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Eco Spy Brasil

O faxineiro do ar

Publicado em 01 março 2005

É conhecido o papel benéfico das florestas na manutenção do equilíbrio de nosso planeta. E algumas espécies ajudam mais que outras:  um fascinante  estudo feito com o Hyrnenaea courbaril (o jatobá) mostra como essa árvore pode ajudar a diminuir as concentrações de gás carbônico na atmosfera.
Um grupo de especialistas em fisiologia vegetal do Instituto de Botânica de São Paulo acredita que o jatobá pode ser um dos principais seqüestradores de dióxido de carbono da atmosfera. Uma série de experimentos mostrou que essa árvore tem a propriedade de acelerar a absorção do gás em ambientes artificialmente saturados. Marcos Silveira Buckeridge, coordenador da pesquisa desenvolvida no âmbito do Biota-FAPESP, programa que estuda a biodiversidade paulista, diz: "Nossa proposta não é sair plantando florestas de jatobá pelo país na esperança de diminuir o efeito estufa. Mas, sim, entender quais os principais mecanismos fisiológicos envolvidos na assimilação e processamento do carbono dessa árvore e de outras que tenham metabolismo semelhante".

O mundo em perigo
A elevação nos níveis de dióxido de carbono na atmosfera se deve basicamente a mudanças no uso do solo (derrubada e queima de florestas) e à atividade industrial, que sofreu grande incremento no último século. Medidas de aplicação global para combater problemas ambientais, entre os quais o aumento do efeito estufa, têm sido discutidas mundialmente. Diminuir as emissões desse gás, proposta do Protocolo de Kyoto, seria a atitude mais racional e eficiente, mas também a de mais difícil execução, pois os Estados Unidos, que sozinhos despejam um quarto do CO lançado na atmosfera, recusam-se a assumi-lo.

Na contramão da poluição
Entre as propostas alternativas ou complementares à redução na emissão de CO a manutenção das matas tropicais é freqüentemente apontada como capaz de atenuar as mudanças climáticas, sobretudo devido ao potencial de seqüestro de carbono realizado pelas arvores . Um potencial que ainda está longe de ser bem conhecido e pode variar muito devido a fatores como a idade e o tipo de arvore analisada E nesse contexto que se encaixam os estudos dos pesquisadores do Instituto de Botânica sobre o metabolismo do jatobá em ambientes ricos em dióxido de carbono.
"Temos pouco tempo" Na opinião de Buckeridge, faz-se necessário mais investimento e mais direcionamento estratégico nas pesquisas. Por exemplo, é preciso aplicar dinheiro em projetos de reflorestamento, mas também pensar em entender melhor corno funcionam os processos relacionados à regeneração dessas florestas. Seria importante que mais grupos por todo o país trabalho em pesquisa para formar a base técnica necessária para que o reflorestamento seja feito de forma correta. Para isso é preciso investimento em pesquisa e o dinheiro vindo das empresas como pagamento por poluir com CO reverte muito pouco para esse tipo de atividade. Nosso grupo tem obtido financiamento suficiente para pesquisa graças à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), com o Programa BIOTA. Mas precisamos de mais. Temos de ind ir rápido, porque o grande problema é que, no caso das mudanças climáticas, não temos muito tempo. Serão apenas 50 anos antes que a concentração de gás carbônico dobre no planeta e as conseqüências disso poderão ser drásticas , alerta Buckendge

Como o jatobá trabalha
Marcos Buckeridge explica como se dá o seqüestro de gás carbônico: "Nas folhas de um jatobá (de todas as plantas, na realidade) existem como se fossem boquinhas, ou microboquinhas — os estômatos — que se abrem todo dia por volta das 8h30 da manhã. Por elas entra o gás carbônico e a planta realiza a fotossíntese.
Mas o que observamos também é que, com as emissões cada vez maiores de gás carbônico, o número de estômatos nas folhas do jatobá tem diminuído desde o início do século XX. Então concluímos que a planta tenta se defender do excesso de carbono, porque isso acarretaria para ela
na serie de problemas.Um dado novo em relação ao jatobá e que ele retém em proporções maiores o gás assimilado  , aumentando em 30% sua concentração de celulose.
Quer dizer ele seqüestra o que chamamos de carbono de armazenamento de longo prazo, pois a celulose feita pelas plantas fica armazenada por longos períodos de tempo.
Estamos tentando achar pontos no metabolismo que poderiam ser alterados em caso de necessidade para aumentar  o seqüestro de carbono. Até o momento apostamos na celulose e já clonamos quatro genes relacionados a síntese desse polímero no jatobá. O que queremos saber agora é se a planta está aumentando a expressão de algum desses genes no alto CO".
Outra descoberta importante feita pelo grupo e que as reservas que a arvore tem influenciam no potencial de seqüestro de carbono. Assim em ambientes sazonais (como o cerrado) o potencial de seqüestro pode ser menor, pois as plantas armazenam maiores quantidades de reservas de carbono, urna vez que perdem praticamente todas as folhas na seca e usam as reservas para desenvolver novas folhas na primavera. Onde se localizam as reservas e corno isso funciona e matéria de investigação do grupo no momento.