frente, o que acontece se consumirmos álcool em excesso." JUVENTUDE EM RISCO De acordo com a equipe, quanto mais cedo ocorrer o contato com as drogas, maiores são os riscos dos jovens desenvolverem a dependência. "Isso ocorre porque, nessa fase, o indivíduo está formando sua personalidade, baseada em vários fatores, inclusive nos laços de sociabilidade. Desde cedo, então, ele passa a associar momentos de prazer e lazer com o consumo de drogas, ou seja, um hábito que torna-se quase que parte da personalidade do indivíduo", explica Guerra. "Portanto, temos que evitar ou postergar ao máximo o contato dos jovens com as drogas, o que é possível por meio da educação." Estudos anteriores feitos pelos pesquisadores do Grea mostram que, de cada dez adolescentes que experimentaram maconha, pelo menos um vai desenvolver a dependência. Outro problema que chamou a atenção da equipe, que obteve esses e outros dados por meio de questionários que foram preenchidos anonimamente pelos alunos, está no alto número de casos de jovens que usam duas ou mais drogas em combinação, o que potencializa todos os problemas. Só para se ter uma idéia, 219 jovens apareceram como consumidores de tabaco e álcool, 98 de tabaco, álcool e maconha, 25 de álcool, tabaco, maconha, cocaína e inalantes e 48 de todos os já citados mais os alucinógenos. A terceira etapa do projeto, realizada após o trabalho educativo, foi caracterizada pela confecção de um novo diagnóstico da situação. Os resultados, ainda não totalmente tabulados, são animadores. Nos últimos três anos não houve nenhum registro de gravidez e a quantidade de drogas consumida caiu bastante. O consumo de maconha, por exemplo, é de cerca de um quarto do que era antes, o de cocaína e crack, um terço, e o de inalantes (cola de sapateiro, lança-perfume, solventes, entre outros) caiu pela metade. "Os resultados provam que, quando há um trabalho educativo sério, baseado na informação, que envolve toda a comunidade, sem aquela relação de imposição de cima para baixo, as chances de dar certo são muito grandes", enfatiza Gattaz. "Nossas próximas metas serão a publicação de um artigo científico com os resultados do trabalho educativo, de maneira detalhada, e a elaboração de uma cartilha, a qual será distribuída pelas escolas do País no sentido de servir como material de apoio para a ação de outras comunidades." Segundo a equipe do projeto, 58% dos alunos da escola são oriundos da classe média, 19,8% das classes A e B e 22,2% das classes mais baixas, todos divididos em dois períodos de aulas: diurno e noturno. Do total de estudantes, 58,8% são meninas. De acordo com os pesquisadores, apesar de analisar apenas uma escola, o projeto permitiu traçar um bom panorama do contexto das escolas da Grande São Paulo, além de mostrar que é possível melhorar o quadro. Para Guerra, em escala nacional a aplicação dos dados colhidos não é possível, pois induziria a erro, sendo necessário, para isso, a viabilização de um estudo muito mais amplo, que analisasse diferentes contextos escolares de todo o Brasil. "O que fica é a certeza de que, quando a informação e a união chegam aos locais mais necessitados, permitem que uma comunidade se envolva em um programa de prevenção, de defesa dos seus jovens, sendo o tratamento apenas uma forma de auxiliar, de corrigir os problemas já instalados."