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Esquerda Marxista

O futebol tem que parar – Qual o papel do esporte e da CBF na pandemia?

Publicado em 31 março 2021

Mesmo com o Brasil caminhando para 350 mil mortes — picos de mais de 2 mil por dia — e 15 milhões de infectados pela Covid-19, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) insiste na continuidade dos campeonatos nacionais e estaduais. Dessa forma, a entidade responsável pelo esporte mais popular do país cumpre um papel político e econômico a serviço de uma elite nacional mesquinha e, por que não, assassina.

CBF na contramão

Os órgãos sanitários pedem ampliação do isolamento social, para amenizar a taxa de contágio e desafogar o sistema de saúde — que está em colapso. O Brasil vive o pior momento da crise epidemiológica, com aumento das infecções e mortalidades, centenas de pessoas morrendo sem conseguir vaga em leitos médicos, falta de oxigênio e escassez de insumos hospitalares.

Medidas como quarentena e lockdown são consensos na comunidade científica para contenção da pandemia. Entretanto, o que a CBF e suas federações regionais promovem vai no caminho oposto do combate à crise. A continuidade do calendário de competições difunde a circulação de pessoas na cidade, realiza aglomeração de atletas (concentração, ônibus, vestiário e campo de jogo) e reúne profissionais esportivos (arbitragem, técnicos de manutenção, estrutura, segurança e imprensa esportiva). Se não bastasse, os jogos entre agremiações de cidades diferentes mobilizam delegações com centenas de pessoas de um canto do país para outro, movimentando aeroportos e hotéis.

Uma reportagem de O Globo apurou que somente no final de semana de 13 e 14 de março houve um deslocamento de 1.800 pessoas para a disputa de 62 jogos, com circulação entre 106 cidades! Essa situação se repete semanalmente.

A pandemia descontrolada tem gerado novas cepas do vírus, como a variante de Manaus — que tem ao menos o dobro da carga viral. Inicialmente, essa nova linhagem do Sars-CoV-2 estava restrita à região amazônica. Competições nacionais como o Campeonato Brasileiro e a Copa do Brasil realizam intercâmbio com centenas de pessoas de norte a sul. A cepa de Manaus se espalhou e virou a linhagem brasileira, mas o descontrole da pandemia amplia a possibilidade de novas variantes ainda mais potentes surgirem, e o futebol tem sido uma das formas de ligação física, uma ponte, entre comunidades que deveriam estar isoladas

Em março, após a partida entre o América Mineiro e o Athletic, em Juiz de Fora/MG, pela Copa do Brasil, o técnico do América, Lisca, fez um desabafo sobre os jogos que envolvem viagens longas na pandemia:

É quase inacreditável que saiu uma tabela da Copa do Brasil hoje, com jogos dias 10 e dia 17. Oitenta clubes que nós vamos levar jogadores com delegação de 30 pessoas de um lado para o outro no país. O nosso país parou, gente. Não tem lugar nos hospitais, eu estou perdendo amigos, estou perdendo amigos treinadores. Não é hora mais, é hora de segurar a vida. Aqui no Mineiro tudo bem, é mais perto, mas vai pegar uma delegação do Sul e levar para Manaus, como que vocês vão fazer isso. Nós estamos apavorados”.

Centenas de atletas famosos e cronistas esportivos também se pronunciaram criticando a continuidade dos jogos na situação de colapso sanitário. Porém, os dirigentes futebolísticos permaneceram insensíveis.

Federações manobram os decretos oficiais

A pressão aumentou com os hospitais transbordados sem capacidade de atendimento aos enfermos, o que levou prefeitos e governadores a endurecerem medidas pelo isolamento social (ainda que com amplitude insuficiente, flexibilizando alguns setores e não dando suporte aos trabalhadores).

Em São Paulo, o Ministério Público recomendou ao governador do estado, João Doria (PSDB), a suspensão do futebol enquanto durar a fase vermelha e a fase emergencial — as mais restritivas. Antes de a competição ser efetivamente paralisada, a Federação Paulista de Futebol (FPF), com acordo dos clubes, levou os jogos entre Corinthians x Mirassol e São Bento x Palmeiras, pelo Campeonato Paulista, para a cidade de Volta Redonda, no Rio de Janeiro. Para o espanto, o prefeito de Volta Redonda, Antônio Francisco Neto (DEM), aceitou ceder o Estádio Municipal Raulino de Oliveira em troca de dez respiradores e monitores para leitos de UTI, em falta no município.

As federações estaduais de futebol seguem o caminho da confederação nacional. Algumas pagam testes para os jogadores, como a Paulista, mas outras não. Nas cidades nas quais os prefeitos e governadores impuseram a proibição do futebol, as federações simplesmente encontraram uma forma de burlar as determinações sanitárias, remarcando os jogos para outras cidades em que os eventos estão autorizados. Ou seja, descumprindo determinação oficial e promovendo movimentação de pessoas de uma cidade para outra.

Pela Copa do Brasil, a Arena Pantanal em Cuiabá/MT recebeu o jogo entre Galvez do Acre e Atlético Goianiense, foi a forma que a CBF encontrou de driblar as restrições impostas na região Norte — promovendo encontro de delegações e imprensa de três Estados (Goiás, Mato Grosso e Acre). O episódio aconteceu na semana em que era anunciado pela primeira vez o número de mais de 2 mil mortos em um dia e que faltava oxigênio nos hospitais de Manaus.

Tudo pelo espetáculo

Os capitalistas do futebol nadam em um mar de sangue para manter seus contratos multimilionários no esporte. Inclui-se nesse grupo os investidores, as TVs e os grupos de imprensa que transmitem as disputas.

Ou alguém tem dúvida de que os conglomerados que investem no futebol — como Ambev, Vivo, Mastercard, Fiat e Itaú — têm acordo na continuidade do esporte no atual momento? Se não tivessem, retiravam suas receitas. Para eles, a bola tem que rolar. Não possuem o mínimo pudor se os atletas ou o faxineiro do estádio estão levando vírus para dentro de casa.

Alinhamento ideológico

A continuidade do futebol nesta situação exerce uma função ideológica, de dizer que as coisas devem continuar ao normal, mesmo na situação pandêmica. Afinal, se o futebol que é uma diversão não parou, por que o comércio, as escolas, as fábricas devem fechar? É a linha impressa pelo “bolsonarismo” — fanáticos que apoiam ideologicamente o presidente, em grande parte pequenos comerciantes e autônomos desesperados com a crise econômica.

Os dirigentes da CBF estão alinhados com o governo Bolsonaro que, como é de conhecimento, combate as medidas sanitárias contra o coronavírus (uso de máscaras, vacinação e a campanha fica em casa). E o presidente da República busca se apoiar na popularidade do futebol, aparecendo em partidas de futebol e usando cotidianamente camisetas de diversas agremiações.

Protocolos não funcionam

No ano passado, os casos de infecção de Coronavírus entre os jogadores de futebol foram gradativamente aumentando conforme os campeonatos aconteciam.

Uma reportagem do jornalista Roberto Maleson (Ge) com dados do levantamento feito pelo economista Bruno Imaizumi, mostrou que a evolução de casos nas equipes de Série A do Campeonato Brasileiro, segue a mesma curva de contaminação da média móvel de casos no país. Ou seja, sugere que os protocolos de segurança realizados pelos clubes não são eficazes.

A CBF e as Federações argumentam que seguem planos de segurança, no entanto, não há fiscalização alguma que eles sejam cumpridos. Prova maior, é o que aconteceu com o Campeonato Brasileiro de 2020, segundo o site Globo Esporte, foram 341 casos confirmados somente entre os atletas das equipes da Série A — considerando que nem todos os casos foram divulgados pelas agremiações. Também foram infectados 18 treinadores.

Os dados não consideram a contaminação entre integrantes das comissões técnicas, funcionários das agremiações e imprensa esportiva. Todos os clubes tiveram casos confirmados no decorrer da competição. Se fosse considerado as competições da Série B, Série C, Série D e Estaduais os números certamente seriam na casa dos milhares — o problema é que não existe um levantamento para ser apresentado.

Em janeiro, no jogo entre CSA de Alagoas e Avaí de Santa Catarina, pela Série B do Brasileiro, o atleta Valdívia atuou o primeiro tempo inteiro da partida contaminado pelo coronavírus, houve um atraso em seu teste que só foi confirmado no intervalo de jogo.

Em coletiva de imprensa no dia 10 de março, a comissão médica da CBF afirmou que a testagem geral dos atletas contribui para controlar a contaminação, ao detectar os assintomáticos e isolá-los em quarentena. O que seria verdadeiro se os testes de fato fossem aplicados a todos os atletas, comissão técnica, imprensa e trabalhadores de apoio de todos os eventos futebolísticos do país. Na prática, somente os atletas das principais competições nacionais são testados.

Bráulio Couto, epidemiologista e consultor da CBF, afirmou que não há evidências de contaminação dentro de campo, entre os jogadores. Mas reconheceu que o contágio acontece na quebra de protocolos, fora de campo:

“A contaminação [do atleta] não ocorre em campo, mas por comportamento social e quebra de protocolo”.

Por mais que os atletas estejam sendo acompanhados, a logística de um jogo de futebol profissional movimenta centenas de pessoas — não testadas — e aumenta potencialmente a difusão do vírus.

No estudo mais recente sobre o assunto, coordenado pela Universidade de São Paulo (USP) e divulgado neste dia 30 de março, apontou que o índice de infecção pelo coronavírus em atletas que disputaram torneios da Federação Paulista de Futebol é semelhante ao de profissionais de saúde que atuam na linha de frente de combate à pandemia:

“O estudo, que é assinado também pelo presidente da Comissão Médica da FPF, Moisés Cohen, demonstra que 11,7% dos jogadores testados tiveram diagnósticos positivos para a doença. Entre as equipes de apoio (comissão técnica, dirigentes, funcionários, etc), o índice é de 7%. Os dados foram divulgados pela Agência Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Foram analisados cerca de 30 mil testes RT-PCR de 4.269 atletas, com 501 positivos. Entre os demais funcionários, foram 161 positivos em 2.231 testados.” (Globo Esporte)

Coordenador da pesquisa e professor da Faculdade de Medicina da USP, Bruno Gualano admitiu que há pouca possibilidade de contágio entre os atletas. No entanto, destacou que eles tendem a desenvolver sintomas leves ou serem assintomáticos, e, por serem pessoas com vidas sociais ativas, agem como vetores de transmissão.

Equipes dilaceradas

Houve casos de equipes inteiras infectadas, como Vasco-RJ e Fluminense-RJ que tiveram 26 casos confirmados em pouco mais de uma semana. O Guarani de Campinas teve que jogar uma partida decisiva, disputando o acesso à elite, desfalcado de 17 jogadores, que testaram positivo para a Covid-19. O Guarani tinha apenas 12 atletas disponíveis para o jogo, 11 seriam titulares e apenas 1 ficaria no banco de reservas. A CBF não quis cancelar a partida alegando compromissos contratuais (com os capitalistas da bola, certamente). Como o protocolo da Confederação exige ao menos 13 jogadores de cada lado para uma partida ser iniciada, o Guarani teve que convocar o volante Lucas Abreu, que se quer estava relacionado para o duelo. O jogador teve que pegar um avião às pressas em Campinas e chegou em Cuiabá faltando 18 minutos para o início da partida, nem para o aquecimento conseguiu ir.

As entidades que comandam o futebol se reuniram novamente neste final de março, reafirmaram a manutenção das competições e um suposto endurecimento no protocolo de segurança. Estudam isolar atletas e comissão técnica nos centros de treinamentos. Porém, mesmo assim as delegações continuariam se locomovendo de um lugar para o outro para a realização dos jogos — incluindo estadia em hotéis. Isso para os clubes da elite do futebol.

Na realidade da maioria dos times brasileiros a situação é ainda mais complicada. Campeonatos acontecem por praticamente todo o território nacional sem exigência de testagem antes das partidas, como é o caso do Campeonato Mato-grossense. Em outras palavras, a contaminação é descontrolada e livre. Somente colocam um estagiário para bater a foto passando álcool em gel nas mãos dos atletas, como se apenas isso fosse o suficiente.

Qual o limite da prática esportiva?

Na sociologia, discute-se o esporte como um processo civilizador, entre outras abordagens. Nessa perspectiva, o esporte evoluiu a partir dos antigos jogos europeus com um sistema de regras para controlar a violência e as emoções em um nível socialmente aceitável, civilizado, de modo que as condições de disputas sejam iguais e duradouras o bastante para promover excitação e repetição por várias vezes. O que se vê agora, é que o futebol rompe todos os limites ao insistir na realização do evento a qualquer custo, ignorando inclusive as condições de disputa entre os próprios praticantes.

A entidade que regula o desporto, adota as mesmas teses do setor burguês que combate o isolamento social dizendo, hipocritamente, que basta seguir os protocolos de segurança que o que comércio e a indústria têm condições de continuar funcionando. Como se os trabalhadores não precisassem pegar os ônibus lotados para chegar ao local de trabalho, ou como se a circulação de pessoas não espalhasse o potencial de contaminação. O futebol acaba funcionando como uma espécie de ópio para ludibriar a situação dramática.

O que deveria ser feito?

O futebol profissional precisa ser imediatamente interrompido em todo território brasileiro. O esporte pode esperar, vidas não. É preciso combinar a suspensão com a exigência de manutenção de todos os contratos trabalhistas, custeados pela CBF, pelos patrocinadores que lucram muito com o futebol e pelos clubes. A Confederação Brasileira acumula milhões de reais em arrecadação com o esporte. Os clubes menores, que não possuem capacidade de manter atletas sem calendário de competição, devem receber auxílio da CBF e do governo para manter os postos de trabalho.

Obviamente que essa hipotética solução só pode se concretizar com pressão social e com determinação presidencial, algo que Bolsonaro não irá fazer. Por tanto, é necessário e urgente a derrubada imediata de todo o governo Bolsonaro, varrendo, inclusive, a corrupta e mesquinha direção da CBF e federações. A administração de um esporte com enormes apelos culturais e sociais não pode estar a serviço do capital, são os atletas e os torcedores que devem democraticamente decidir seus rumos.

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