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Diante do Espelho: Imaginários, Cultura e Sociedade

O estrangeiro e o espelho quebrado: Lasar Segall e sua fase expressionista

Publicado em 06 julho 2017

“O desejo de comunhão entre “eu” e “tu”, ou, mais geralmente, entre homem e homem, homem e sociedade, povo, mundo, provoca a arte. ”

(Lasar Segall In: BECCARI, 1984, p.230)

Lasar Segall nasceu no dia 21 de julho de 1891, na cidade de Vilna, capital de Lituânia, então território do império russo. De origem judaica e família humilde, Segall cria-se dentro da complexidade étnica e cultural de seu meio, pois é lituânio, vivendo em território russo e marginalizado como judeu. Por fim, instala-se em São Paulo, tornando-se um europeu no Brasil - e um “brasileiro eslavo” - sem deixar suas raízes judaicas, como atesta Gilda de Mello e Souza:

“Em primeiro lugar, Lasar Segall é um homem culturalmente marginal, inclusive porque é de cidadania indecisa: lituano (ou russo de Vilna) viu, em 1915, seu país passar da Rússia ao domínio alemão e, em 1918, presenciou sua independência para, em 1940, com a Segunda Grande Guerra, tornar a vê-lo reincorporado à União Soviética. Em seguida, emigra muito jovem de sua terra, mas durante todo o período de formação na Alemanha será um báltico. A partir de 1923, quando se fixa definitivamente em São Paulo, é um europeu no Brasil. E como jamais esquecerá suas origens religiosas [...], continua sendo sempre, de onde quer que se encontre, acima de tudo judeu.” (BECCARI, 1984, p.32)

Durante sua infância, Lasar Segall residiu em Vilna, onde os judeus viviam em comunidades fechadas, “raramente indo para o bairro não judaico e mais raramente ainda saindo da cidade”, conta Vera D’Horta Beccari, que Lasar, desde cedo interessou-se pelo trabalho de seu pai, um soifer, ou seja, um escriba da Tora. A autora levanta a ideia de que foi através deste interesse e influência da atividade de seu pai, que o artista trouxe em si seus traços como pintor: “preciso, incisivo e expressivo”. Como diz o próprio Segall, sua infância em Vilna foi “melancólica e colorida”, porém frutuosa para com o imaginário que iria representar em obras como “Aldeia Russa” (imagem 01) de 1917/18, “Kaddisch” (imagem 02) de 1918 ou “Eternos Caminhantes” (imagem 03) de 1919.

Suas lembranças de Vilna são representadas nos temas pictóricos deste período, Lasar busca resgatar na memória o imaginário judaico, as cenas cotidianas e as representações populares. Contudo, existia na Alemanha uma polarização entre a arte acadêmica, neoclássica e burguesa, defendida em grande medida nas Academias de Arte, e as chamadas artes “modernas”, sejam estas impressionistas ou expressionistas.

Esta complexa relação étnica e cultural em que Lasar convivia, (como um estrangeiro em si), sua sensibilidade artística e em sentido mais amplo, humana, e os desdobramentos sociopolíticos do período entreguerras, transbordariam para suas telas e painéis, como um receptáculo de sentidos e informações, de tendências, rupturas visuais e sentimentais. Como o próprio artista afirma:

“Cada homem é filho de seu tempo e a sua expressão é a expressão desse

tempo.” (Segall In: BECCARI, 1984. p.230)

Ao longo de sua produção artística, Segall viu-se em plenas transformações estéticas: do realismo e impressionismo como primeiras produções pictóricas acadêmicas, passando pelo pré-expressionismo, expressionismo e por fim, a sua “descoberta das cores” com o modernismo brasileiro, após sua vinda para o Brasil em 1923.

Contudo, quando volta a Dresden, após sua passagem pelo Brasil em 1913, Segall depara-se com mudanças sintomáticas no cenário artístico internacional. Estas mudanças desenvolvem-se, sobretudo, através de exposições cubistas e futuristas, além de publicações de obras como “Do espiritual na arte”, e do almanaque “O Cavaleiro Azul” de Kandinsky. As pinturas de Segall, neste período, traçam correlações com estas transformações estéticas da arte europeia.

“investe na deformação cubo-expressionista, resultando na construção de

figuras triangulares apresentadas em facetas. É no cenário expressionista

alemão que a obra de Segall tomará corpo, ao mesmo tempo que o pintor se

torna experimentado nas disputas estéticas e institucionais do campo

artístico.” (PINHEIRO FILHO, 2008, p. 30)

É neste período que se vê um processo de fissura teórica e estética no expressionismo alemão, como bem analisa Claudia Valadão de Mattos: Tem-se, na Alemanha antes de 1914, portanto pré Primeira Guerra Mundial, uma geração marcada pela experiência estética “cosmopolita”“moderada”, cercada por certo “proselitismo”, buscando uma união estética, uma universalização da arte, uma visão identitária de certa “condição humana genérica”, e “não particular, seja em termos de classe, etnia ou nação”(PINHEIRO FILHO, 2008, p. 31). No entanto, passada a Primeira Guerra, tem-se outra geração que se caracteriza pela “radicalização política” e ao “nacionalismo extremado”:

“que se configura esteticamente na ideia de que caberia ao espírito alemão

exprimir o conflito entre materialismo e espiritualidade que dilacera o

homem moderno” (PINHEIRO FILHO, 2008. p.31)

Neste modelo de redefinição do expressionismo, os artistas alemães, retomam o ideário estético e teórico do gótico, que séculos anteriores, no medievo, balizava-se na dicotomia “espiritual e material”, buscando assim, um sentido artístico no conflito ontológico da matéria e da metafísica. Com base nos estudos de Claudia Mattos e Fernando Pinheiro Filho, vê-se que as obras de Segall, neste sentido, são ambíguas, pois o artista encontra-se na segunda geração (pós-primeira guerra), porém com elementos éticos e estéticos da primeira (pré-primeira guerra). Suas representações figurativas apresentavam-se com uma sensibilidade genérica de composição, mesmo tratando de representar judeus, pobres e humildes, diferentemente de outros artistas de seu período como Conrad Felixmüller e Otto Dix, por exemplo, que propunham engajamento político mais acentuado nas esferas partidárias. Porém é desta singularidade que Lasar Segall iria significar sua construção artística identitária. É através de seu distanciamento com o engajamento nacionalista do expressionismo alemão do pós-guerra, que Segall possibilitou uma crítica social corrosiva e mais articulada com o que se pode pensar em estruturação do homem moderno, da figura sofrida e melancólica, da esperança desesperada e da identidade das minorias na representação visual de seu tempo, sem deixar de lado uma harmoniosa construção de suas figuras, como uma espécie de cenário teatral tragicamente montado.

A imagem humana construída na experiência expressionista transbordava o sentimento de angústia, tensão e crítica da realidade social, política ou econômica do mundo moderno, seja na idealização universalista e homogênea da representação figurativa pré-Primeira Guerra, seja na visão nacionalista, partidária e, muitas vezes, exageradamente ideológica do pós-guerra. Lasar Segall, nesta perspectiva, caminhava como um estrangeiro no cenário artístico alemão. Sua marginalização étnica e cultural fazia-se presente na construção de sua autoimagem, assim como do mundo que o cercava, reverberando em obras como “Retrato de judeu”, de 1917 (figura 04); “Estudo para quarto de doentes” de 1921/22 (figura 05); os desenhos de “Recordações de Vilna” de 1920, (figuras 06); “Refugiados”, de 1922, (figura 07); “Vilna e eu”, de 1916/17 (figura 08); “Jovem Mendiga”, de 1920, (figura 10) ou “Rua – Duas Mulheres, de 1922, (figura 11), esta última, trazendo em sua representação o padrão de beleza feminina ocidental dos anos vinte, com roupas mais leves, saias até o joelho e cabelo estilo Garçonne, causando uma verdadeira febre entre as jovens através da mass media, do cinema estadunidense e da moda francesa, produzindo e estimulando um estereótipo que forjaria uma dada imagem da nova mulher e de uma nova feminilidade. Nesta última, Segall busca a figuração feminina comum ao seu tempo, porém, com o semblante pálido, cadavérico e melancólico.

A representação figurativa de Segall em sua fase expressionista trás em si características significativas para compreender sua “narrativa imagética” da crise humana em sentido poético-artístico. Elementos figurativos homogêneos, rostos genéricos e simplificados, geometrização e deformidade “cubo-expressionista” fazem-se presentes em suas obras desta fase. Nas primeiras composições expressionistas veem-se escolhas de cores agressivas e intensas, transbordando em pinceladas multicoloridas, preenchendo formas humanas de maneira peculiar e, em certa medida, um equilíbrio paradoxal identificado em imagens enérgicas e melancólicas. Tão importante quanto suas obras, são suas reflexões quanto à arte e o expressionismo em especial.

Ao imigrar para o Brasil em 1923 e fixar-se em São Paulo, Lasar Segall foi convidado pelo senador Freitas Valle para ministrar duas palestras sobre arte moderna para o público brasileiro. As palestras ocorreram no ano de 1924 e tiveram os títulos de “Sobre Arte” “O Expressionismo”, sendo posteriormente  publicadas na Revista Brasil e no jornal Estado de S. Paulo. Em suas reflexões, Segall critica e repudia a valorização ultranacionalista de algumas vanguardas expressionistas na Alemanha, da qual fundamentavam na ideia do “espírito alemão” (Deutsche Geist) durante o Pós-Primeira Guerra na Alemanha. Para o artista judeu de origem russa, pensar a arte e sociedade contrariava parte da vanguarda europeia daquela época, pois suas ideias sobre estética eram pautadas nas teorias de Wilhem Worringer e Wassily Kandinsky em que consistia um expressionismo cosmopolita e universalista, portanto, o inverso do pensamento local e nacional do expressionismo alemão.

“O expressionismo surgiu numa hora de maior crise espiritual da humanidade e, nesse caos, ele escutava apenas a sua própria voz, que era o desejo ardente de uma nova religião, de um novo homem...” (Segall In: BECCARI, 1984, p.266)

REFERÊNCIAS:

BECCARI, Vera D’horta. Lasar Segall e o modernismo paulista. São Paulo: Brasiliense, 1984.

MATTOS, Claudia Valladão de. Lasar Segall, expressionismo e judaísmo. São Paulo: Perspectiva: FAPESP, 2000.

PINHEIRO FILHO, Fernando Antonio. Lasar Segall: arte em sociedade. São Paulo: Cosac Naify e Museu Lasar Segall, 2008.